Brasil tem mais de 6,7 mil iniciativas que alimentam territórios vulnerabilizados, de periferias ao centro de grandes cidades; desde 2024, parte delas pode receber ajuda de custo do governo, mas boa parte da rotina segue apoiada em trabalho voluntário majoritariamente feminino
São 9h, e o aroma de feijão se insinua na entrada da Ocupação Nova Esperança, na zona sul de São Paulo. Ele vem do Instituto Cuca, tocado por Zenilda Silva – cujo apelido batiza o espaço – e se espalha pelas ruelas até chegar à ladeira de acesso à comunidade, que também leva seu nome, a Rua da Cuca. O vapor das panelas rescendia a alho e louro e servia de lembrete para a vizinhança: logo mais, é hora de ir para a fila.
“Hoje eu fiz quatro quilos de feijão, dez de arroz, 20 de frango, e acho que 15 abóboras”, repassou Cuca. O corte era sassami, ensopado com batatas. A abóbora cabotiá foi refogada em alho e óleo, e o feijão foi temperado com cheiro verde, sem parcimônia. Era uma segunda-feira ensolarada de abril, e o almoço seria servido gratuitamente a quem estivesse na fila até 12h.
A partir das 10h30, as primeiras pessoas chegaram trazendo recipientes plásticos de tamanhos variados. A maioria era de mulheres, que se sentaram na pracinha em frente, se abrigando do sol. Muitas vêm diariamente buscar almoço e aguardam a distribuição até o final. Caso sobre mais uma porção, levam um extra. “Tem muita mãe aqui que passa fome e só tem esse alimento para comer. E às vezes elas vêm com três, quatro, cinco tupperware, para levar para comer à noite”, diz Cuca. Ela distribui cerca de 200 porções diariamente, de segunda a sexta.
A pernambucana de 45 anos mora a poucos metros dali, e passa o dia organizando a logística de doações de cestas básicas, leite e outros mantimentos, preparando refeições e ouvindo as demandas da vizinhança. Cozinhar e distribuir comida fazem parte da sua rotina há pelo menos dez anos, antes mesmo de morar na ocupação. Quando chegou, em meio à pandemia, conseguiu um barraco sem chão, nem banheiro. “Aí eu comecei a ver a situação da comunidade em si. Tinha pessoas piores que eu. Ou porque estavam muito doentes, ou porque não tinham bujão [de gás], comida, água, ainda moravam em lona. Aí eu falei: preciso fazer alguma coisa.”
Foi assim que começou a pedir doações e a cozinhar na própria casa, até conseguir permissão para usar o terreno onde hoje funciona o Instituto Cuca. “No começo de tudo, eu cozinhava sozinha, aqui era de madeira. Saíam mil marmitas. Meio-dia em ponto tava tudo pronto”, recorda, falando dos primeiros dois anos de pandemia. Quando passou a fase crítica, as doações despencaram e nunca mais foram as mesmas. “As pessoas acham que o fluxo de necessidade era só naquela época”, observa Cuca. A economia também começou a se recuperar e mais moradores voltaram a trabalhar, mas a carência permanece, explica.
Ao criar o Instituto, em 2022, o espaço ganhou estrutura aos poucos, a partir de emenda parlamentar e do apoio da organização filantrópica britânica The Caring Family Foundation. “Hoje nós temos freezer, eu já compro o frango limpo e cortado, então não toma muito tempo”, compara.
O Instituto Cuca é uma das 6,7 mil cozinhas solidárias que existem no Brasil, criadas principalmente por mulheres que decidiram colocar mais água no feijão quando perceberam a fome aumentando à sua volta. Esses espaços podem funcionar na casa de uma moradora, em uma área coletiva – como um galpão de associação comunitária –, ou ainda, ser itinerante e montada de acordo com a necessidade do grupo. Há as cozinhas como as da Cuca, em que cada pessoa leva o seu pote, e há as que distribuem marmitas prontas.
