Pesquisadores ligados à indústria contestam presença do criador do conceito de ultraprocessados em comitê da OMS

Petição alega que Carlos Monteiro, referência internacional na área de alimentação e saúde pública, não pode defender as conclusões de suas próprias pesquisas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) começou em maio de 2025 a formar um painel de especialistas para formular diretrizes globais sobre o consumo de alimentos ultraprocessados. É um passo inédito, que reconhece o rol cada vez mais robusto de evidências científicas que apontam para os prejuízos à saúde e ao meio ambiente causados por esse tipo de produto.

A seleção, no entanto, acabou sendo inserida em uma disputa ideológica que opõe pesquisadores financiados pela indústria de alimentos e cientistas que mudaram a forma como o mundo vem entendendo a alimentação, entre eles o brasileiro Carlos Augusto Monteiro, que figura há anos entre os brasileiros mais citados em artigos científicos. A Clarivate, consultoria especializada em informações científicas, por exemplo, identificou Monteiro como um dos 17 brasileiros mais referenciados em 2025 em todo o mundo. 

A chamada pública buscava profissionais de nutrição e epidemiologia com experiência na avaliação de estudos e na elaboração de recomendações. A participação ocorre em caráter individual, sem representação de governos ou instituições de origem. O trabalho pode se estender por até dois anos e não prevê remuneração. Profissionais ligados ao setor comercial não poderão integrar o grupo.

Em 6 de novembro de 2025, a OMS divulgou a composição provisória do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes (GDG, na sigla em inglês). Entre os especialistas que constam no painel está Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP). Seu currículo inclui mestrado em Medicina Preventiva e doutorado em Saúde Pública, além de pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), o epidemiologista introduziu o conceito de ultraprocessados entre 2009 e 2010. 

A partir daquele momento, iniciou-se um período de comentários e contribuições externas. Ainda havia tempo para discordâncias. E elas vieram, contra um único candidato: Monteiro. A relevância do brasileiro para o campo de estudos dos ultraprocessados foi a razão apontada pelos críticos para a contestação da sua presença no painel.

A reação tomou a forma de um posicionamento coletivo. Até o fechamento deste texto, o documento agregava a assinatura de 388 pesquisadores, em sua maioria ligados às áreas de ciência e tecnologia de alimentos. Embora já tenha sido encaminhado, o texto segue aberto a novas adesões.

Seus signatários ressaltam não se opor “ao conceito de ultraprocessados, à qualidade da classificação NOVA ou ao debate em curso sobre a qualidade das evidências que associam os chamados ultraprocessados a desfechos de saúde”. A reprimenda se dirige à “composição do comitê e aos conflitos de interesse identificados entre os membros propostos”.

Diante de um tema atravessado por dissensos na literatura, argumentam, caberia à OMS assegurar uma análise equilibrada da produção científica. Do contrário, haveria “um risco significativo à integridade do processo”. 

A carta também interpela a organização internacional de saúde pública mais antiga do mundo sobre a forma como conflitos de interesse foram considerados na composição do comitê. 

Na leitura dos autores, ao mantero foco desses conflitos apenas em vínculos comerciais, o mecanismo de triagem gera um efeito colateral: além de “excluir indivíduos” – no caso, aqueles vinculados à indústria –, deixa à sombra “predisposições cristalizadas” – se referindo a consensos científicos – , que também “podem influenciar pareceres técnicos e recomendações”.

Com base nesse argumento, a presença de Monteiro, peça-chave na concepção e difusão da Classificação NOVA, passa a ser tratada como “inimaginável”. Após 15 anos, afirmam, atuando como “promotor internacional” de sua própria formulação, o professor emérito da USP não poderia ser visto como “desinteressado ou objetivo” no tema – ainda que declare não ter conflitos.

O abaixo-assinado abre outra frente de questionamento. Sugere que parte dos integrantes anunciados já teria defendido a lente analítica de Monteiro em outras ocasiões. Segundo eles, um indício do alinhamento que estruturaria o painel.

As objeções não se restringem à escolha dos integrantes do comitê. Também alcançam quem ficou de fora. Os signatários se queixam da decisão de excluir especialistas em ciência e tecnologia de alimentos, área associada ao estudo dos processos industriais de transformação e formulação de alimentos.

Do mesmo jeito, consideram problemática a ausência de representação da Comissão do Codex Alimentarius (CAC, na sigla em inglês), instância conjunta das Nações Unidas responsável por estabelecer padrões que orientam o comércio internacional de alimentos.

