Foto: Pedro Stropasolas

Antídoto aos desertos alimentares, hortas urbanas levam comida fresca para as mesas das periferias de São Paulo

, especial para o Joio

Na cidade em que 3,1 milhões de pessoas vivem com acesso restrito a alimentos in natura, experiências comunitárias de plantio criam ilhas verdes em meio ao concreto

Dona Guaraciaba Elena de Araújo, que se descreve como “mulher preta, filha de mineira com tupi-guarani”, vive no extremo leste da capital paulista, em um dos muitos bairros periféricos considerados desertos alimentares na cidade. São áreas com pouca ou nenhuma disponibilidade de alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras. Há 40 dos seus 74 anos de vida, no entanto, dona Elena se dedica a fazer da Horta Comunitária da Vila Nancy, no bairro de Guaianases, uma ilha verde em meio a um mar de asfalto, casas de alvenaria e mercadinhos com ultraprocessados.

Nos 91 municípios brasileiros com mais de 300 mil habitantes, cerca de 25 milhões de pessoas vivem em desertos alimentares. Dessas, quase um quarto está em comunidades urbanas ou favelas, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social

Manaus é a capital com a situação mais crítica, com 52,5% da sua população em desertos alimentares. Em São Paulo, o problema impacta 27,8% dos moradores, o que em números absolutos equivale a 3,1 milhões de pessoas. 

É justamente nesses lugares que experiências de agricultura urbana têm fincado raízes. A horta comunitária da Vila Nancy – com um lago de peixes, diferentes espécies de batata-doce e banana, inhame, café, quiabo, abóbora, taioba, hortaliças, plantas medicinais e árvores frutíferas – foi uma das primeiras a ser homologada em São Paulo. A partir do movimento de moradia do bairro, da associação de moradores e também impulsionada por integrantes da Teologia da Libertação da Igreja Católica, a horta foi implantada em 1986 e protege três nascentes. 

De lá para cá, diversas iniciativas brotaram na maior metrópole do país. De acordo com o Sampa+Rural, uma plataforma da Prefeitura que reúne a base de dados pública sobre a dinâmica agrícola, existem atualmente 858 unidades de produção agropecuária em São Paulo. Destas, cerca de 300 são hortas dentro de equipamentos públicos, como escolas e postos de saúde. Outras 191 são hortas urbanas e comunitárias nascidas de forma autônoma e geridas pela sociedade civil. O número é o que a gestão municipal conseguiu mapear e pode estar subnotificado. 

“Onde tem deserto alimentar na cidade de São Paulo é onde está, principalmente, a agricultura urbana”, atesta o gestor ambiental André Biazoti, assessor técnico no Instituto Pólis e membro do Coletivo Nacional de Agricultura Urbana. “É uma ferramenta importantíssima, uma fonte de alimento fresco diretamente para as periferias urbanas. Normalmente é um espaço verde que, diferente dos parques, tem uma gestão popular muito forte”, descreve. 

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Alívio no corpo e no bolso

A rotina de Elissandra Pereira de Oliveira, trabalhadora doméstica de 42 anos, é pesada. Durante a semana, ela acorda às 5h para arrumar os filhos para a escola. Trabalha de segunda a sábado, em escala 6×1.  Mesmo assim, não passa um dia sem ir no seu pedaço de terra na horta comunitária do Parque Continental, na zona oeste de São Paulo. Surgida em 2020, em meio à pandemia de covid-19, a Nossa Horta é dividida em lotes cultivados por 46 famílias. 

Nascida em Malhada (BA), Sandra, como é conhecida, trabalhou desde pequena na roça, principalmente na panha (colheita) de algodão. Mas desde que se mudou para a capital paulista aos 17 anos, não tinha mais mexido na terra. “Gosto de tudo que é de roça, de verde, de planta, eu amo”, conta do seu reencontro. “Essa semana eu levei quiabo todo dia para casa”, diz. Como ela, são mulheres e nordestinas a maior parte das pessoas que mantêm a Nossa Horta. 

