O Joio e O Trigo

Na fartura da Amazônia, avanço do agro ameaça  comida, rios e modos de vida

, especial para o Joio

Portos, grãos e grandes obras reorganizam territórios e pressionam sistemas alimentares tradicionais, enquanto comunidades ribeirinhas tentam manter redes de produção, cuidado e resistência

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Da varanda de sua casa no território agroextrativista de Pirocaba, em Abaetetuba (PA), a educadora popular Daniela Araújo observa o horizonte com um misto de pertencimento e alerta. À sua frente, na Ilha Xingu, o pedaço de floresta corre o risco de virar um porto industrial da gigante americana Cargill. Para o agro, o projeto é logística e progresso. Para Daniela e sua comunidade, é a ameaça a um modo de vida que ainda resiste. Desde 2017, ela lidera uma batalha invisível para muitos, mas vital para quem depende do rio: a luta para que o avanço da soja não transforme seu território em mais uma “comunidade fantasma” no mapa do agronegócio.

Com a proximidade com o pólo industrial de Barcarena, o Pirocaba e seus vizinhos já conhecem os efeitos do fluxo de navios que exportam grãos para outros países. 

O tráfego prejudica diretamente a pesca, principal fonte de alimentação do povo ribeirinho. “Quando os pescadores estão na baía, eles relatam a questão do embarque e desembarque das barcaças”, explica a ativista. “Eles observam a fuligem que cai no rio.”

As mudanças são percebidas na cor da água e na quantidade de peixes pescados. “O mapará e outros peixes preferem água escura. Até mesmo o camarão. Tenho uma irmã que é pescadora e ela relata também a dificuldade em relação ao camarão, porque a água tá todo tempo clara”, detalha Daniela. 

Em 2025, o Porto de Barcarena exportou cerca de 16 milhões de toneladas de soja e milho – média de 43,8 mil toneladas por dia. É o principal porto de exportação na região Norte, parte fundamental da estratégia de logística e infraestrutura para o modelo econômico atual do Brasil. Por ele, e em todos rios e nas baías de seu caminho, passam embarcações monumentais com contêineres dos grãos que escapam para os rios. 

Os portos de Itacoatiara, no Amazonas, de Santarém, no Oeste do Pará, e de Santana, no Amapá, junto das Estações de Transbordo de Carga Porto Alegre, em Rondônia, e de Miritituba, no Pará, completam a parte amazônida do chamado Arco Norte, parte importante do sistema de escoamento da agropecuária empresarial internacional. 

São ataques territoriais deste tipo que vêm colocando em risco a segurança alimentar em diversos pontos do território amazônico. Marcela Vecchione, historiadora, cientista política e pesquisadora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, aponta que a Amazônia tem em curso uma “disputa territorial” sobre formas de ocupar e sobre que tipo de cultura e de civilização está se reproduzindo socialmente. 

“Essa implantação tem impacto físico, com as infraestruturas, com a contaminação, mas também tem impacto invisível”, continua Marcela. “Tem o impacto das pessoas novas que chegam, do pra que serve a cidade, do pra que ela vai ser projetada, de projeção em exportação, em produção. Você está definindo o que é e o que não é o futuro seguro daquele lugar e daquelas pessoas. Como as pessoas sobrevivem, o que elas comem, qual é a água que elas bebem. Vemos que as coisas que eram dali vão ficando meio impossíveis”.

Do ponto de vista da alimentação, Manaus – cuja região metropolitana abarca Itacoatiara – tem sofrido as maiores mudanças. 

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Porto de Vila do Conde em Barcarena. Foto: Reprodução Portal Barcarena

“Há 100 anos, a cultura alimentar era mais com base na proteína animal, em produtos frescos, naturais, como os frutos amazônicos, como a caça e principalmente o peixe, que é a proteína principal de alimento dos amazônidas. De lá pra cá, essa cultura vem mudando principalmente pela mudança das paisagens naturais, a chegada de pessoas de fora e de um mercado organizado”, explica Jucimara Santos, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Daniela Araújo descreve como, remando em suas canoas ao lado desses grandes navios, as ribeirinhas e ribeirinhos do Pirocaba percebem a mudança do ciclo dos rios. “As águas estão sempre aumentando, sempre aumentando”, fala Daniela, com a voz preocupada. “Antes a gente sabia. ‘Essa semana a gente não vai conseguir colocar uma rede para pegar o camarão, só na próxima, porque a água tá de lanço’. Mas agora não. Dá três semanas seguidas que a água já lançou aqui dentro do território”.