Ainda que a insegurança alimentar grave seja um fenômeno crônico no Brasil, foi na pandemia, durante o governo Bolsonaro, que a situação se agudizou – boa parte das cozinhas solidárias surgiram a partir de 2020.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse pela terceira vez, em 2023, 33,1 milhões de pessoas estavam em insegurança alimentar leve, moderada ou grave, e o Brasil estava de volta ao Mapa da Fome da ONU. O combate à fome, bandeira histórica de Lula, encabeçava a lista de prioridades, e o governo recriou o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Havia um paralelo com o primeiro governo: em 2003, o Brasil também figurava na lista de nações afetadas pela fome. À época, uma das estratégias foi construir cozinhas comunitárias e restaurantes populares, cujo funcionamento ficaria a cargo das prefeituras.
Logo no primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2011, verificou-se que muitos desses equipamentos estavam sem uso por falta de recursos dos governos municipais. Mesmo assim, o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, resultado da conjugação de políticas públicas de diferentes áreas. Após o impeachment, as políticas de segurança alimentar e nutricional foram descontinuadas pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, e a privação alimentar voltou a crescer.
Entenda a diferença
Fonte: Relatório da Fiocruz e MDS.
“A fome entrou de sola, [com] a desconstrução das políticas, as ações do governo passado e a pandemia, [que foi] um ponto de virada muito importante”, contextualiza a secretária nacional de segurança alimentar e nutricional do MDS, Lilian Rahal. As cozinhas solidárias surgem, então, como uma resposta popular, organizadas pelas próprias comunidades afetadas, a partir de doações de alimentos e de trabalho voluntário.
Essa mobilização não era inédita para lideranças comunitárias, organizações religiosas, de caridade e ONGs. Nem para os movimentos sociais: em acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e nas ocupações do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), a cozinha coletiva é uma das primeiras partes a ser levantada e organizada. Funcionam diariamente para dar suporte à coletividade, evitando que as pessoas tenham que interromper suas atividades para preparar as refeições individualmente, garantindo uma alimentação adequada a todos e diminuindo o custo com refeições, que costuma assoberbar o orçamento de famílias mais pobres.

“Até o governo Bolsonaro, a fome não era uma pauta dos movimentos de reforma urbana. [A partir da pandemia], o MTST começou a espalhar essa experiência das cozinhas coletivas pelo país, porque perceberam que a metodologia de combate à fome lá do início dos anos 1990, de distribuição de cesta básica, não seria o suficiente”, explica Denise De Sordi, doutora em História Social e pesquisadora na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz).
De Sordi pesquisa o assunto desde 2019 e é a autora do relatório da Fiocruz que subsidiou, em 2024, a regulamentação da lei que institui o Programa Cozinhas Solidárias. Em 2021, as cozinhas solidárias foram tema de seus dois pós-doutorados, um na Universidade de São Paulo (USP) e outro na Fiocruz. O interesse da instituição pelo tema cresceu a partir daí: a pesquisa virou uma agenda interna e, em 2023, resultou numa parceria com o MTST para mapear experiências em dez estados brasileiros. “Isso nos permitiu ter uma dimensão nacionalizada de como as cozinhas estavam se estruturando”, diz.
O programa do governo apoia as cozinhas solidárias de três formas: custeio, fornecimento de alimentos e capacitação da mão-de-obra (veja mais no box abaixo).
Como funciona o programa Cozinha Solidária
Sancionado em dezembro de 2023, a política apoia a iniciativa popular por três modalidades:
Fonte: Decreto 11.937/24 e Portaria MDS 1.096/25
A plataforma Cozinhas Solidárias, criada pelo MDS para mapear as iniciativas, tem cerca de 4,3 mil cozinhas cadastradas. Destas, quase 1,4 mil estão habilitadas, ou seja, elegíveis para acessar as três modalidades, mas a iniciativa de apoio à qualificação ainda está sendo elaborada. Em 2025, o MDS realizou três oficinas-piloto com 100 cozinheiras em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife e prevê o seu lançamento nacional até o fim de 2026.
O repasse de verbas é feito para entidades gestoras que intermedeiam o contato entre governo e cozinhas. No primeiro edital, foram executados R$ 35 milhões, distribuídos por 18 meses para 21 entidades gestoras, que repassaram a 324 cozinhas de todo o Brasil. Só em 2025, estima-se que esses espaços distribuíram 7,5 milhões de refeições. Para o segundo edital, estão previstos R$ 30 milhões. A seleção ainda está em processo e os pagamentos começam no segundo semestre.
