Julia Dolce / O Joio e O Trigo

Em aceno às bases, ruralistas avançam projetos que contestam demarcação de terras indígenas 

Frente Parlamentar da Agropecuária aprova projeto que questiona demarcação de Terra Indígena Guasu Guavirá, que enfrenta conflitos no oeste do Paraná

Não faz muito tempo que a agente de saúde indígena Vicenta Martines voltou a conseguir dormir. Nos últimos anos, o medo do barulho de motos na madrugada não a deixava fechar os olhos. O som, para ela, só não é pior do que o de um tiro — esse “parece o fim do mundo”. 

Na noite de 10 de janeiro de 2024, Vicenta, indígena do povo Avá Guarani, foi alvejada durante um ritual na casa de reza da aldeia Yvy Okaju, que fica no oeste do Paraná, região que faz divisa com o Mato Grosso do Sul e fronteira com o Paraguai. Na ocasião, outros três indígenas também foram atingidos.

Desacordada, ela foi levada para o hospital, onde colegas profissionais da saúde duvidaram de seu relato de que homens armados teriam chegado de moto e atirado no escuro contra ela e seus parentes. “Eu falei que ninguém viu quem foi. Mas o médico insistiu que eu tinha que contar quem atirou, perguntou se foi o meu marido. Eu respondi que não foi briga da comunidade, que eu levei tiro na retomada”. 

Os estilhaços do tiro ainda estão alojados na perna de Vicenta. Hoje, sua principal sequela é a dor no joelho, que lateja no frio paranaense. O termômetro marcava abaixo dos 10ºC durante sua entrevista para o Joio. Mas outro fenômeno sazonal pode trazer à tona o trauma do ataque, voltando a afetar seu sono: a atual investida pré-eleitoral de parlamentares da bancada ruralista contra terras indígenas.

No último 6 de maio, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), nome oficial da bancada, aprovou na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados (CAPADR) o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 1041/18, que anula o processo demarcatório da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, onde fica a aldeia Yvy Okaju. A palavra Tekoha em guarani significa “o lugar onde somos o que somos”.

Processo de demarcação

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Plantio da safrinha de milho em fazenda localizada dentro da área delimitada da Tekoha Guasu Guavirá – Foto: Julia Dolce

Em 2018, a Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá teve seus 24 mil hectares, localizados entre os municípios paranaenses de Guaíra, Terra Roxa e Altina, identificados e delimitados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A demarcação, porém, foi paralisada por duas ações judiciais que questionam o processo com base na tese do marco temporal.
Uma delas é de autoria da própria prefeitura de Guaíra. A outra foi apresentada pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), que integra a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade que compõe a diretoria do Instituto Pensar Agropecuária (PA), o braço lobista da bancada ruralista. As ações defendem a permanência de 165 fazendas, em sua maioria produtoras de soja, sobrepostas à Tekoha Guasu Guavirá.

Em 2020, durante o governo Bolsonaro, a Funai editou a portaria n° 418/2020, que anulou os atos administrativos referentes à demarcação do território. A medida foi contestada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que em 2021  entrou com uma Ação Civil Originária (ACO 3555) contra a Funai, a União, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a usina hidrelétrica Itaipu Binacional. 
A ação reivindica a reparação pela violação de direitos sofrida pelos avá guarani, em decorrência da instalação da usina, que alagou parte de seu território na década de 1970, e da omissão governamental desde então.
Em abril de 2023, a atual gestão da Funai revogou os efeitos da Portaria n° 418/2020 e restabeleceu o processo demarcatório. Em 15 de janeiro de 2024, porém, diante do acirramento do conflito no território, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin determinou a suspensão das ações judiciais contrárias à demarcação. Mas em abril do mesmo ano, o Plenário do STF reformou a decisão, suspendendo novamente o avanço da demarcação até análise definitiva do conflito. 
Em março de 2025, o STF homologou um acordo parcial referente à ACO 3555, pelo qual ficou estabelecido que a usina de Itaipu deveria adquirir 3.000 hectares de terras de fazendeiros da região e destiná-los aos avá guarani, por meio da modalidade de reserva indígena. Enquanto isso, o processo demarcatório dos 24 mil hectares da Tekoha Guasu Guavirá segue paralisado.