Surgida durante a pandemia de covid-19, a Nossa Horta é dividida em pequenos lotes, cada um cuidado por uma família. Foto: Pedro Stropasolas

Piauense, Dilva da Gama Rocha chegou a São Paulo há cinco décadas, quando tinha 10 anos. Ao contrário de Sandra, não tinha experiência prévia com a terra. “Nunca mexi com isso e agora já conheci várias plantas. Tomei gosto, vivo mais aqui do que na minha casa. Mudou tudo. Perdi bastante peso com alimentação. Tudo orgânico. E mudou também no bolso”, ressalta. 

Um estudo da ACT Promoção da Saúde lançado neste ano mostra que, nos últimos 20 anos, os preços dos alimentos aumentaram muito mais que a inflação geral. Desde 2006, a inflação teve alta de 186,6%. Já os alimentos, encareceram 302,6%.  

Nestas duas últimas décadas, frutas como as que as mulheres do Parque Continental colhem do pé aumentaram 180% a mais que a inflação do período, enquanto legumes e tubérculos subiram 90% a mais.  

Baiana como Sandra, mas de Pilão Arcado, Maria Dilva Duarte Mendes foi quem, junto com o irmão, teve a ideia de usar o terreno ocioso embaixo do linhão de energia para plantar. A vontade já se gestava, mas foi lidando com o luto pela morte da mãe que nasceu a Nossa Horta. “Acabou um pouco da minha tristeza, a minha ansiedade. Não gosto de falar muito que começo a me emocionar”, diz Dilva, em meio ao cultivo de alface, rúcula, beterraba, salsa, coentro e couve.  

Na divisa com Osasco (SP) e perto da estação de trem Presidente Altino, a Nossa Horta toma os dois lados da rua. Dilva conseguiu que parte do espaço fosse cedida pela Enel, outra pela Petrobras e começou a chamar as famílias da vizinhança. A concessionária de energia e a estatal petrolífera custeiam a água para a irrigação. 

“A gente é comunitário entre a gente. Tipo eu tenho coentro, mas minha vizinha não tem. Então ela vai ter do mesmo jeito”, explica Dilva. “Tem muito lugar na cidade ainda que pode estar fazendo horta. A gente pensa que não é possível, mas é”, salienta. 

Dilva Mendes é fundadora da Nossa Horta, gestada majoritariamente por mulheres, nordestinas e idosas. Foto: Pedro Stropasolas

Os alimentos produzidos na Nossa Horta vão para a mesa das famílias, para doações e, eventualmente, alguém consegue vender algo. Levantamento recém-lançado pelo Instituto Pólis mapeou 508 instrumentos legais relacionados ao assunto em 40 municípios paulistas. Entre as formas de apoio das prefeituras à agricultura urbana, a mais comum é o fornecimento de insumos e sementes, seguida pela assistência técnica. A menos frequente é a disponibilização de espaços para comercialização.

Esse é um dos motivos que faz com que a zona sul de São Paulo, região que concentra a maior parte da produção de alimentos da cidade, tenha diversos pontos considerados desertos alimentares. A comida saudável é cultivada ali, mas não fica: é levada para ser vendida no centro expandido. 

O distrito do Grajaú, por exemplo, tem 127 agricultores. Mas conta com apenas 0,5 estabelecimento com alimentos in natura para cada 10 mil habitantes. Os dados são de outro estudo do Instituto Pólis, o Sampa em foco: raio-x da cidade de São Paulo a partir dos indicadores do direito à cidade.

Da “batalha da alimentação” às ocupações

“Agricultura sempre existiu na cidade de São Paulo”, diz Biazoti, ao lembrar que a razão dos nomes Viaduto do Chá e avenida Jacu-Pêssego é literal: são dois pontos da capital onde esses cultivos foram importantes entre o fim do século 19 e meados do século 20. Este período é um dos marcos da agricultura urbana em São Paulo na visão de Biazoti, que estudou o tema no seu mestrado em Ecologia Aplicada na USP. 

