Joio dá início à cobertura de sua terceira eleição nacional partindo do princípio de que, diante da extrema direita, não existe escolha difícil. Reportagens farão balanço do que foi realizado e das propostas construídas pela sociedade

Março começa tomado por aquele sentimento estranho, porém conhecido, de que temos um guarda-chuva dentro desse estômago coletivo chamado Brasil. Lá vamos nós, de novo, à sensação de impotência diante de uma avalanche de extrema direita que parece infinita e automaticamente renovada pelo exército de likes, compartilhamentos e notícias falsas.
É uma quaresma sem tempo para resguardo, nem para meditação. Há quem diga que é preciso esperar o início oficial da eleição para falar sobre eleição. Como, se parecemos viver num plebiscito constante? Em meio ao conflito no Oriente Médio, à ascensão de Flávio Bolsonaro e a um sentimento de crise permanente, o Joio dá início à cobertura de sua terceira eleição nacional.
Nesses primeiros meses, nossa cobertura será pautada pelo balanço de uma série de iniciativas com foco na garantia da segurança alimentar e nutricional e da promoção da alimentação adequada e saudável. Abordaremos especialmente políticas públicas e diretrizes da alçada do Executivo federal – em outras palavras, do governo Lula. A primeira matéria da série analisa as políticas de estoques estratégicos de alimentos nos últimos 3 anos.
À medida que os planos de governo sejam conhecidos, nossa cobertura formulará comparação de propostas, tomando como base não apenas o que está no papel, mas o que foi feito pelas duas principais forças políticas em disputa.
Até aqui, vivenciamos na trajetória do Joio um empate entre forças democráticas e antidemocráticas – 1 a 1, se levarmos em conta apenas a eleição ao governo federal, já que, de forma mais ampla, estamos vivenciando um eterno 7 a 1. Esperamos lá em novembro poder respirar aliviados, ainda que apenas por cinco minutos, até retomar o fôlego e seguir em frente. Tocou a nós, enquanto veículo, estar embebidos neste tempo histórico no qual estamos todas e todos apreensivos, sabedores de que existe algo em curso que ainda não tomou sua forma definitiva. Uma era tensa, imprevisível e de difícil interpretação.
A cada quatro anos, renova-se coletivamente a sensação de que Essa é a Maior Eleição de Nossas Vidas. E talvez seja, até que a próxima prove o contrário. Se você é nosso leitor regular, queremos pedir licença para partir do pressuposto de que compartilhamos de um apreço pela democracia e de uma apreensão enorme em relação ao futuro.
Em maio de 2022 publicamos um editorial no qual explicamos por que enxergávamos o voto em Lula como único caminho para manter a democracia. Em 2026, fazemos isso ainda mais cedo. Em parte porque gostamos de ter uma posição transparente com nossos leitores, ouvintes e seguidores. Sabemos que é incomum, no jornalismo brasileiro, que veículos declarem sua posição. Entendemos que você tem o direito de saber o que pensamos e que não é honesto, intelectualmente, fingir neutralidade, menosprezando a capacidade do leitor de entender o que está nas entrelinhas.
Duvidamos de quem declara neutralidade no jornalismo, o que não significa que façamos um jornalismo amador e desprovido de boas intenções: o fato de sermos posicionados vem, justamente, da capacidade de promover investigações profundas, que seguem todo o repertório de apuração e de cuidados éticos.
Em parte, a declaração de apoio ao voto em Lula decorre também de uma obviedade. Mais uma vez teremos uma eleição plebiscitária, dividida entre a possibilidade de respirar entre as brechas de democracia que sobraram e o contrário disso. É importante dizer que essa posição institucional não é necessariamente a posição de todos na equipe. Temos uma diversidade de opiniões em torno desse assunto.
Entendemos que a vitória de Lula é a única chance de iniciarmos 2027 pensando no futuro que nos aguarda em 2030, quando, diante do fim da trajetória eleitoral dele, teremos um cenário profundamente desafiador.
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Todos frustrados
Convidamos a navegar essas eleições desprovidos de qualquer complexo de superioridade. Sabemos que é difícil não associar o voto no clã Bolsonaro a uma forma delirante de participação social. É complicado não interpretar como um aval à barbárie e ao extermínio de nós mesmos, do sinal verde à formação de um governo baseado no triunfo dos que tudo podem.
Mas já levamos tempo suficiente nessa situação para entendermos que é possível separar eleito e eleitor. Muitos eleitores da extrema direita estão tão frustrados, perdidos e irritados quanto nós. O colapso climático adentrando nossas casas, o aprofundamento global da desigualdade, a sensação de caos permanente e o encurtamento de nosso poder de compra criam uma sensação de salve-se quem puder – ou melhor, de que alguém nos salve.