Onde o Codex Alimentarius se insere na engrenagem dos ultraprocessados

Espaço conjunto de decisões sobre normas e comércio internacional de alimentos, articulado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela OMS. Os parâmetros definidos nesse foro são incorporados pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Codex se distancia da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) ao priorizar critérios nutricionais baseados em açúcar, gordura e sódio – opção que desloca o grau de transformação industrial do centro da regulação, ao gosto da indústria de ultraprocessados.

O dissenso causa estranhamento. Isso porque o edital delimita a função do painel ao convocar seus integrantes a formular diretrizes sobre os efeitos do consumo de produtos alimentícios artificiais na saúde. A insistência em lhe atribuir outra agenda deixa entrever um descompasso entre o papel previsto para o grupo e as expectativas em torno de seu trabalho.

Em entrevista ao Joio, Carlos Augusto Monteiro observa que o debate sobre ultraprocessados teve pouca repercussão por um longo período. Isso começou a mudar quando as evidências de prejuízos foram publicadas em revistas de prestígio internacional. “Hoje, a própria indústria reconhece o problema”, afirma.

Diante disso, há duas formas de responder: contestar as evidências, mobilizando pesquisadores dispostos a questioná-las, ou alterar o próprio modelo de negócio. “A segunda alternativa, evidentemente, é a mais difícil.”

Signatários da carta

Um dos críticos do time escalado pela OMS se chama Stephan Peters. Desde 2015, o neerlandês atua como gerente de Laticínios, Nutrição, Saúde e Sustentabilidade na Associação Holandesa de Laticínios (NZO, na sigla original). A entidade reúne quase todo o processamento de leite dos Países Baixos. Entre suas associadas estão fabricantes de bebidas, fórmulas infantis, queijos, sobremesas e ingredientes industriais.

Em uma publicação no LinkedIn, Peters explica o argumento que orienta sua crítica. Para ele, não há avaliação independente possível quando os criadores de sistemas como a Classificação NOVA e o Nutri-Score se tornam seus principais defensores.

A objeção foi endossada por alguns leitores. Reagiram positivamente Ciarán Forde e Harry Wichers, da Wageningen University & Research (Países Baixos), Rafael Urrialde de Andrés, da Universidad Complutense de Madrid (Espanha), Annet Roodenburg, da HAS University of Applied Sciences (Países Baixos), além do fundador da Food Safety & Nutrition Consultancy (FSN Consultancy), Hans Verhagen. Todos são assinantes da carta endereçada à OMS.

Um nome talvez chame mais atenção que os demais. Como o Joio já mostrou, Forde é o coordenador do projeto Restructure (usado no sentido de “reformular”), um programa de pesquisa que recebe financiamento de fabricantes de ultraprocessados. Ele também assina um artigo que questiona o uso da NOVA como base para políticas públicas.

O texto tem como autor principal o irlandês Mike Gibney (1948-2024), então professor da Universidade de Dublin, consultor da Nestlé e uma das vozes que mais se empenhou em contestar o parâmetro engendrado na Faculdade de Saúde Pública da USP. Sua filha Eileen, também pesquisadora, integra o grupo de autores do abaixo-assinado que questiona a composição do colegiado da OMS.

Entre os perfis brasileiros que interagiram com a postagem está Marcia Terra, diretora da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), que mantém parcerias com empresas como Coca-Cola, Unilever, Nestlé, Herbalife e Cargill.

Outro apoio veio de João Dornellas, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), principal representante do setor no país, que, além de curtir a publicação, deixou um comentário.

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Dois pesos, duas medidas

Nem todo mundo concorda com a posição adotada pelos cientistas. É o caso de Beatriz Gouveia, pesquisadora-gestora do Observatório Brasileiro de Conflitos de Interesse em Alimentação e Nutrição (ObservaCoI). A iniciativa foi criada em maio de 2024 para monitorar conflitos de interesse em políticas de alimentação e nutrição.

Ela retoma algo já reconhecido na literatura: não existe leitura neutra das evidências. Trajetórias acadêmicas, repertórios de pesquisa e compromissos teóricos influenciam as perguntas formuladas e a forma como resultados são interpretados e debatidos.

Como esses elementos fazem parte do próprio fazer científico, não se confundem com condicionantes de ordem material, que podem e devem ser prevenidos. O perigo, observa Beatriz, é diluir o conceito a ponto de torná-lo inútil. “Quando tudo vira conflito de interesse, nada mais pode ser prevenido.”

Como OMS e FAO tratam conflitos de interesse

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), decisões em políticas de nutrição devem ser protegidas de interesses secundários – financeiros, institucionais ou profissionais – capazes de influenciar ou aparentar influenciar o interesse público.

Por isso, governos devem exigir declaração de interesses e adotar mecanismos para identificar e gerir riscos na formulação de políticas de nutrição.

