iStock; O Joio e O Trigo

BAT, ex-Souza Cruz, processa Anvisa para liberar sachê com 10 vezes mais nicotina que cigarros

Em ação sigilosa, Justiça dá liminar que pressiona agência a flexibilizar regras e autorizar a venda de “snus branco” da marca Epok, fabricado em sabores atraentes para adolescentes

Sachês de nicotina com níveis até 10 vezes maiores que os de cigarros podem em breve estar disponíveis ao lado dos maços tradicionais em milhares de mercados, padarias e tabacarias do Brasil inteiro. Isso porque, em abril, a Justiça Federal emitiu uma liminar que abre caminho para a venda desses produtos no país. O pedido foi feito pela BAT, a antiga Souza Cruz, fabricante de marcas como Rothmans, Lucky Strike, Kent e Dunhill, conforme apuração do Joio. O produto consiste em uma pequena bolsa com sabor de frutas, apresentada em latas coloridas como as de doces. Ao ser colocada entre a bochecha e a gengiva, ela libera nicotina na boca por cerca de 30 minutos.

Atualmente, esses sachês seguem proibidos no país. No entanto, a decisão judicial pressiona a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a viabilizar uma exceção para a marca Epok, da BAT, um tipo de “snus branco” criado na Noruega em 2014. A liminar, concedida em uma ação em segredo de justiça, reverte uma decisão de dezembro de 2025. Na época, a agência negou o registro de duas versões do produto, de 4 mg e 6 mg de nicotina cada, com três opções de sabores: hortelã, frutas vermelhas e manga. Agora, a Justiça determinou a retomada da análise, dessa vez com requisitos flexibilizados, o que, na prática, dificulta uma nova rejeição.

Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que sachês do tipo são viciantes e perigosos, e faltam regulações adequadas para impedir seu avanço em muitos países. “Governos estão vendo o uso desses produtos se espalhar depressa, especialmente entre adolescentes e jovens, que estão sendo agressivamente mirados por táticas enganosas”, afirmou o médico epidemiologista Etienne Krug, diretor da OMS, em comunicado à imprensa. “Esses produtos são projetados para viciar e há uma forte necessidade de proteger nossa juventude da manipulação da indústria [do tabaco]”.

Se esses sachês forem aprovados da forma que a BAT deseja, cada bolsa será capaz de, em menos de uma hora, liberar teores de nicotina equivalentes aos de 5 a 10 cigarros, que no Brasil costumam ter níveis entre 0,6 mg e 0,8 mg cada. De acordo com um levantamento feito pela reportagem, o Epok contém entre 22 e 24 sachês por lata, e custa entre R$ 46 e R$ 73 em lojas suecas e norueguesas.

Além de viciante, o produto pode causar lesões na boca que demoram até um ano para cicatrizar. Por se tratar de uma invenção recente, pouco se sabe sobre outros riscos associados ao seu uso.

Na prática, o produto ocupa uma posição intermediária entre o snus tradicional e os sachês de nicotina tradicionais. Enquanto o snus é uma bolsa de tabaco úmido em pó, usado em países escandinavos há décadas, os sachês são produtos novos que não contêm fumo, feitos à base de celulose com nicotina adicionada. Já o “snus branco”, como o Epok, utiliza uma espécie de “tabaco lavado” em que a folha é fervida em uma solução de enxofre e descolorida com água oxigenada, segundo patentes revisadas pela reportagem. Depois, uma pequena porção é misturada a sabores, espessantes, umectantes e nicotina (sintética ou natural), entre outros aditivos que fazem a substância penetrar mais depressa na mucosa da gengiva.

À reportagem, a BAT disse em nota que “todos os seus produtos seguem rigorosamente o marco regulatório vigente no Brasil e os processos estabelecidos pelas autoridades competentes, em especial a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. “A companhia esclarece que eventuais pedidos administrativos ou medidas judiciais integram o exercício regular de direitos previstos na legislação brasileira, com o objetivo de assegurar a adequada análise técnica de processos, sempre em conformidade com as normas aplicáveis”, afirmou o comunicado.

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Epok driblou restrições contra sachês de nicotina na Noruega

Criado pela sueca Winnington – comprada pela BAT em 2017 –, o Epok emplacou sobretudo na Noruega, país que bane sachês de nicotina, mas não o snus. Por isso, a saída da empresa foi abraçar o “snus branco” para garantir espaço a seus novos produtos orais no mercado nórdico. Segundo sites de vendas de snus, produtos como o Epok costumam ter níveis pequenos de fumo, “frequentemente menos de 5% do peso” em “tabaco lavado”, o mínimo suficiente para enquadrá-lo como um produto fumígeno tradicional, ainda que sua aparência e níveis de nicotina sejam os mesmos dos sachês artificiais. 

Ao que tudo indica, a estratégia no Brasil é semelhante à usada na Noruega. De acordo com a liminar revisada pela reportagem, a Anvisa inicialmente negou o Epok porque, por conter pouco tabaco, o produto não poderia sequer ser considerado um “produto fumígeno” passível de registro junto ao órgão. Além disso, a empresa não teria comprovado quais seriam os supostos “benefícios à saúde” do produto. No exterior, ela promove sachês de nicotina como alternativas “menos arriscadas” do que cigarros, ainda que jovens não tabagistas sejam o principal público-alvo, segundo a OMS.