Em um momento de orçamento mais curto do que o habitual devido às emendas impositivas, o Programa Cozinhas Solidárias talvez seja uma das soluções mais baratas e eficientes para ampliar o apoio à alimentação adequada e segurança alimentar e nutricional.
As cozinhas têm liberdade para decidir no que vão investir. “Elas devem usar esse recurso da forma que entendem que terá mais efetividade, seja para remuneração, compra de alimentos, de utensílios, de gás. A gente não amarra a forma de usar esse recurso, a gente está apoiando uma iniciativa da sociedade civil para que ela funcione melhor”, explica Rahal, do MDS.
Em números*
O Programa Cozinhas Solidárias tem:
1.706 mil entidades gestoras cadastradas, das quais 221 estão habilitadas
4.287 mil cozinhas solidárias cadastradas, das quais 1.393 estão habilitadas
Com orçamento de R$ 35 milhões, o edital de 2024 apoiou 324 cozinhas por meio de 21 entidades – o MDS estima que em 2025 foram servidas 7,5 milhões de refeições.
*Dados de maio de 2026.
Fonte: Plataforma Cozinhas Solidárias do MDS.
As cozinhas habilitadas também recebem apoio via PAA, mesmo que não estejam vinculadas a uma entidade gestora. O MDS transfere recursos para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que organiza a compra e a distribuição dos alimentos.
Em 2025, o orçamento foi de R$ 100 milhões dentro do Programa Cozinhas Solidárias. Há desafios logísticos, de frequência e de variedade de produtos: a última perna de distribuição depende do sistema de abastecimento dos governos estadual e municipal e os perecíveis, como folhas, legumes e frutas, são mais escassos para algumas localidades.
A regulamentação do programa define que a composição das refeições deve seguir o Guia Alimentar para a População Brasileira, priorizando alimentos da cultura alimentar que sejam in natura e minimamente processados. Nas despensas das cozinhas solidárias visitadas em São Paulo pelo Joio, havia arroz, feijão, farinha de mandioca, cuscuz de milho e macarrão estocados. Em todas, a base do cardápio é arroz, feijão e mistura, que pode ser uma carne ou proteína texturizada de soja. Legumes refogados e saladas cruas são menos frequentes, pois há dificuldade de estocá-los com frescor por muitos dias. As proteínas geralmente são compradas com dinheiro de doação ou vaquinhas organizadas pelas comunidades e mantidas em geladeiras e freezers.

“A gente prefere usar o que é do dia a dia – moela, fígado, coxa de frango – para não causar estranheza e ser um prato de acolhimento mesmo”, relata Mila Maria, nutricionista da Quebrada Alimentada, cozinha solidária da zona norte, outro espaço visitado pelo Joio em São Paulo no mês de abril. As marmitas lá pesam 500 gramas e são montadas com proporções nutricionalmente adequadas. “Normalmente, a pessoa que vive em vulnerabilidade sente muita fome. Se houver sobra [de comida depois que ela se alimenta], é melhor. O que não dá é pra deixar com fome.”
A oferta de comida não é algo novo, mas a perspectiva trazida pelas cozinhas solidárias, sim. “A distribuição do alimento é só a face mais visível. Mas elas também têm um papel comunitário e social de mobilização e organização política, para que as pessoas possam vocalizar as demandas que elas vivenciam no território: falta de saneamento, asfalto, problemas com enchente, esse tipo de coisa”, resume De Sordi, da Fiocruz.
Escola de direitos
Mais do que cozinhar, as mulheres à frente das cozinhas solidárias viram uma figura de referência para a comunidade. São elas que encaminham a população para os serviços públicos, que monitoram as questões de violência doméstica e que organizam doações à comunidade. “A Cuca sempre procura saber como estão as pessoas, se alguém está precisando de alguma coisa. Ela está sempre disposta para o que a gente precisar”, conta Márcia de Souza Reis, 54, moradora da Ocupação Nova Esperança e uma das primeiras na fila do almoço quando o Joio esteve lá.
Durante a nossa visita, Cuca mantinha o celular a tiracolo, monitorando uma entrega de leite em pó e enviando áudios para um grupo no WhatsApp que mantém com os moradores. Era uma semana após a Páscoa e o instituto havia recebido ovos de chocolate para distribuir para as crianças.

