Foto: Ascom MPPE/Flickr

Fome cai, mas custo de alimentação saudável aumenta no mundo

Um quarto da população mundial está em insegurança alimentar moderada ou grave e quase um terço não consegue ter uma dieta saudável, diz relatório da FAO. Mulheres e crianças são os grupos que mais sofrem com falta de diversidade na alimentação

Pelo terceiro ano seguido, caiu a quantidade de pessoas que sofrem com a fome no mundo. O custo de uma dieta alimentar saudável, no entanto, tem subido. Os dados são do relatório da FAO “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo”, publicado em 21 de julho

Em 2025, 2,1 bilhões de pessoas não tiveram o suficiente para comer, seja em restrição de porções, seja na qualidade da comida. Destas, 778,6 milhões estavam em insegurança alimentar grave – a face mais reconhecível da fome, quando as pessoas não conseguem fazer todas as refeições. Os números representam 25,8% e 9,5% da população mundial, respectivamente.

Todos os anos, a agência da ONU para o combate à fome e à pobreza lança um documento em que apresenta os dados globais sobre o tema, analisando a conjuntura e seus efeitos sobre a alimentação e nutrição. Junto, é publicado o Mapa da Fome, do qual o Brasil saiu em 2025 – e se mantém fora.

Intitulado Compreender e enfrentar o alto custo de uma dieta saudável, o relatório atual analisa os padrões globais que compõem o preço diário mínimo para manter uma alimentação adequada e identifica o que é necessário para diminuir esses custos.

O que é uma dieta saudável para a FAO

Segundo a ONU, uma dieta saudável tem quatro características principais:

  • Adequada: Fornece nutrientes essenciais em quantidade suficiente para atender as necessidades do organismo e evitar deficiências.
  • Equilibrada: Distribui adequadamente energia, carboidratos, proteínas e gorduras, contribuindo para o crescimento e a manutenção de um peso saudável.
  • Diversa: Inclui variedades de diferentes grupos alimentares.
  • Moderada: Limita o consumo de componentes alimentares que podem ser prejudiciais à saúde quando ingeridos em excesso.

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O alto custo de vida e o fato de os preços dos alimentos subirem acima da inflação geral dificultam que mais pessoas tenham uma alimentação adequada e saudável. Ainda que a fome tenha diminuído no mundo, o custo médio de uma dieta saudável ficou mais cara ao longo da década: era de 2,94 dólares em poder de paridade de compra (dólares PPC) em 2017 e atualmente está estimado em 4,28 dólares PPC. 

Como efeito, quase um terço da população mundial – 2,69 bilhões de pessoas – não conseguiu ter uma alimentação saudável em 2025. Em comparação com 2021 – pior ano da pandemia de covid-19 –, houve uma melhora tímida: 30 milhões de pessoas conseguiram acessar uma dieta mais saudável em 2025. A explicação do relatório é que, na média global, as rendas totais disponíveis para alimentação cresceram mais rápido do que os preços.

O órgão chama a atenção para os custos ocultos, como a degradação ambiental e a pobreza rural, e afirma que mitigar esses efeitos é fundamental para diminuir o preço dos alimentos. “A redução do custo de uma dieta saudável é inerentemente redistributiva; pequenos produtores, particularmente mulheres e jovens em países de renda baixa e média, podem se beneficiar dessas reformas, desde que intervenções complementares abordem lacunas persistentes na posse de terra, no acesso ao crédito e na adoção de tecnologias”, frisa a FAO no relatório. 

O grupo de alimentos mais caro muda de acordo com a região. Na África, são os produtos de origem animal, enquanto as frutas costumam ser mais baratas. Na América Latina e Caribe é o contrário: é o único continente em que os vegetais custam mais que os produtos de origem animal. Na Ásia, são as frutas que custam mais; na América do Norte, Europa e Oceania, são frutas e vegetais. Amidos básicos, como cereais, raízes e tubérculos, bem como óleos e gorduras, são os mais baratos em todas as regiões, por terem apoio para produção há décadas e apresentarem uma relação de custo-caloria mais baixa, uma vez que têm alta densidade energética

A África passou pela primeira vez a Ásia na quantidade de pessoas subnutridas: 309,2 milhões de africanos, ou 20% da população do continente, e 291,8 milhões de asiáticos (6%). Em comparação com 2024, são 10,7 milhões de africanos melhor nutridos, mas o futuro se mostra pouco saudável. 

O estudo projeta que o continente africano concentrará 56% da população mundial com fome em 2030 – algo entre 510 milhões e 520 milhões de pessoas. Múltiplas crises e fatores estruturais dificultam o combate à fome na África, como o rápido crescimento populacional, eventos extremos climáticos, vulnerabilidade a choques nos preços globais de energia e fertilizantes e baixo investimento em infraestrutura e pesquisa e desenvolvimento agrícola. 