Na aprovação do PDL 1041/18, em parecer favorável ao projeto, o presidente da bancada ruralista Pedro Lupion (Republicanos-PR) afirmou que uma grave “insegurança jurídica” assola os fazendeiros na região da Tekoha Guasu Guavirá. “O produtor não pode produzir, não tem seu direito de propriedade respeitado”, disse. Lupion é o relator original da proposta, de autoria do também paranaense deputado Sérgio Souza (MDB-PR), que presidiu a FPA no biênio 2021/2022.

Em paralelo, os Avá Guarani vivem outro tipo de insegurança. Enquanto ações contra a demarcação de seu território tramitam, violentos conflitos fundiários implodem na região. Entre 2023 e 2024, o povo indígena realizou uma série de retomadas dentro da região delimitada. Em resposta, a violência se acirrou. 

O disparo que atingiu Vicenta fez parte de uma série de violências sofridas pelos indígenas a partir da véspera do natal de 2023, quando foram atacados por tiros e bombas. Alguns deles foram ainda mais brutais: somente em 2025, dois indígenas, Marcelo Ortiz e Everton Lopes Rodrigues, foram decapitados na região. 

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Carta com ameaça encontrada junto à cabeça do indígena Everton Lopes Rodrigues. Foto: Divulgação

A cabeça de Everton foi encontrada em um milharal na entrada de sua aldeia, junto a uma carta com ameaças direcionadas aos Avá Guarani. “Se vocês não desocupar as terras recém invadidas, nós vamos matar mais de vocês”, trazia um trecho da carta, assinada por “Bonde 06 do N.C.S.O”. Os indígenas atribuem os ataques às milícias rurais incentivadas pelo agronegócio e acusam as forças policiais de omissão.  

Desde o tiro que atingiu Vicenta, a Força Nacional de Segurança Pública está presente na Tekoha Guasu Guavirá, a mando de um decreto do Governo Federal. Durante a visita da reportagem às aldeias, policiais estavam presentes em todos os momentos. Mesmo com a patrulha diária, os ataques seguiram acontecendo ao longo de 2024 e 2025.

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Força Nacional patrulha aldeia Aldeia Tagy Poty, na Tekoha Guasu Guavira. Foto: Julia Dolce

“Estávamos sendo atacados todos os dias”, afirma Ilson Soares liderança da aldeia Yvy Okaju e coordenador estadual da organização indígena Comissão Guarani Ivyrupa (CGY). Ele considera que os últimos anos foram os mais traumáticos para os Avá Guarani. “Hoje tem 13 pessoas com sequelas desses ataques. Alguns estão com cicatrizes de balas, um ficou paraplégico, outro perdeu uma parte do maxilar com um tiro de arma de grosso calibre”, completa. 

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Instrumentalização eleitoral

Para o geógrafo Djoni Roos, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), essa violência é inflamada pelo discurso de políticos. Ele afirma que o estímulo à violência “é cotidiano. Há uma instrumentalização para isso, eles falam e constroem uma base social que também é muito reacionária”, afirma. 

Roos destaca a presença histórica de parlamentares da FPA, articulados com políticos regionais, na região do oeste paraense. “A bancada ruralista sempre esteve presente aqui, e acho que agora é o grande marco desse processo, porque esse é o conflito que talvez esteja mais evidente em relação à questão indígena”, explica. Para o professor, é notório que os deputados “navegam” pelo conflito: “mobilizam sua base para conquistar votos”, completa. 

A relevância do conflito na Tekoha Guasu Guavirá é refletida na pauta da Frente Parlamentar Agropecuária. Em paralelo à agenda genérica de desmonte do direito territorial indígena, os parlamentares da bancada são autores de outras proposições que têm como foco especificamente a retirada de direitos dos Avá Guarani.

É o caso do PL 4.740/2024, que altera os procedimentos para reconhecimento de nacionalidade brasileira a indígenas. De autoria de Pedro Lupion, o projeto foi aprovado em dezembro de 2025 na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Sua justificativa  cita conflitos fundiários no oeste do Paraná e no Mato Grosso do Sul,  alegando  que os povos Avá Guarani e Guarani Kaiowá seriam, na realidade, formados por pessoas de nacionalidade paraguaia. 