“Você não vê só a Cuca fazer isso. Em qualquer comunidade ou nas ocupações do MTST vai ter essa pessoa, às vezes mais de uma, o que é o ideal. Todo mundo se ajuda”, detalha Juliana Bruno Favacho, que acompanhou a visita do Joio ao Instituto Cuca. Ela coordena as cozinhas solidárias do MTST no estado de São Paulo.
Do outro lado da cidade, na zona norte, Val Frazão é essa figura para seus vizinhos. A líder comunitária de 53 anos participou da ocupação do terreno da SP Urbanismo, no Jardim Julieta, há seis anos. “Esse espaço era totalmente largado, era um lugar onde desovavam corpos. Com a chegada do terminal de cargas, aconteceu muito roubo e prostituição infantil”, recorda. Segundo reportagens da época, a prefeitura pretendia construir 1,5 mil unidades habitacionais no terreno às margens da rodovia Fernão Dias. A crise econômica deflagrada pela pandemia fez milhares de pessoas serem despejadas e terem como destino aquela área. A ocupação Viva Jardim Julieta começou com 300 famílias, muitas nessa situação. Val estima que atualmente há aproximadamente quatro mil pessoas morando lá.
Antes de capinar seu lote, ela vivia em um bairro próximo, com o marido e dois filhos, no segundo andar da casa da mãe. Já era presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Jardim Julieta (Amaju) e trabalhava como freelancer no estacionamento de um centro de eventos. Com a chegada da pandemia, o setor foi o primeiro a dispensar os trabalhadores. “Aí começou essa ocupação. Eu coloquei uma enxada nas costas, peguei uma garrafa de café e outra de água. Foi muita dificuldade para conseguir um espaço. Tava parecendo a Serra Pelada: todo mundo fazendo buraco, uma coisa de louco”, recorda.
Os novos ocupantes caminharam pelo espaço até achar outro lugar. De cara, já foi apontada como a liderança da nova rua. “Eu já era presidente da associação do bairro, mas não tinha nada a ver com a ocupação. Caí de cabeça. Lá [na Amaju], a questão social era uma cesta básica, organizar cursos. Na ocupação, a luta é diferente.”

Assim como Val e Cuca, os moradores da periferia sabem que têm direito à moradia. É a demora do Estado em atender essas populações que faz com que elas ajam por conta própria. As cozinhas solidárias terem partido da diligência de mulheres em territórios vulnerabilizados mostra que elas tampouco vão esperar uma solução do governo para comer bem.
Ainda em 2020, o Centro de Crianças e Adolescentes da regional Vila Medeiros a contatou para verificar se o centro comunitário poderia receber uma feira. “Era uma doação da Adriana [Salay] e do Rodrigo [Oliveira], do restaurante Mocotó. Você chegava lá e tinha café, azeite, frutas e legumes para as pessoas pegarem”, recorda Val. Ela aproveitou o contato para contar da ocupação. “Eles vieram conhecer e em 2021 a gente começou a receber doações também. Eu mostrei esse espaço que estava reservado para fazer a associação da ocupação, até pra receber doações e não deixar guardado debaixo de lona.”
Surgiu então a ideia de ter uma cozinha solidária. “Eu falei que só tinha o espaço e não a grana. A Adriana foi atrás de todos os recursos. Pagou a mão-de-obra de cinco pedreiros aqui da comunidade”, diz Val. Alguns anos, doações e R$ 400 mil depois, a Cozinha Solidária Quebrada Alimentada começou a funcionar em março de 2025. Unindo-se ao Instituto Capim Santo, a Associação Quebrada Alimentada gere a cozinha a partir do apoio do Programa Cozinhas Solidárias e de emendas parlamentares. Val é a coordenadora, e o espaço funciona com quatro cozinheiras e uma nutricionista contratadas pelo regime CLT. Elas preparam diariamente 500 marmitas.
Adriana Salay é historiadora, professora da Universidade de São Paulo (USP) e gestora do Quebrada Alimentada. Em 2015, ao estudar a fome no Brasil, conheceu os estudos do geógrafo Josué de Castro e se interessou em compreender como ela é fabricada. Em sua tese, a trajetória de Castro é o fio condutor para pensar insegurança alimentar. “A fome é um fenômeno cotidiano do capitalismo, porque ela está intimamente ligada à renda. É o dinheiro da pessoa que vai determinar se ela vai comer e o que ela vai comer. Esse processo moderno de geração da fome se consolida do século 19 para o 20, e o Josué sintetiza isso muito bem no livro Geografia da Fome, de 1946”, resume.