Divergências científicas ou posições teóricas, por si só, não configuram conflito de interesse.

(Fontes: OMS e FAO)

Nesse sentido, tomar o envolvimento prévio de um pesquisador com determinado objeto de estudo como fator de exclusão constitui um paradoxo: quem mais se dedicou a investigá-lo passaria a ser visto como menos apto a avaliá-lo.

Se levado às últimas consequências, esse critério inviabiliza qualquer forma de expertise, substituindo o julgamento qualificado por uma neutralidade formal que, na prática, não existe. “É lógico que o contraditório deve existir. O inegociável é que a pluralidade esteja orientada à promoção da saúde”, sinaliza Beatriz.

Essa qualidade se expressa de maneira verificável na composição do coletivo. Reúnem-se ali pesquisadores de diferentes regiões do mundo, incluindo Brasil, Índia, China, Chile, Paquistão, África do Sul e Quênia, ao lado de docentes de universidades como Oxford, Harvard e Sydney.

Há especialistas vinculados a universidades, órgãos públicos de saúde e organizações da sociedade civil, com atuação em áreas como epidemiologia nutricional, políticas públicas, economia dos alimentos, ambientes alimentares, comunicação em saúde, doenças crônicas e saúde mental.

O colegiado também combina diferentes estágios de carreira e experiências na formulação de políticas, o que afasta a ideia de homogeneidade técnica ou conceitual.

Conforme Monteiro, os trabalhos do grupo ainda não começaram e seguem sem previsão de início. Para ele, o “clima de Fla-Flu” nasce de uma fricção antiga: parte da ciência de alimentos se sente deslocada nas discussões sobre processamento e saúde. E não seria diferente, já que “quem financia 99% das pesquisas na área são as fabricantes de ultraprocessados”.

Ninguém investe grandes recursos para reafirmar qualidades de alimentos como feijão, arroz, frutas ou azeite. O dinheiro tende a se concentrar onde há controvérsia. Como nas pesquisas que buscam demonstrar se um refrigerante sem açúcar é menos prejudicial que o convencional, se um ultraprocessado pode ser reformulado para parecer mais saudável ou se um ingrediente industrializado é preferível a outro.

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Suseranos do Norte

Essa discussão também se conecta a uma clivagem menos explícita. Tal como mobilizado na carta, o argumento do “conflito intelectual” subtrai a legitimidade de formas de produção científica que não se limitam a descrever fenômenos.

Em países como Chile, México e Peru, a pesquisa em nutrição passou a orientar políticas de rotulagem, tributação e promoção da saúde. Esse conhecimento foi produzido, em grande medida, com recursos públicos, no interior de universidades e sistemas nacionais de saúde.

Por aqui, não é diferente. “A trajetória da epidemiologia no Brasil nunca se restringiu a análises quantitativas descontextualizadas; pelo contrário, sempre esteve fundamentada em uma prática radical de transdisciplinaridade, integrando a racionalidade científica com a complexa realidade sanitária do país e a produção de evidências para o SUS, sob a forte influência das concepções de determinação social da saúde”, escreve, em artigo disponível no repositório SciELO, Maria Laura da Costa Louzada, professora do Departamento de Nutrição da FSP/USP e vice-coordenadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens).

Em contraste, muitos dos pesquisadores e consultores que subscrevem o abaixo-assinado encaminhado à OMS atuam em instituições, associações profissionais e empresas de consultoria integradas ao circuito científico e regulatório do chamado Norte Global.

Ali, a pesquisa também é financiada, em larga medida, com recursos públicos. Ao mesmo tempo, são corriqueiras cooperações com empresas, atividades de consultoria e participação em estudos pagos pelo setor produtivo. A interlocução com a indústria termina, assim, incorporada ao cotidiano acadêmico e aos espaços onde se discutem regulações e políticas públicas.

Há um caso que ilustra bem isso. A carta tem entre seus subscritores David Mela, autor de artigo publicado na revista Current Developments in Nutrition. O texto sustenta que o debate sobre conflitos de interesse na nutrição acabou aprisionado em uma lógica binária, concentrada nos vínculos com a indústria e pouco atenta a outras influências.

Segundo o autor, “lealdades intelectuais” a conceitos ou modelos consolidados também podem influenciar a forma como evidências são interpretadas, sobretudo quando seus formuladores passam a apadrinhá-los. Nessas circunstâncias, escreve, classificações deixam de operar como hipóteses ou intervenções passíveis de teste e passam a ser tratadas como “fatos estabelecidos”.