Uma vez que o território tradicional avá guarani é anterior aos Estados nacionais, as famílias indígenas vivem historicamente entre os limites da fronteira. Esse trânsito, porém, é argumentado pelos ruralistas no questionamento do seu direito territorial – ainda que o próprio agronegócio também ultrapasse essa mesma fronteira. 

A alcunha “paraguaio” é amplamente disseminada nos discursos anti demarcação, e também esteve presente na fala de Lupion durante a recente aprovação do PDL 1041/18 na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.

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Deputado Federal Pedro Lupion durante sessão da CAPADR.
Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados

“Povos originários entre aspas, porque a gente sabe que a grande maioria são paraguaios que entraram pela fronteira, se naturalizaram brasileiros no escritório da Funai, saíram com a sua carteirinha de indígena brasileiro e tão invadindo as propriedades dos brasileiros”, afirmou o presidente da FPA.

O conflito também vem sendo evocado em debates de projetos mais abrangentes da bancada. No último 10 de junho, Lupion citou-o novamente, dessa vez se referindo aos avá guarani como “paraguaios, ditos indígenas brasileiros”, para defender  o PL 5245/2025, aprovado na CAPADR na ocasião. O projeto prevê a manutenção do acesso ao crédito rural por produtores com imóveis sobrepostos à áreas reivindicadas por povos indígenas enquanto os processos demarcatórios não são concluídos. 

A Tekoha Guasu Guavirá também apareceu em um vídeo de pré-campanha do presidente da FPA, publicado nas redes sociais em maio. “Você já viu cenas de invasão de terra no Brasil, mas isso aqui aconteceu no Paraná”, afirma Lupion em trecho seguido por cenas de noticiários que acusam os indígenas de terem “botado a Força Nacional para correr”. 

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Agenda antiindígena à todo vapor

A contestação da demarcação da Tekoha Guasu Guavirá não é a única que tem avançado no Congresso. No último 17 de junho, a Câmara aprovou o regime de urgência para a votação do PDL 717/2024, que susta a demarcação das terras indígenas Toldo Imbu e Morro dos Cavalos, ambas localizadas em Santa Catarina.

De autoria do senador Esperidião Amin (PP-SC), também membro da bancada ruralista, o PDL também prevê a suspensão do artigo nº2 do decreto nº1775/1995, que regulamenta as etapas de todos os processos de demarcação de TIs no país. 

O projeto foi aprovado no Senado em maio. Sua votação em regime de urgência na Câmara foi solicitada via requerimento da também deputada catarinense Julia Zanatta (PL-SC), outra integrante da FPA, e cotada para candidata a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. “Vocês sabem da dor das famílias atingidas pela demarcação da TI Morro dos Cavalos. Nós sentimos a dor de vocês”, afirmou a deputada em vídeo publicado nas redes sociais. 

Em abril deste ano, a FPA também criou a Subcomissão Especial de Direito de Propriedade, vinculada à CAPADR. 

O requerimento para sua criação, de autoria de Lupion, lista nas atividades propostas a realização de audiências públicas, convocando autarquias como a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas. A justificativa: “A invasão de terras públicas e privadas, associada à respectiva impunidade, contribui para a ampliação de disputas territoriais e para a geração de insegurança jurídica no campo”. 

O lançamento da subcomissão fez parte da campanha Invasão Zero, lançada pela FPA em abril para defender o direito de propriedade. A campanha envolve também a divulgação de um conjunto de pautas estratégicas para “inibir ocupações promovidas por movimentos sociais”, entre elas, projetos de lei da bancada ruralista que desmontam direitos de lideranças camponesas e indígenas.

Alguns exemplos são o PL 8.262/2017, que prevê a “retirada de invasores de propriedade privada pela polícia sem a necessidade de mandado judicial”, e o PDL 939/2025, que pretende acabar com o Plano Nacional de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, responsável por políticas como o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). A Comissão Guarani Ivyrupa solicitou que 26 indígenas do oeste do Paraná integrassem o programa.

No lançamento da campanha, Lupion definiu a pauta do chamado “pacote anti invasão” como uma prioridade da bancada ruralista. 