A migração do campo para as cidades produziu novas formas de desigualdade social. “A cidade é muito hostil para grande parte da população. Há uma série de barreiras físicas e simbólicas para acessar um restaurante popular”, introduz Solimar Rocha, geógrafa e doutoranda do Programa de Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Diferentemente da moradia, a alimentação adequada é mais recente na prateleira de direitos do brasileiro. E ainda está fora de alcance para mais de 13% da população, especialmente a urbana.

Foi em 2006 que a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN) incluiu pela primeira vez no arcabouço legal da república brasileira essa ideia. Quatro anos depois, o direito à alimentação adequada foi incluído na Constituição. Ambas são conquistas de organizações da sociedade civil. “As políticas públicas [posteriores à PNSAN] se constróem a partir de um reconhecimento da fome enquanto a violação de um direito do cidadão”, sintetiza Elis Borde, professora do departamento de Medicina Preventiva e Social e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da UFMG. Borde coordena o projeto Change Stories, no qual a pesquisa de Rocha está inserida. Elas estudam como políticas sociais trouxeram avanços na segurança alimentar e nutricional de Belo Horizonte desde os anos 1990 – as cozinhas solidárias são o exemplo mais recente.
Mesmo que os níveis de fome tenham diminuído desde 2023, ela ainda atinge 28 milhões de brasileiros. Daí a importância de ter uma política nacional que reconheça as cozinhas solidárias como equipamentos de segurança alimentar e nutricional. “As cozinhas solidárias vieram mostrar para a gente que tem um espaço aí nas periferias e nas grandes cidades que não vinha sendo contemplado”, resume Rahal, referindo-se à localização dos restaurantes populares e cozinhas comunitárias, que costumam estar em áreas de grande circulação, como próximo aos terminais de transporte público. As cozinhas solidárias, por sua vez, estão situadas em bairros e comunidades, atendendo pessoas que não podem se deslocar.
Essa proximidade é especialmente importante para mulheres negras, o grupo mais afetado pela fome no Brasil e que, muitas vezes, concentra as responsabilidades de cuidado da família. Além de receberem menor remuneração, elas costumam enfrentar jornadas exaustivas de trabalho reprodutivo – como limpeza e organização da casa –, cuidar de filhos e familiares idosos e, não raro, também atuar como principais provedoras do lar.
Rocha cita a diferença de público entre restaurantes populares e cozinhas solidárias a partir do sua pesquisa, em Belo Horizonte: enquanto nas regiões com muito movimento estão homens em situação de rua, nos bairros, as mulheres são maioria. “A mãe que passa por um restaurante popular à noite não pode parar lá para comer. Ela precisa que tenha uma feira lá, ou uma marmita, para ela levar comida para casa. Ela não pode enfrentar uma fila de uma, duas horas, enquanto os filhos dela estão sem janta.”

Há duas certezas ao chegar a uma cozinha solidária: na parte interna, o chiado da panela de pressão vai preencher o ambiente. E, do lado de fora, as filas serão maiores que a pilha de marmitas.
O artigo “Who are the Solidarity Kitchen Users?” (Quem são os beneficiários da cozinha solidária?, em português) investigou o público da cozinha solidária Sol Nascente na maior favela do Brasil, em Ceilândia. Os autores constataram que o observado no conglomerado das comunidades Sol Nascente e Pôr do Sol acompanhava a tendência nacional, em que a pandemia piorou o acesso à comida saudável para populações periféricas, especialmente mulheres negras. Os dados foram coletados em 2022, antes de o Programa Cozinhas Solidárias ser criado. Ainda assim, revelam um perfil que é representativo: a fome é um projeto que atinge moradores negros de favelas e comunidades e as cozinhas solidárias são fundamentais para derrotá-lo.