Outro marco é a década de 1980, no período de redemocratização. Franco Montoro (então PMDB) foi eleito  governador em 1982, na primeira eleição direta para o cargo desde o golpe militar. Após tomar posse, em 1983,  implantou um programa que ficou conhecido como “batalha da alimentação”. 

Entre políticas como compra de produtos de agricultores para a merenda escolar, a gestão Montoro fortaleceu a criação de hortas comunitárias. Na época, 1,7 mil hortas foram instaladas na capital e na região metropolitana. Entre elas, a da Vila Nancy, cujo terreno de 8.250 m² foi cedido pela prefeitura.

O boom seguinte veio, na avaliação de Biazoti, no início dos anos 2000, no âmbito do Programa Fome Zero do primeiro governo Lula (PT) e do programa municipal de agricultura urbana da gestão de Marta Suplicy em São Paulo. “Essa política permanece viva até mais ou menos 2008. Depois enfraquece”, explica.

No caldo da onda global dos movimentos occupy em 2011, de ações de ocupação do espaço público e das manifestações de junho de 2013 no Brasil, veio um novo período da agricultura urbana na capital paulista, desta vez impulsionado pela sociedade civil organizada.  

Surgiram o movimento dos hortelões urbanos, composto por pessoas majoritariamente de classe média que ocupam praças para fazer hortas; o Muda São Paulo, um conjunto de organizações promovendo a agroecologia na cidade; e a Plataforma de Apoio à Agricultura Orgânica, voltada a pressionar por mudanças institucionais no tema. 

Wagner Ramalho, naquele agitado ano de 2013, tinha 33 anos e deu um jeito de fazer seu projeto de conclusão do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental na FMU sair do papel. Queria fazer uma horta comunitária na comunidade onde cresceu: extremo norte da cidade, no distrito de Tremembé, no bairro com o sugestivo nome de Jardim Filhos da Terra. 

“A gente que é da periferia sempre foi sustentável”

Wagner fez um primeiro canteiro no espaço da Associação Mutirão, Organização da Sociedade Civil (OSC) onde ele mesmo estudou quando criança. Ali funcionam um Centro de Educação Infantil (CEI), um Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) e um Centro para Juventude (CJ). A iniciativa cresceu e se transformou na ONG Prato Verde Sustentável. 

Atualmente a horta agroecológica tem biodigestor e cisternas. A cada ano, produz 40 toneladas de alimentos e faz a compostagem de 60 toneladas de resíduos. Todos os dias, 500 refeições são distribuídas gratuitamente.  

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Horta do Prato Verde Sustentável, onde centenas de marmitas são distribuídas diariamente no extremo norte de São Paulo. Foto: Pedro Stropasolas

“Enquanto nos centros urbanos há empórios, restaurantes com horta ou produto orgânico muito próximo, a periferia tem os ultraprocessados. Bolacha, pão, macarrão instantâneo. Que é barato e de fácil acesso”, descreve Ramalho. “Enquanto, antigamente, o que era barato? Comida in natura. A gente plantava batata-doce, couve, beterraba, cenoura. E trocava. Hoje a cultura do consumismo fez as pessoas perderem isso”, avalia.

“Então esse projeto do Prato Verde não é só sobre alimentação”, diz Wagner. “A gente não consegue fazer uma grande produção de alimentos agroecológicos para combater a fome de uma cidade, mas produzimos a ideia, a informação, a educação”, explica. “A gente que é da periferia sempre foi sustentável”, resume, ao dizer que não entende a educação ambiental como forma de “levar o conhecimento”, mas como um impulso para fazer lembrar.  