“A diversidade da África sempre foi negligenciada – os modos de produzir, toda a dinâmica econômica tem particularidades que nunca foram consideradas relevantes. A maioria das ações tiveram uma perspectiva – mesmo que não explicitamente – extremamente colonial”, avalia Elisabetta Recine, docente da Universidade de Brasília, atual presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), e integrante do Painel Internacional de Especialistas de Sistemas Alimentares Sustentáveis (Ipes-Food).

“A dependência se aprofunda quando você não tem ações que apoiem as capacidades locais e fortaleçam os modos de vida e os modos de produzir e de consumir. Então, ao longo da história, a África sempre foi tida como um laboratório e não teve apoio para fortalecer o poder, a sabedoria e as capacidades locais”, completa.

Nos demais continentes, há uma tendência de melhora, mas os números ainda são preocupantes e estão piores que os registrados em 2015, quando a agenda 2030 foi adotada por 193 países membros. A Agenda 2030 é um plano de ação global da ONU com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, dentre os quais está o de chegar a 2030 com fome zero no mundo.

A experiência brasileira pode apontar um caminho, segundo nota do Ipes-Food publicada em resposta ao documento da ONU. O país saiu do Mapa da Fome em dois anos ao combinar políticas públicas de diferentes frentes, como a transferência de renda via Bolsa Família, o aumento no salário mínimo e a garantia de compras institucionais pelos programas PAA e Pnae. A alimentação escolar garantida para todos os níveis de ensino junto da exigência de que a origem seja pelo menos 45% da agricultura familiar apóia duas pontas importantes.

Há espaço para diminuir ainda mais a fome no Brasil. A intensificação na articulação dos sistemas de políticas públicas de saúde, assistência social e segurança alimentar e nutricional é primordial para atingir públicos mais vulnerabilizados, como mulheres negras e população em situação de rua. 

“Isso faz com que essas pessoas que estão à margem do processo sejam capturadas para um ciclo de políticas quando chegam em algum serviço público”, diz Recine. “Uma pessoa que está em situação de rua eventualmente tem contato com assistência social, um centro de saúde ou ganha uma refeição no restaurante comunitário ou numa cozinha solidária. A partir do momento que essa pessoa chega, seja onde for, ela precisa ser mantida nesse ciclo”, exemplifica.

Mulheres e crianças são mais vulneráveis

Parte dos dados referentes a mulheres e crianças tiveram “melhorias marginais”, segundo o relatório, em um ritmo mais lento que o necessário para atingir as metas da Agenda 2030. E o tímido avanço corre o risco de sofrer uma reversão nos próximos anos. Os dois grupos são os mais vulneráveis. 

Das crianças entre 6 e 23 meses, apenas 30,8% têm uma dieta minimamente diversificada, um percentual que se manteve praticamente inalterado na última década. “Isso compromete o crescimento e desenvolvimento dessas crianças, e está relacionado a outro dado importantíssimo, que é o aumento assustador de excesso de peso e obesidade. A dificuldade de comprar uma dieta diversificada te leva para consumo de ultraprocessados, que colocam um prognóstico terrível para essas crianças, não só de obesidade, mas de doenças crônicas”, relaciona Recine.

Para as mulheres entre 15 e 49 anos, quase dois terços (62,7%) conseguem ter uma alimentação rica. Cerca de  30% delas têm anemia. “Não apenas não diminuiu em relação ao nível de referência de 2012 [de 27,6%], como pode ter aumentado […]. As projeções indicam um novo aumento para 32,6% até 2030. Essa lacuna crescente evidencia a etiologia complexa da anemia e os profundos desafios para monitorar, prevenir e tratar a condição”, lê-se no documento. 

A obesidade tem crescido em adultos e crianças, passando de 12,1% para 16,2% e de 5,3% para 5,5%, respectivamente. A comparação é entre os anos de 2012 e 2024. Apesar de parecer conflitante à primeira vista, a dificuldade de acesso à uma alimentação saudável e o crescimento da obesidade caminham lado a lado. “Frutas e verduras contribuem com 12% das calorias numa dieta diversificada, mas eles são responsáveis por 40% do custo. Numa família pobre, você não tem escolha. Outro aspecto é que há uma estratégia intensa e com uma engenharia muito sofisticada para que você venda alimentos que, na verdade, não têm qualidade”, observa Recine. 