Das 83 pessoas entrevistadas, 88% eram negras, e 38% dos homens moravam sozinhos, enquanto 52% das mulheres viviam com quatro ou mais pessoas. Mesmo que trabalhassem fora, essas mulheres eram responsáveis pela manutenção da casa. Quase 40% havia conseguido uma casa própria através do MTST – e, destes, 75% iam todos os dias à cozinha solidária garantir o almoço.
A união da luta por moradia e alimentação adequada é uma estratégia de economia em ocupações: diminuindo o gasto com aluguel, as famílias conseguem reorganizar o orçamento e melhorar a qualidade de vida. E essa mobilização costuma ser puxada pelas mulheres.
“As mulheres são o centro do território. Formar a comunidade tem a ver com uma noção estendida de família, com esse âmbito do privado, mas isso não é visto como um trabalho”, observa Salay, da Quebrada Alimentada. Favacho, do MTST, faz coro: “O trabalho de construção de cidadania na periferia se dá quase praticamente por movimentos [sociais], e não é um trabalho remunerado”. Nas cozinhas solidárias, as cozinheiras, na verdade, alimentam a vida comunitária.
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Trabalho feminino – e não remunerado
Nas cozinhas visitadas pelo Joio, viu-se mulheres cantarolando enquanto refogavam quilos de cebola, fazendo brincadeiras entre si e com os frequentadores, e atentas à mínima mudança de comportamento ou de frequência dos conhecidos.
Não é trivial que elas pareçam tão espontâneas desempenhando esse papel de cuidadoras. “Essa qualificação está sendo feita desde que somos muito pequenas, a partir da construção da identidade de gênero. Estar atenta e disponível para o cuidado do outro é uma habilidade adquirida, não é a natureza da mulher”, sublinha Miriam Nobre, engenheira agrônoma, coordenadora da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e que atua com mulheres agricultoras do Vale do Ribeira, em São Paulo.
Manter a casa limpa, fazer comida, lavar roupa, levar os filhos à escola, gerir o orçamento doméstico e cozinhar são trabalhos de reprodução social que disponibilizam a mão-de-obra para o trabalho produtivo. Em miúdos: sem a mulher para cuidar da casa, o marido não desempenha tão bem no emprego. Mesmo que ela também trabalhe fora.
A cultura patriarcal coloca o trabalho doméstico como sinônimo de demonstração de amor das mulheres, ao mesmo tempo que o desvaloriza. Espera-se que ele seja feito de forma gratuita, invisível e abnegada. Quanto mais se acelera o ritmo de vida e da produtividade no trabalho, maior é o custo para manter tudo como está. “A válvula de ajuste entre o ritmo do capital e o ritmo da vida é a sobrecarga das mulheres e do trabalho de reprodução”, observa Nobre.

A existência de cozinhas solidárias e outras iniciativas coletivas de gestão de cuidados são uma alternativa a essa organização nuclear e patriarcal da sociedade. Mas também trazem um paradoxo: se esse trabalho for voluntário e integral, então essas mulheres servem como uma reserva de cuidado para a sociedade. E, em vez de distribuir, concentram mais responsabilidades sobre si: a da própria casa e a do coletivo.
O arranjo permite uma flexibilidade maior – cuidar das pessoas mais velhas da família, levar o filho ao médico, manter a própria casa –, mas a deixa desprotegida em relação à previdência social. “Como você vai se aposentar se está fazendo um trabalho voluntário ao longo desse tempo todo? E esse trabalho voluntário é que tem que dar conta de todos os cuidados necessários para sociedade?”, questiona Nobre.
Nesse sentido, houve uma adição na lista de direitos brasileira. A Política Nacional de Cuidados, lançada no final de 2024, busca diluir essa responsabilidade individual. A iniciativa prevê a ampliação e integração de serviços públicos de cuidado, além de medidas para reduzir a sobrecarga do trabalho não remunerado sobre as famílias, como creches, lavanderias coletivas, centros de convivência para pessoas idosas e outros equipamentos públicos de apoio ao cuidado. É onde as cozinhas solidárias se encaixam: para muitas mulheres, a comida pronta é uma tarefa a menos pesando na rotina.