Mela não se dá por satisfeito. Diz que a ênfase em relações com o setor produtivo pode acabar deixando de fora especialistas com experiência aplicada, pauperizando o conjunto de perspectivas em instâncias técnicas. Para ele, conflitos – financeiros ou não – deveriam ser avaliados pelo risco real de influência.

A opinião de Mela é consistente com sua trajetória. Ele é acionista da Unilever, onde trabalhou até 2019. Desde então, passou a atuar como consultor nas áreas de carboidratos, açúcares e adoçantes, tendo entre seus clientes companhias como Cargill, Danone, CBC Israel e Tate & Lyle. 

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Além disso, integrou por duas décadas o Comitê Científico de Nutrição do Reino Unido (SACN, na sigla em inglês), alvo de críticas pelos vínculos de parte de seus membros com o setor privado. Não por acaso, o órgão considera insuficientes as evidências para adotar a Classificação NOVA.Neste texto, o Joio traz outras informações sobre a trajetória de Mela.

Na legenda, afirmou ter criado o “ultraprocessado perfeito” após seis horas de “tratamento térmico”. De acordo com a classificação NOVA, no entanto, o cozimento lento, que pode ser realizado em cozinhas domésticas, não tem qualquer relação com processos de fabricação dos ultraprocessados.

É uma provocação ousada para quem foi punido pela Universidade de Wageningen por listar, em vários artigos acadêmicos, uma universidade da Arábia Saudita como seu principal vínculo, mesmo estando contratado e trabalhando na própria Wageningen – prática que ajudava a elevar a posição da instituição saudita em rankings científicos internacionais.

Após uma investigação interna, a universidade determinou que Fogliano perdesse a chefia de sua área por dois anos e fosse repreendido formalmente por ter agido de forma incorreta.

Novamente, Novo Nordisk

Outro caso se soma a esse movimento de redefinição do que se entende por conflito de interesses. Susanne Bügel é um dos nomes que assinam a carta enviada à OMS. Vinculada à Universidade de Copenhagen (Dinamarca), a pesquisadora esteve à frente de uma manobra orquestrada pela Fundação Novo Nordisk, acionista majoritária da farmacêutica responsável pelo Ozempic. A intenção seria modificar e “aprimorar” a Classificação NOVA. 

Em 28 de janeiro do ano passado, mais de 60 cientistas independentes divulgaram uma carta aberta alertando para a influência de interesses comerciais na iniciativa. No texto, os autores lembram que a companhia “obtém lucros substanciais com o tratamento de doenças relacionadas à alimentação, incluindo obesidade e diabetes”. 

Além de não haver evidência científica para rever a classificação, causava estranheza que a proposta viesse de uma empresa que lucra tratando doenças associadas ao mesmo sistema alimentar que agora diz querer “corrigir”.

Marion Nestle é uma das pesquisadoras que rechaça a proposta. Professora emérita de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York, foi ela quem escreveu Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos, um dos livros mais influentes sobre a relação entre indústria, conflito de interesses e políticas alimentares.

Em conversa com o Joio, Marion disse que é difícil desvincular a resistência à NOVA de sua origem. Para ela, se o sistema tivesse surgido nos Estados Unidos ou no Reino Unido, é possível que sua entrada no debate científico e regulatório encontrasse menos resistência. “Nós, norte-americanos, não damos atenção a nada que acontece fora do país, e certamente não na América Latina”, admitiu, com franqueza.

Os pingos nos is

Essa leitura dificulta enquadrar a reação à presença de Carlos Augusto Monteiro no comitê da OMS como simples desacordo técnico. O incômodo parece se inscrever numa lógica mais ampla de colonialismo epistemológico, na qual ideias, métodos e marcos analíticos produzidos fora do eixo Estados Unidos-Europa são submetidos a um regime de suspeição estranho aos centros hegemônicos.

Em 1942, o sociólogo Robert Merton (1910-2003) formulou quatro imperativos institucionais que definiriam o ethos da ciência moderna. Um deles é o desinteresse. O termo não implica ausência de valores ou posições, mas a primazia dos interesses coletivos do empreendimento científico sobre ganhos privados individuais.

A NOVA é uma amostra desse princípio em ação. Ao propor um novo horizonte analítico sobre a alimentação, livre de relações comerciais com qualquer segmento da indústria, aproximou a racionalidade científica da complexa realidade sanitária do país.

É o que se convencionou chamar de “conhecimento situado”, ou seja, um saber produzido a partir das condições em que saúde, sociedade, economia e cultura se imbricam. Isso não o torna ilegítimo nem suspeito. Pelo contrário, é o que lhe confere utilidade.

Se ninguém acusa de “conflito intelectual” quem demonstrou os danos do cigarro por defender políticas antitabagistas, não há razão para tratar este caso de forma diferente.

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