Assim como os pescados, as caças também vêm diminuindo com o tempo. “Tatu, cutia, veado… ainda tem dentro do território, mas é muito pouco. Antes era mais constante”, lembra. 

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O pirarucu e o frango congelado

O que o território do Pirocaba vive não é um fenômeno isolado. A Amazônia aparece como palco do que a nutricionista e antropóloga Nádia Fernandes, professora da Faculdade de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Fasc/Unifesspa), nomeia como “neoextrativismo”. É a exploração intensiva de recursos naturais para atender mercados externos que reorganiza não apenas territórios, mas também sistemas alimentares.

Esse modelo usa hidrelétricas, mineração, grandes obras de infraestrutura e o avanço do desmatamento para aumentar os lucros. Ao mesmo tempo, pressiona práticas como pesca, plantação, coleta e processamento de alimentos, atividades que alimentam as pessoas, mas que dependem de tempo, conhecimento e condições ambientais específicas. 

A situação é agravada em um contexto em que as redes de distribuição e abastecimento do que se produz nas ilhas, comunidades ribeirinhas e zonas rurais se veem enfraquecidas, sem apoio ou incentivo.

Mais do que uma mudança de dieta, o que está em curso, afirma Nádia, é uma transformação mais complexa. “A Amazônia não vive uma transição alimentar clássica, mas uma transição sobreposta, marcada por permanências e mudanças simultâneas.”

“O que observamos é a coexistência de dois sistemas alimentares: um tradicional, baseado no território, e outro industrializado, baseado no mercado”, segue Nádia. “No entanto, essa dinâmica não é homogênea. Ela varia profundamente conforme os modos de vida e os ambientes, especialmente entre populações das águas, das florestas e dos campos.”

Essa convivência aparece no cotidiano das comunidades, onde alimentos do território continuam a ser a base da alimentação no dia a dia, mas passam a disputar espaço com os congelados e embalados, produtos que são baratos e práticos de acessar. 

“Você começa a ter uma transição alimentar muito forte. Chegam produtos muito industrializados. Às vezes, quando tem energia elétrica, chega a salsicha, o frango. Você também tem uma redução grande do consumo de alimento selvagem”, observa João Campos-Silva, presidente do Instituto Juruá, que atua no Amazonas com pesquisa aplicada e fortalecimento de cadeias produtivas e proteção territorial junto a comunidades.

Ao mesmo tempo em que alimentos industrializados avançam com facilidade, cadeias produtivas locais enfrentam obstáculos estruturais para se manter. No caso do pirarucu, um dos principais exemplos de manejo sustentável na Amazônia, a produção depende de um esforço coletivo intenso de proteção territorial. 

“Hoje, a gente tem 5 mil manejadores de pirarucu protegendo 15 milhões de hectares”, explica João, se referindo ao trabalho acompanhado pelo Instituto Juruá. “Eles protegem contra pesca ilegal, contra invasões, às vezes até contra o narcotráfico. Se não protegerem, o peixe sai do lago e eles têm prejuízo. Estão prestando um serviço gigantesco para a sociedade e não são beneficiados por isso. Porque o que eles ganham está longe ainda do valor justo.”

Esse custo invisível contrasta com a lógica de produção de alimentos industrializados, como o frango congelado, que chegam às comunidades com preço competitivo, alta disponibilidade e forte apoio logístico. 

Enquanto cadeias como a do agronegócio foram historicamente estruturadas com investimento público massivo (como pesquisa, infraestrutura e subsídios), iniciativas baseadas na sociobiodiversidade ainda operam com pouca assistência técnica, dificuldades de escoamento e acesso limitado a políticas de incentivo. 

“Todos os desafios logísticos e estruturais estão nas costas dos produtores. Tem um problema de escoamento, mas também de todos os tipos de apoio possíveis, como beneficiamento e pós-produção”, revela João.

O resultado é um desequilíbrio: produzir e consumir pirarucu, que exige organização comunitária e conservação ambiental, se torna mais difícil e caro na região do que acessar proteínas industrializadas.

“Quando eu falo de sociobioeconomia, eu estou falando de um conceito profundamente enraizado nos territórios. Antes de falar de produção, eu estou tendo como pressuposto territórios protegidos, esse respeito cultural ao modo de produzir, o protagonismo local, os direitos sociais, o respeito à cosmovisão dos povos”, fala João. 