Ainda que o orçamento público para apoiar essas iniciativas seja pouco, ele é de grande ajuda para manter as panelas no fogo. “A gestão financeira de uma cozinha solidária, seja ela do MTST, do centro espírita ou da Dona Mariquinha, é uma gestão de escassez. Isso é uma coisa que a periferia aprende [na prática], não é novidade fazer o pouco render muito. Então, se tem dinheiro, a gente faz muito mais”, afirma Favacho, do MTST-SP. Em todo o Brasil, o movimento apoia cerca de 70 unidades, remunerando todas as cozinheiras e trabalhadoras a partir de uma campanha de financiamento coletivo e do apoio financeiro do Programa Cozinhas Solidárias.
Pagar as cozinheiras é uma questão inegociável para o MTST. “A gente pede a todas as cozinhas para priorizar o salário da cozinheira antes de comprar qualquer coisa”, frisa Favacho. Muitas delas são voluntárias nas cozinhas no seu tempo livre e recebem uma ajuda de custo pelo trabalho, mas a contratação formal está no horizonte do movimento.
“A nossa luta agora é reivindicar uma proteção social e uma garantia do salário da cozinheira do Programa Cozinha Solidária. Isso tem de vir do governo”, enfatiza Favacho. Em outros países latino-americanos, movimentos populares travam disputas semelhantes há décadas. Na Argentina, cozinheiras de restaurantes populares (lá chamados de comedores) ligados a organizações como La Poderosa reivindicam reconhecimento previdenciário e remuneração estatal pelo trabalho comunitário. No Peru, as cozinhas populares e os programas Vaso de Leche se consolidaram como redes femininas de combate à fome desde os anos 1980, enquanto experiências comunitárias na Bolívia e no Chile também pressionam governos locais por financiamento contínuo e proteção social às trabalhadoras do cuidado.
Horizontes imaginados
As cozinhas solidárias ainda operam na lógica da emergência. Não só porque o foco da operação é a mitigação da fome imediata, mas também por ser uma solução recente. A estrutura é frágil: a maior parte delas depende de doações e de trabalho voluntário, com apoio pontual de emendas parlamentares e, desde 2024, os editais do Programa Cozinha Solidária.
Pesquisadoras e lideranças ouvidas pelo Joio dizem que é preciso que essa política pública se firme, a ponto de se tornar permanente. Assim, ela faria jus ao direito constitucional da alimentação adequada. Salay, do Quebrada Alimentada, faz um paralelo com o Sistema Único de Saúde (SUS). “O SUS funciona perfeitamente bem? Não, mas você tem o posto de saúde como referência, você pode buscar o seu remédio, você pode buscar um tratamento. Tem muitas questões, mas o SUS se materializa na vida das pessoas”, contextualiza.
“O alimento é um direito, mas ele só se materializa via mercado. Meu sonho é que cada bairro tenha uma cozinha solidária”, diz Salay.

Seria uma solução estrutural que tiraria a alimentação da responsabilidade individual, trazendo-a para a coletividade, algo que dialoga com um debate antigo da economia feminista: a necessidade de desprivatizar e desfeminizar o cuidado. Ao mesmo tempo, essa transição não apagaria o conhecimento nem a contribuição das mulheres na construção de estratégias. “É colocar o que sustenta a vida no centro, como o preparo da comida, e redistribuir o trabalho entre todas as pessoas, sem deslocar as mulheres do protagonismo de tudo isso”, explica Nobre, da SOF.
Para isso, não basta apenas a política pública. É uma mudança cultural. “Existe um discurso moralista e até elitista de que somos nós, as mulheres, que precisamos cozinhar alimentos in natura, orgânico, não ultraprocessados. Eu concordo com isso. Mas quais são as condições de vida dessas mulheres para ter esse tipo de alimentação?”, questiona Salay. A cozinha solidária, diz ela, funciona também como uma desobrigação temporária desse trabalho: um lugar onde a mulher pode buscar uma refeição adequada para si e para os seus quando a rotina não dá conta.
São as mulheres quem têm imaginado um mundo menos desigual – e agido para colocar as ideias em prática. Na Ocupação Nova Esperança, Cuca tem planos de médio prazo: “Ainda quero bater uma laje e fazer um refeitório. Meu sonho é que o povo venha, sente, coma, se sinta num ambiente confortável”. E também para um futuro ainda distante: “E que amanhã, quando eu não estiver mais aqui, que tenha gente melhor que eu, porque eu fui só o pilar. Isso aqui é do povo.”