Metas atrasadas

As metas globais relacionadas a mulheres e crianças tiveram melhoras, mas ainda insuficientes para atingir os objetivos da Agenda 2030:

  • Prevalência de baixo peso ao nascer: A meta é de 10,5%, mas está em 14,7%.
  • Aleitamento materno exclusivo: A meta é 60%, mas está em 47,4%.
  • Baixa estatura para a idade (até cinco anos): A meta é 16,8%, mas está em 23,2%.
  • Sobrepeso infantil: A meta é abaixo de 5%, mas está em 5,5%.
  • Baixo peso para a altura (até cinco anos): A meta é abaixo de 5%, mas está em 6,6%.
  • Anemia entre mulheres de 15 a 49 anos: A meta era chegar a 13,8%, mas está em 30,7%, com projeção de 32,6% até 2030.
  • Obesidade em adultos: A meta era deter a obesidade em 2012, quando estava em 12,1%, mas atingiu 16,2% em 2024

Ela se refere ao fato de a cadeia dos ultraprocessados receber subsídios públicos desde a pesquisa e desenvolvimento para insumos agropecuários, como sementes, à isenção fiscal para agrotóxicos, além do perdão de dívidas para o setor do agronegócio e o pacote de crédito público às commodities. “Tudo o que se mobiliza em termos de orçamento público para esse modelo de produção faz com que exista uma competição absolutamente desleal em relação à produção de alimentos saudáveis”, conclui.

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Como diminuir o custo da dieta saudável

O sistema alimentar é globalizado. As soluções, não. Diferentes contextos pedem diferentes estratégias, e a recomendação da FAO gira em torno de dois eixos complementares: a infraestrutura e o ambiente regulatório, repensando incentivos e isenções. Aumentar a produção interna dos alimentos saudáveis é o primeiro passo para todos os contextos.

Recomendações da FAO

As prioridades para diminuir o custo de uma dieta saudável para cada região:

  • África: Aumentar a produtividade em fazendas e diminuir os custos de processamento e distribuição no setor de alimentos de origem animal.
  • Ásia: Melhorar a conexão entre áreas rurais e urbanas e investir em manejo pós-colheita para baratear as frutas.
  • América Latina e Caribe: Reduzir custos logísticos e de transporte, que encarecem especialmente os vegetais.
  • América do Norte, Europa e Oceania: Investir em inovação tecnológica para compensar os altos custos de mão de obra e manter frutas e hortaliças acessíveis

O órgão preconiza combinar políticas públicas de diferentes áreas em vez de realizar ações pontuais, como subsidiar o preço de um alimento. Somar a subvenção a uma melhoria em infraestrutura (como energia, acesso à água, irrigação e transporte) e direcionar o orçamento público para incentivos à cadeia de produção e compras públicas é o caminho apontado. “A aplicação de subsídios fiscais abrangentes a grupos de commodities de baixo custo – como alimentos básicos ricos em amido – gera benefícios insignificantes para o custo de uma dieta saudável e pode provocar pequenos aumentos no valor total ao desviar fatores de produção de outras cadeias de valor”, lê-se.

O relatório mostra que o investimento em pesquisa e o desenvolvimento para frutas, hortaliças e leguminosas é o que traz os maiores ganhos de produtividade a longo prazo, podendo resultar em preços mais baixos. A prática é comum para alimentos básicos ricos em amido, como arroz, trigo e cereais, e deve ser replicada para os mais ricos em nutrientes. “Para converter esses ganhos em custos de dieta mais baixos, são necessários sistemas facilitadores – incluindo distribuição de sementes, gestão da água, regularização fundiária, financiamento e extensão rural – que apoiem a adoção de tecnologias”, diz o documento.

Cortar o máximo de intermediários entre a produção e a mesa e melhorar a infraestrutura (rodovias, cadeia de frio, centro de coletas e armazéns) também é relevante para diminuir os custos, além de evitar desperdício. É no caminho entre a propriedade agrícola e a cozinha doméstica que o custo do alimento cresce de 70% a 75%, principalmente em indústrias de processamento, transporte e armazenamento, que acrescentam 40%. E onde se perde quase metade dos perecíveis. Criar circuitos mais curtos de consumo também diminui custos e perdas, além de reduzir o impacto ambiental. 

“Isso reforça a importância de fazer com que esse distanciamento entre a comida produzida e a comida consumida seja infinitamente menor. É uma mudança de paradigma importantíssima e que já existe nas experiências locais e territoriais, como o Pólo da Borborema, os Armazéns do Campo, do MST, e do Raízes do Brasil, do MPA [Movimento dos Pequenos Agricultores]. Mas isso demanda prioridade política, investimento público e mudança cultural. São experiências que precisam de assistência técnica, de financiamento e de visibilidade para não enfrentarem tantos desafios de continuarem existindo”, diz Recine.

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