“As comunidades estão fazendo sociobioeconomia há séculos, produzindo e vendendo. A única questão é garantir os direitos sociais e a autonomia dessas comunidades para que elas façam isso de uma forma que gere mais dignidade. Nenhuma cadeia produtiva na Amazônia é sustentável financeiramente hoje. Muitas comunidades estão pagando para trabalhar.” 

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A insegurança alimentar na terra da biodiversidade

Jucimara Santos, do Inpa, lembra de quando esteve em Porto Velho (RO) no início de 2026. Na ocasião, foi remetida a um cenário que começou a ser desenhado há mais de seis décadas. “Vi a estratégia de distribuição e abastecimento da soja super forte. Um modelo de agricultura que começou a se fortalecer principalmente desde os anos 60 com a abertura das estradas e os rasgos da floresta de forma vertical, invadindo os territórios”, explica. 

“Segundo os dados que a gente tem do IBGE e do IPCC, você teve um grande escoamento dessa produção sob a justificativa de produzir cada vez mais alimentos para ter menos insegurança alimentar, porque tem muitas pessoas passando fome”, contextualiza. 

O que ela observou, porém, foi justamente mais insegurança alimentar. “As pessoas não têm peixe, porque não têm mais como pescar no rio, por causa do desmatamento próximo, que afeta todo o ecossistema”, explica Jucimara.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), citado por Santos, 37,7% dos domicílios entrevistados na região Norte vivem em insegurança alimentar, situação em que a pessoa ou família não consegue ter comida boa e suficiente para viver com saúde. 

Dentro desse universo, 6,3% sobrevivem à fome extrema. É o pior índice do país.

“Essa situação é mais grave quando consideramos os recortes etários. A infância, especialmente em comunidades tradicionais, negras e quilombolas, permanece marcada por quadros de desnutrição, atraso no desenvolvimento e insegurança alimentar, ao mesmo tempo em que já se observa a introdução precoce de alimentos ultraprocessados”, relata Nádia. “Isso projeta um cenário intergeracional de agravamento das condições de saúde”.

Ainda de acordo com os dados do IBGE, a insegurança alimentar atinge mais domicílios em áreas rurais (31,3%) do que em zonas urbanas (23,2%).

“Nas cidades, há maior presença de alimentos industrializados e proteínas mais acessíveis, como frango congelado, charque, mortadela e outros produtos que se adaptam às formas urbanas de consumo, inclusive combinando com o açaí. Em municípios onde o açaí não é central, se observa maior centralidade da carne bovina ou de frango. Ou seja, há uma reorganização do padrão alimentar orientada pelo mercado”, analisa Nádia.

Em Manaus, Jucimara observa que “alguns alimentos começaram a faltar nas feiras”. Tucumã, camu-camu, araçá, e até tubérculos como batata doce e cará. No supermercado você vê peixe ensacolado e muitas vezes nem é da região. E você não encontra tambaqui, tucunaré, pacu.”

Esse modelo de produção faz com que 82% do valor comercializado em alimentos em Belém  tenham origem em outros estados, como Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Os dados são da Central de Abastecimento do Estado do Pará, reunidos em relatório do Instituto Escolhas

Resistência e novos caminhos

Além de educadora popular, Daniela Araújo é mãe, agricultora familiar, feminista. Mora no Pirocaba desde que nasceu. Até recentemente, ela não conseguia falar sobre a experiência de luta pelo seu território sem chorar. “Tenho um amor imenso por esse território. Foi muito difícil essa luta contra esse empreendimento. Mas a gente está em 2026 e até hoje o porto não foi construído. Graças a toda essa mobilização, porque a gente também não fez só isso.”

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Daniela Araújo lidera desde 2017 uma luta para que Pirocaba, no Pará, não vire mais uma “comunidade fantasma” por ação do agronegócio. Foto: Acervo pessoal

Ela se refere à mobilização ocorrida no território contra a ameaça do porto da Cargill. À época, os moradores buscaram ajuda. A organização Fase – que atua no fortalecimento de grupos sociais para a garantia de direitos, da democracia e da justiça ambiental – e o Ministério Público Federal (MPF), entre outras organizações, apoiaram a comunidade a desenvolver seu protocolo de consulta, o primeiro do tipo na região. 

A mobilização foi grande e se espalhou. Hoje, outras comunidades e territórios próximos também têm seus protocolos de consulta.