O antropólogo Marcelo Rauber, que pesquisa a atuação da bancada ruralista na contestação do direito territorial indígena, defende que o tema tornou-se a principal agenda política da FPA após a aprovação do Novo Código Florestal, em 2012. Ele explica que o aceno aos produtores rurais em conflito com terras indígenas nos seus estados de origem é parte importante da atuação dos parlamentares da FPA.

“Eles estão vendo como uma oportunidade de mobilizar a pauta indígena para fidelizar uma base em seus estados. Não só em período eleitoral, mas quem já mobilizou em outro momento da legislatura, certamente vai utilizar agora ou buscar colher os frutos dessas mobilizações agora para essas eleições”, afirma. 

Rauber cita os exemplos dos parlamentares ruralistas gaúchos Luiz Carlos Heinze (PP-RS) e Alceu Moreira (MDB-RS), que se beneficiaram eleitoralmente de uma intensa atuação contra a demarcação de terras indígenas no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2015. “Passaram aquela legislatura mobilizando a pauta indígena naquelas regiões de conflitos e colheram mais votos”.

Segundo Kunumi Apyka Vera Rendyju, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) pela grande assembleia do povo Kaiowá e Guarani do Mato Grosso do Sul, a ofensiva da bancada ruralista contra terras indígenas tem sido “intensificada” nessa pré-campanha. Ele aponta que isso pode ter efeitos diretos na violência local. “Qualquer movimentação que os parlamentares fazem reflete diretamente nos territórios”, afirma. 

Um caldeirão de violência 

O filho mais novo de Vicenta estava em casa com o pai quando ela foi atingida. Na época, ele tinha oito anos e era bastante tímido — se comunicava principalmente em guarani, sua língua materna. Quando recebeu a notícia do ataque, porém, ficou repetindo em português: “minha mãe morreu”. A criança só se acalmou quando visitou Vicenta no hospital Bom Jesus, no município de Toledo, a 100km da aldeia Yvy Okaju. Lá, ela passou por uma transfusão de sangue e ficou internada por sete dias. 

A agente de saúde indígena ainda estava no hospital quando a bancada ruralista e a Federação da Agricultura do Estado do Paraná realizaram uma audiência pública com proprietários de terra em Guaíra para tratar sobre o conflito, no dia 17 de janeiro.  Lupion marcou presença no evento. “Eu saí hoje de manhã da minha propriedade em Santo Antônio da Platina, e vim aqui pra representar os produtores rurais, para dizer pra vocês: vocês não estão sozinhos”, afirmou.

Além do presidente da FPA, a audiência contou com a presença de lideranças dos sindicatos rurais da região e com o então prefeito do município, Heraldo Trento, atualmente pré-candidato a deputado federal (União Brasil-PR). Dois meses depois, no dia 13 de março de 2024, Trento esteve presente em outra audiência pública organizada pela bancada ruralista, essa no Senado Federal, com o objetivo de debater o marco temporal.

No dia 5 de julho daquele ano, os avá guarani realizaram outras sete retomadas na Tekoha Guasu Guavirá. A reação dos fazendeiros foi violenta. Na noite do 7 de julho, eles queimaram as lonas e os mantimentos dos indígenas da tekoha Arapot, sobreposta à Fazenda Brilhante, em Terra Roxa. Em 15 de julho, um ataque à tiros e foguetes à retomada tekoha Tatury, em Guaíra, deixou feridos. Três indígenas foram atropelados e uma jovem quebrou o braço.  

Na semana seguinte, a dupla FAEP e FPA realizou outra audiência em Guaíra. Na ocasião, 23 de julho de 2024, Lupion anunciou que estava em tratativa com o governo do Paraná com o objetivo de obter autorização para que a Polícia Militar realizasse reintegrações de posse, expulsando os avá guarani das retomadas. Quatro dias depois da audiência, a 2ª Vara Federal de Umuarama emitiu seis ordens de reintegração de posse contra os indígenas, que foram cercados por fazendeiros e policiais que exigiram sua retirada.

O geógrafo Djoni Roos avalia que os discursos antiindígenas de políticos ruralistas ganham coro para além dos produtores rurais: “Aflora para o conjunto da sociedade”. 

