Ao longo de dois anos, Joio terá série que mapeia perdas alimentares associadas ao sistema alimentar dominante

Fogueiras de livros são uma cena chocante e hostil. Durante a Inquisição na Europa, a invasão das Américas, o nazismo na Alemanha e a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, a queima de escritos e manuscritos foi um ato simbólico de apagamento do outro. Do diferente. Do diverso. É uma declaração de apreço pela homogeneidade e pelo autoritarismo.
Faz anos, enquanto percorro milhares e milhares de quilômetros de lavouras de soja Brasil afora, penso nas fogueiras que apagam histórias, culturas e saberes. Às vezes, literalmente, na forma de queimadas que abrem espaço para a violência, a grilagem de terras comunitárias, o desmatamento e a expulsão de povos e comunidades tradicionais. Às vezes, metaforicamente, mas, ainda assim, com efeitos concretos.
Por que essas fogueiras ainda parecem aceitáveis para pessoas que certamente se revoltariam com a queima de livros? Será a imensa dispersão geográfica? O fato de que esses saberes são invisíveis para quem não os detém? Ou será porque esse fogo queima conhecimentos de pessoas pobres, à margem do que é formalmente reconhecido como digno de memória?
Há alguns anos, nós, no Joio, pensamos como viabilizar a produção de uma série de investigações com foco em perdas associadas ao avanço do sistema alimentar dominante. E, agora, ela está de pé. Convidamos a acompanhar, ao longo dos próximos dois anos, o “Mapa das perdas alimentares”, uma série em texto, áudio e – sim – mapas sobre o que estamos permitindo queimar.
Não por acaso, esse projeto nasce de um paralelo com a cultura popular. No final dos anos 1950, a cantora e compositora Violeta Parra notou que o cancioneiro popular chileno estava sob risco. Por isso, decidiu percorrer o país coletando composições. Esse trabalho resultou em álbuns sobre o folclore do país e teve influência em toda a trajetória de Violeta Parra.
É o que propomos com o “Mapa das perdas alimentares”: documentar não apenas como forma de não esquecer, mas de frear. É um convite à sensibilidade. A entender que o que temos de mais valioso tem sido descartado. Num contexto de colapso climático, virou lugar comum a ideia de que temos de dar alguns passos atrás para valorizar os conhecimentos de povos e comunidades tradicionais, mas não virou lugar comum a ligação inescapável disso com a proteção dos territórios, dos saberes e das práticas.
No texto de estreia, a repórter Julia Dolce e o designer João Vitor Ambrósio contam como os vários ciclos do turismo no sul da Bahia têm causado perdas para os moradores que se alimentavam da restinga, um ecossistema invisibilizado e ameaçado. O fechamento do acesso às matas, a derrubada de vegetação e o encarecimento do custo de vida ocasionam uma erosão dos modos de fazer e de comer.
Ao longo dos próximos meses serão publicados outros textos sobre casos-chave e, por fim, um mapa formulado de forma colaborativa, a partir de entrevistas, trabalhos acadêmicos e aportes trazidos por nossos leitores e ouvintes. Aliás, ainda é tempo de contribuir. Caso conheça algum caso interessante, basta enviar mensagem de WhatsApp para 11 94279-0353. Frutas que se perderam, peixes, castanhas, receitas e modos de fazer. Por vezes, o que parece desesperança é também reconexão: variedades perdidas em um lugar do Brasil ainda estão amplamente disponíveis em outros, permitindo tecer laços a partir da alimentação.
É importante dizer que a monocultura é, de fato, ponto de partida, mas não é ponto de chegada. Nosso objetivo é olhar para o avanço do sistema alimentar dominante em todos os aspectos de nossas vidas. A interiorização dos ultraprocessados é um exemplo claro de como as perdas se dão não apenas na terra, mas também nos pratos. Talvez seja justo dizer que os pratos, principalmente, espelham e registram essas perdas. Por exemplo, as plantas espontâneas têm desaparecido ao longo das últimas décadas em todos os cantos do país, em muitas ocasiões por uma visão cultural de que os alimentos trazidos de fora são superiores.
Ou seja, perde-se por fogueiras literais, mas também por fogueiras imaginárias. Por culturas jogadas à sorte da destruição. É triste constatar que ainda impera na política institucional a visão de que os saberes populares e partes do território são descartáveis – a visão do Cerrado, um bioma que ocupa um quarto do Brasil, como zona de sacrifício é a expressão mais extensa dessa lógica.