“A gente é de origem quilombola, ribeirinha, indígena. Sempre cultivou. Está no nosso sangue, está no nosso DNA”, pontua Ramalho. Ele mesmo foi criado, durante parte da infância, por uma família de ascendência indígena em Presidente Prudente (SP). Foi dona Josefa, sua mãe adotiva, que lhe ensinou a ser amigo da terra. Ao fazer de uma horta uma “escola aberta”, avalia Wagner, “você resgata memórias”. 

Dona Guaraciaba Elena, por exemplo, decidiu que não vai mais se referir às Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou Pancs, dessa forma. Para ela, ora-pro-nobis, taioba ou bertalha deveriam ser chamadas de tradicionais. “Porque são plantas que a avó comeu, a bisavó comeu”, argumenta. “Hoje em dia a gente está retomando.”

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Dona Elena é uma das que cuida há 40 anos da Horta da Vila Nancy, quase na fronteira entre a capital paulista e Ferraz de Vasconcelos (SP). Foto: Pedro Stropasolas

“No pós-pandemia, o pessoal entendeu que é necessário comer um alimento mais saudável, que se volte a comer o inhame para manter a imunidade. Tem pessoas que não comiam taioba, passaram a comer. Teve uma mudança”, avalia dona Elena. “A gente vai voltando. De volta ao tempo da vovó”, sorri, enquanto seus netos esperam que a entrevista acabe para mostrar os coelhos e os peixes da horta comunitária. 

Para Biazoti, o momento atual combina  uma redução de hortas “de caráter ativista”, o crescimento de iniciativas em equipamentos públicos e mais orçamento e estrutura, por meio de políticas públicas, para os agricultores que já existem.  

“Em geral, acho que a gente ainda está num movimento de descobrir a agricultura em São Paulo”, avalia o pesquisador. “Ela não vai sozinha abastecer as cidades como um todo. Eu acho até perigoso pensar nisso porque a gente está num momento muito grande de tecnificação do campo. Então se a gente defende uma ideia de que a agricultura urbana produz todos os alimentos, então a gente pode transformar o campo só em produtor de commodity. Essa não é uma realidade que a gente quer construir”, defende Biazoti.

O mesmo estudo da ACT sobre inflação de alimentos no Brasil mostra, também, como o aumento dos preços foi acompanhado por uma diminuição da terra agricultável destinada ao cultivo de alimentos. No lugar de essas áreas serem usadas para a produção de arroz, feijão, batata e mandioca, o avanço do modelo agroexportador no campo as usa em especial para soja, milho e cana. Há 20 anos, essas commodities agrícolas tinham 4 vezes mais hectares do que alimentos básicos. Hoje, têm 12 vezes mais. 

Para Biazoti, além do combate à fome, as hortas urbanas “são espaços de fortalecer comunidades, criar áreas verdes, aumentar a permeabilidade do solo e diminuir a temperatura”. E têm o potencial de fazer alimento fresco chegar em regiões da cidade onde o que está sendo produzido nas áreas rurais não chega.  

“Tem dado certo, senão a gente não estaria aqui há 40 anos”, pontua dona Elena, ao lado do esposo, Osmar Tadeu, e de vizinhos que cuidam da Horta da Vila Nancy. “Mas a gente nunca visou o financeiro. A gente visou mesmo proteger esse cantinho e ser feliz”, ressalta. “Eu acredito que é por isso que estamos aqui ainda. De pé, sustentados, pegando na enxada. Com coragem, com vontade de fazer com que a cidade plante”, aponta a agricultora. “A gente acha que é necessário. É necessário mesmo. Salvar o que resta”, diz.

“Eu e Tadeu estamos de passagem. Nós não somos proprietários nem meus filhos vão ser herdeiros. Sabe o que nós estamos deixando aqui? O respirar dos seus filhos”, sintetiza dona Elena. “Meu filho mais velho ama isso aqui. Eu espero que ele ainda assuma com outras pessoas para tocar mais um pouco o barco aqui. Meus netos gostam”, diz, balançando afirmativamente a cabeça: “Esse é o querer da gente. Eu espero sentar na cadeira de balanço para ver”.

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