Roos ressalta o que chama de “caldeirão” cultural conservador, com importantes componentes raciais, na formação da sociedade do oeste paranaense, região que recebeu parte significativa da diáspora alemã. “É como se aqui só existisse uma determinada forma de viver e de se organizar, vinda do branco, europeu. Se invisibiliza as comunidades indígenas que aqui vivem”, afirma.

Na leitura do geógrafo, o desenvolvimento do agronegócio na região é um importante ingrediente desse caldeirão. “Essa criação de sociedade reacionária vem dessa compreensão do agronegócio latifundiário. Tenta-se passar a imagem de que é uma agricultura moderna, mas esse território é grafado pela violência e pelo conflito”, aponta. 

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Ilson Soares na aldeia Yvy Okaju. Foto: Julia Dolce

Vitrine do  agronegócio

Essa receita não é uma coincidência. O Oeste do Paraná foi um dos principais incubadores do atual modelo de produção do agronegócio no Brasil, em particular, da estratégia dos sistemas integrados. Por meio deles, a agroindústria coordena a cadeia produtiva da agricultura familiar, oferecendo insumos, assistência técnica e escoamento para uma produção originalmente camponesa. 

Na região também nasceram importantes organizações ruralistas, como a Sociedade Rural do Oeste, bem como movimentos de resistência camponesa vanguardistas, como o Movimento dos Agricultores Sem Terra do Oeste do Paraná (Mastro), um dos embriões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Esse último também surgiu na região: em Cascavel, maior município do oeste paranaense. 

“A região foi berço desse ensaio estratégico pelo qual o agronegócio testou o sistema de integração como estratégia para cooptar as famílias. Parte da agricultura familiar se tornou subordinada ao modelo da agroindústria”, explica Jhony Alex Luchmann, coordenador do projeto Opaná-Chão Indígena, da Fundação Luterana de Diaconia, que atua com a assistência técnica e rural do povo Avá Guarani.

Embora tenha sido palco histórico de resistência camponesa e indígena, Luchmann ressalta que o território acabou se tornando uma “vitrine” do agronegócio. Por esse motivo, como explica Roos, parte dos próprios agricultores familiares também acabam reproduzindo o discurso de ódio que trata os avá guarani como “inimigos”. Não por acaso, a impunidade da violência contra os avá guarani é grande.

Enquanto o inquérito do ataque que atingiu Vicenta foi rapidamente arquivado por falta de provas, outra investigação aberta pela Polícia Federal na época, e que corre em segredo de justiça, investiga o próprio Ilson, da Comissão Guarani Ivyrupá, bem como a irmã de Vicenta, a liderança Paulina Martines. Eles são acusados de formação de quadrilha e invasão de propriedade. Paulina chegou a ter um mandado de prisão preventiva decretado, mas a decisão foi revertida por habeas corpus.

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Liderança Paulina Martines na aldeia Yvy Okaju. Foto: Julia Dolce

“Não se vê nos registros dos autos que culminaram com a decretação de prisão qualquer movimentação para apuração e identificação dos agressores dos indígenas. Ou seja, não se observa a mesma diligência e firmeza das autoridades policiais para identificar os agressores aos indígenas, medida que sim poderia acalmar as tensões na região, com a responsabilização daqueles que deflagraram o conflito local”, escreveu o desembargador Rogério Favretto na decisão que revogou a prisão preventiva de Paulina. 

O retrogosto desse caldo de racismo antiindígena também atinge as crianças avá guarani. Em agosto de 2025, elas passaram a ser escoltadas para a escola em Guaíra, depois de deixarem de frequentar as aulas por medo de ataques. Segundo o cacique Ronaldo Martines, da aldeia Guarani, também parte da Tekoha Guasu Guavirá, os estudantes indígenas já foram chamados de “pequenos invasores de terra” nas escolas.

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Crianças Avá Guarani na aldeia Yvy Okaju. Foto: Julia Dolce

Interesses econômicos e familiares

Embora instrumentalizada nos períodos eleitorais, essa inflamação do conflito entre fazendeiros e os avá guarani não vem de hoje. Pelo menos desde os anos 2010, membros da bancada ruralista tentam barrar retomadas indígenas na região. 

Um dos atores é o deputado federal Dilceu Sperafico  (PP-PR), membro da bancada ruralista desde a sua fundação. Ele foi o segundo presidente da frente, ainda nos anos 1990. Sua atuação parlamentar contra o direito territorial indígena se entrelaça com ações ainda mais diretas. 