Os moradores também seguiram mobilizados para fortalecer a produção e a economia de base agroextrativista. Logo depois do plano de consulta, veio o plano de gestão territorial. No final, a organização pela luta contra um projeto que impacta diretamente seu território, fortaleceu bases comunitárias para segurança alimentar e econômica dessa comunidade.

O território passou a fornecer alimentos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).  A partir de 2026, passou também a integrar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Em ambas as políticas públicas, a ideia é que a agricultura familiar forneça alimentos para escolas e população, com o objetivo de combater a fome e fortalecer uma economia sustentável.

Enquanto isso, o projeto do porto da Cargill segue suspenso, aguardando a conclusão de ação civil pública na Justiça Federal. A ação nasceu a partir do Projeto de Assentamento Agroextrativistas (PAE) Santo Afonso e engloba também o direito das comunidades vizinhas de serem consultadas sobre a construção que as impacta diretamente. As comunidades afirmam que não houve qualquer consulta e o Ministério Público Federal (MPF) hoje atua em sua defesa. A empresa informou que aguarda “o andamento do processo de licenciamento ambiental junto aos órgãos competentes”.

Todas as comunidades potencialmente afetadas por grandes empreendimentos têm direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que tem força de lei no Brasil desde 2004.

Alternativas agroecológicas

Apesar desse cenário de perdas e pressões, há territórios que seguem construindo outros caminhos possíveis a partir da própria terra. 

No Pirocaba, Daniela resume essa lógica de forma simples: consome prioritariamente o que consegue produzir ali mesmo, no território, num sistema agroecológico. 

A prática se desdobra em uma rede de quintais produtivos, em sua maioria cultivados por mulheres, onde se plantam frutas, hortaliças e ervas e se criam galinhas. A produção garante não só a alimentação cotidiana, mas também alguma autonomia econômica para as famílias. 

É uma paisagem repleta de açaí, cupuaçu, cacau, coco, laranja, limão e diversos tipos de banana, além de pupunha, jabuticaba e abacaxi. O chão tem pimentas, cheiro verde, couve, orelha de macaco, alfavaca, chicória, entre outras preciosidades.

Em vez de uma produção individualizada, o que se fortalece é uma dinâmica coletiva: cada agricultora cultiva o seu espaço, mas as trocas são constantes e todas se beneficiam. 

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Uma rede de quintais produtivos, em sua maioria cultivados por mulheres, produz comida para consumo próprio e para geração de renda. Foto: Daniela Araújo

Essa organização também tem permitido acessar políticas públicas como o PAA. Para muitas, foi a primeira vez que conseguiram gerar renda direta a partir da própria produção. É suficiente para comprar um fogão, melhorar a casa, reorganizar a vida. Não é um processo simples, nem rápido. “É um trabalho de formiguinha”, diz Daniela. 

Mais recentemente, o governo federal tem anunciado novas políticas públicas para incentivo de produções de comunidades como a do Pirocaba.

É o caso do Plano Nacional de Bioeconomia, com aporte de R$ 350 milhões, e o edital para apoio a quintais produtivos, no valor de R$ 50 milhões.

Também tem o Programa Ecoforte, que faz parte da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, com investimento de R$ 100 milhões entre 2024 e 2027.

Durante a COP30, em Belém, o governo anunciou o Programa Nacional de Florestas Produtivas, que direciona R$ 426 milhões para a recuperação de áreas degradadas e à geração de renda sustentável para comunidades rurais da Amazônia.

Já o Plano Safra da Agricultura Familiar foi lançado em junho de 2025. Na última safra, de 2025/26, o governo federal destinou R$ 89 bilhões para a agricultura familiar.

São políticas que podem ser acessadas pela comunidade do Pirocaba e tantas outras comunidades amazônicas, garantindo mais dignidade e estabilidade econômica. É uma dose de incentivo após anos de trabalho para sustentar um sistema alimentar que valoriza a biodiversidade. 

Esses valores representam, no entanto, quase seis vezes menos do que é investido anualmente no setor da agricultura empresarial, que recebeu R$ 516,2 bilhões para a safra de 2025/26. Empresas como a Cargill se beneficiam diretamente desses incentivos.

É diante desse cenário que Daniela persegue seus objetivos. “A gente vai incentivando as pessoas a plantar, a não vender sua terra, a produzir. Não é algo da noite pro dia.” 

Nesse ritmo, entre dificuldades e vitórias, os ribeirinhos seguem insistindo em manter viva uma forma de produzir, comer e existir que garante alimentação saudável, floresta de pé e rios vivos.

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