Não se trata de aderir a um bom-mocismo ingênuo que aposta que um simples diálogo olho no olho resolverá a questão – também já superamos essa fase. Este será pelo menos o terceiro ciclo eleitoral federal sob uma clara manipulação da vontade. O governo Lula não quis ou não pôde avançar na regulação das plataformas de desinformação. A elas, e dentro delas, somou-se nesse período a banalização da imensa capacidade manipulativa dos mecanismos de inteligência artificial. Pior, os barões de Instagram-WhatsApp, X (ex-Twitter) e outras empresas do setor deixaram transparente a posição em favor de Donald Trump e da extrema direita. Nesse sentido, não parece nos restar muita saída: é melhor apertar os cintos.
Já sabíamos, em 2022, que a derrota de Jair Bolsonaro não faria desaparecer o fascismo. Afinal, como bem nomeou o filósofo Vladimir Safatle, estamos diante de uma forma ordinária, cotidiana de fascismo. Em 2023, não precisamos nem de um mês inteiro para estarmos seguros disso – e inseguros de todo o resto. O 8 de Janeiro ofereceu provas fartas àquilo que sabíamos: as forças políticas agora encabeçadas por Flávio Bolsonaro representam a derrocada de qualquer forma de democracia.
Essa democracia, inaugurada pela Constituição de 1988, é reconhecidamente limitada e frágil. Entre outras coisas, não dá conta de resolver nossas raízes de desigualdade social, racismo e misoginia. Ainda assim, termos vivido quatro anos sob o caos enquanto forma de governo nos fez entender bem onde isso pode nos levar: sem meias palavras, ao aniquilamento de vidas humanas e não humanas. O voto em Lula significa justamente aceitar essa limitação, reconhecendo que ela é um mínimo necessário para a construção de algo mais sólido e profundo.
O terceiro mandato do petista teve inúmeros problemas, a começar pela falta de disputa do imaginário político, pautado sempre por um conformismo que acaba por atentar contra a própria sobrevivência desse governo (e da esquerda). Lula e seus ministros foram incapazes de expor e contrapor a fase caótica e terminal do capitalismo em sua forma financeira.
Porém, há um número grande de situações que deixam nítida a diferença em relação à extrema direita. A recente derrubada do desastroso decreto de exploração do rio Tapajós, a retomada da política de valorização do salário mínimo e a tardia adesão ao fim da escala 6×1 são apenas alguns exemplos entre tantos.
A reabertura de primeira hora do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e a nova saída do Mapa da Fome das Nações Unidas representam diferença suficiente entre as duas forças políticas em disputa. Bolsonaro semeou a barbárie. Seu filho não apenas quer fazer o mesmo: ele precisa fazê-lo, porque é com nosso desespero que a extrema direita consegue criar as condições para governar.
É difícil deixar de mencionar também que, nesses quatro anos, Lula mostrou-se um líder necessário no cenário internacional de predomínio conservador. A declaração firme contra o genocídio dos palestinos e a exposição do vergonhoso silêncio dos líderes europeus foram um momento-chave desse mandato.
A condição de um território imenso e de uma economia grande dá ao Brasil um papel estratégico no continente e no mundo. A subalternidade de Jair Bolsonaro a Donald Trump e a incompreensão em relação a essa dimensão estratégica permitem antever o que seria o governo do filho 01 em termos de soberania. Representaria, para a América do Sul, um grande passo no anoitecer democrático, no momento em que vários países são governados por líderes autoritários.
Não existe dúvida de que o retorno triunfante de Trump representa um desafio adicional para as forças democráticas. E não é qualquer desafio. O presidente dos Estados Unidos retomou de forma bastante espetacular a Doutrina Monroe, segundo a qual todo o continente americano é encarado como zona de influência. Não passamos, de acordo com essa visão, do quintal do Tio Sam. Um território sem soberania e, portanto, livre para interferir à vontade – inclusive nas eleições.
No cenário interno, a vitória do petista é também o único caminho para impor algum tipo de freio ao Congresso Nacional. Vale fazer uma menção especial ao poder da bancada ruralista. Lula fez pouco para conter esse poder. Pelo contrário, seguiu alimentando o agro como se fosse seu filho rebelde e ingrato. Mas, ainda assim, a existência de políticas contra o desmatamento e a própria possibilidade de articulação de forças sociais contra o colapso representado por esse setor são itens importantes sobre a mesa.
A articulação da extrema direita para dominar o Senado, obtendo uma espécie de poder de censura sobre o Executivo e o Judiciário, é pavorosa, e será tema de um novo editorial ao longo desse processo eleitoral.
Somos partidários da noção de que as eleições não deveriam ser o momento-chave da participação política. Em termos ideais, a participação estaria garantida em nossas vidas cotidianas, em uma série de espaços institucionais e não institucionais capazes de assegurar que todas e todos tenhamos o direito de opinar, escutar, ser escutados. Mas não é assim. E sabemos, também por causa de Bolsonaro, que os governos estão enfraquecidos em termos de construção, mas ainda podem muito em termos de destruição.