Em 2007, por exemplo, um ônibus empresarial do deputado deu apoio logístico a um ataque armado contra uma comunidade indígena no Mato Grosso do Sul, onde Sperafico tem uma fazenda sobreposta à Terra Indígena Iguatemipegua I, do povo Guarani Kaiowá. 

O território, já delimitado pela Funai, fica a 200km da Tekoha Guasu Guavirá. O atentado culminou no assassinato de uma idosa Guarani Kaiowá, conforme informações do relatório Os Invasores, do observatório De Olho nos Ruralistas. 

Os Guarani Kaiowá também enfrentam intensa violência de proprietários de terras em retomadas no Mato Grosso do Sul. O gentílico “paraguaios” é frequentemente usado por ruralistas para deslegitimar seus direitos.

Pelo menos desde 2013 Sperafico também participa de audiências públicas com produtores rurais em Guaíra e Terra Roxa para tentar barrar a demarcação da Tekoha Guasu Guavirá. Mas o parlamentar não é o único político cuja trajetória se amarra diretamente com os interesses econômicos anti indígenas na região. 

Basta dizer que entre os maiores doadores da campanha de 2024 do atual prefeito de Guaíra, Gileade Gabriel Osti (PSD), que ocorreu no auge do conflito na Tekoha Guasu Guavirá, estavam Ermínio Vendrusculo e seus parentes. A família, pioneira da colonização de Guaíra que também já teve integrantes em cargos políticos locais, é proprietária de fazenda sobreposto ao território indígena delimitado.

Em março de 2025, Osti e Pedro Lupion se reuniram para discutir “soluções para os conflitos de terra” em Guaíra. O deputado destinou recurso de emenda parlamentar para o município. 

Mas se tratando de interesses familiares, vale ressaltar as conexões do próprio presidente da bancada ruralista. As investidas contrárias às terras indígenas estão praticamente no sangue do clã Lupion. O pai de Pedro, Abelardo Lupion, também presidiu a FPA e foi autor da PEC 411/2009, que pretendia transferir ao Congresso a prerrogativa da demarcação desses territórios.

Mas a genealogia vai mais longe. O avô de Abelardo, Moysés Lupion, também foi parlamentar, além de governador do Paraná por dois mandatos (1947 a 1951 e 1956 a 1961). 

Ele entrou para a história como um notório grileiro de terras. Entre os maiores destaques dessa grilagem está o chamado “Acordo Lupion”, um ato firmado em 1949 entre o então governador e a União — por meio do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), autarquia que precedeu a Funai, à época vinculada ao Ministério da Agricultura — pelo qual seis terras indígenas no Paraná tiveram suas dimensões drasticamente reduzidas: de 115 mil para 26 mil hectares

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Documento do Conselho Indigenista Missionário – 1979. Crédito: Acervo Instituto Socioambiental

As áreas em questão foram incorporadas ao patrimônio estatal e, eventualmente, repassadas para os órgãos de colonização. 

Enquanto os imbróglios judiciais paralisam a demarcação de terras indígenas, os conflitos seguem servindo de capital eleitoral para diferentes gerações da bancada ruralista. O PDL 1041/18 ainda passará por outras comissões na Câmara antes de ir a plenário, mas Lupion já tem utilizado a aprovação parcial em sua pré-campanha.

“Depois da apresentação desse PDL pelo Sérgio Souza lá atrás muita coisa aconteceu. Teve marco temporal, questionamento na justiça, teve audiência pública. E as coisas foram avançando. O que não avançou foi o produtor que tá lá invadido, que não teve solução nenhuma pro problema. Infelizmente hoje nós conseguimos aprovar um PDL de 2018. Oito anos pra gente conseguir chegar nisso”, afirmou o presidente da FPA, no ato da aprovação do projeto. 

Para a liderança avá guarani Paulina Martines, uma coisa é certa: “Enquanto a população indígena não entrar na política, a gente sempre vai ser meio ou totalmente excluído”. 

O Joio procurou a Frente Parlamentar da Agropecuária e os parlamentares Pedro Lupion e Dilceu Sperafico para comentarem os pontos trazidos na reportagem, mas não obteve retorno até a publicação.

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