Só que, como a agência ainda não estabeleceu regras para aprovação ou rejeição dos sachês, a BAT argumentou que a decisão foi ilegal e deveria ter seguido os ritos usados para se autorizar a venda de produtos comuns, como cigarros. Além disso, por conter a folha, mesmo que em pequenas quantidades, o produto seria, sim, um fumígeno. O juiz concordou. Com isso, ele decidiu que a Anvisa não pode exigir um “percentual mínimo de tabaco” e nem “comprovação de benefício à saúde” para registrar o Epok, e obrigou a retomada da análise, dessa vez com exigências mais flexíveis. 

O pedido tramita na categoria de “tabaco mascável”, ainda que o sachê não seja mascado, e sim colocado na gengiva. Além disso, segundo as solicitações da antiga Souza Cruz junto à agência, o “snus branco” a ser vendido no Brasil seria importado. Ao pesquisar informações do produto em lojas escandinavas, a reportagem apurou que o Epok é fabricado na Hungria, país que não importa tabaco do Brasil. Lá a BAT mantém uma fábrica que abastece seu suprimento global de sachês na cidade de Pécs, no sudoeste húngaro, próximo à fronteira com a Croácia.

Ainda em dezembro de 2024, o Joio já havia revelado como os sachês de nicotina começaram a ser contrabandeados ao Brasil, entre eles, produtos da própria BAT e da Philip Morris, a fabricante do Marlboro. Na época, marcas como Velo e Zyn eram vendidas nas redes sociais como alternativa aos vapes. Um mês depois, a Vigilância Sanitária de Mato Grosso do Sul realizou a primeira apreensão dessas bolsas no país, cerca de 2,2 mil delas, como revelou o Estadão.

Na mesma época, a BAT havia enviado à Anvisa uma carta convidando dois diretores da agência, Daniel Pereira e Danitza Buvinich, para uma rodada de visitas às sedes da empresa na Inglaterra. Segundo o convite, a intenção era apresentar a eles a “ciência por trás desses produtos sem fumaça, como vaporizadores, produtos de tabaco aquecido e sachês de nicotina oral”, revelou o Joio. A viagem foi marcada para o fim de janeiro de 2025, mas acabou cancelada após o site Jota revelar os planos. No mesmo mês, a BAT enviou pedidos de registro de novos produtos ao órgão. Agora, sabe-se que o plano de lobby se referia à liberação do Epok.

A liminar corre o risco de atropelar um processo recém-lançado pela agência para rediscutir a regulação de produtos de nicotina, o que inclui os snus brancos. No fim de maio, o órgão abriu um edital de chamamento de coleta de informações para “avaliar e identificar qual o modelo regulatório mais adequado a ser adotado para tratar os produtos fumígenos que tenham como matéria-prima principal a nicotina, diferenciando-os dos derivados tradicionais de tabaco para garantir o cumprimento da legislação sanitária”. A Anvisa não respondeu às dúvidas encaminhadas pela reportagem por e-mail.

Snus com pouco ou zero tabaco é três vezes mais lucrativo que cigarros

Hoje, sachês são a categoria de novos produtos que mais cresce na indústria, segundo estimativas internas que a BAT apresentou para investidores no início deste ano. Em 2022, as bolsas traziam um faturamento de cerca de 1 bilhão de libras esterlinas ao setor de tabaco (quase R$ 7 bi). Em 2025, este número saltou para 4 bilhões de libras (ou R$ 27,8 bi), receita igual à obtida com a venda de vapes globalmente. Na mesma apresentação, a BAT destacou o Brasil como um de seus principais mercados para cigarros ainda fechados às “novas categorias”.

Os slides também destacaram que sachês são “altamente lucrativos”. O “lucro bruto” gerado pela categoria é três vezes maior se comparado ao de cigarros comuns. Nos Estados Unidos, onde a BAT vende o Velo Plus, uma bolsa de nicotina sintética, a empresa espera que o mercado de produtos orais cresça três vezes até 2030 e atinja 25 milhões de pessoas – hoje, são quase 16 milhões de usuários estadunidenses.

“Nós continuamos a ver fumantes continuamente migrando para novas categorias”, disse o CEO da BAT, o brasileiro Tadeu Marroco, em uma conferência para investidores de fevereiro deste ano. “Isso está compensando o declínio em [cigarros] combustíveis, enquanto fumantes buscam por alternativas menos arriscadas, e para destravar momentos de consumo, que haviam sido perdidos devido a restrições regulatórias”, afirmou.

Uma das apostas da empresa é que sachês irão impulsionar formas “discretas” de uso da nicotina, especialmente em locais fechados, no trabalho, nos estudos ou no transporte coletivo, os tais “momentos de consumo perdidos” por causa de leis antifumo. Com isso, tabagistas terão acesso a um portfólio ampliado de produtos de nicotina da BAT – como cigarros, vapes, sachês e tabaco aquecido – para satisfazer a dependência da nicotina sem restrições, o chamado “poliuso”.

“Nos últimos cinco anos, o poliuso total dobrou [cigarros + novos produtos], e o poliuso de novas categorias [só vapes, sachês ou tabaco aquecido] cresceu cinco vezes, enquanto consumidores escolhem diferentes categorias para combinar diferentes humores e momentos durante o dia”, explicou Marroco aos investidores. “Mais importante, esses consumidores geram quase o dobro do faturamento do que o usuário de uma só nova categoria (…) E enquanto novas categorias ganham tração, o consumo diário médio também aumenta conforme esses produtos se tornam parte da rotina de um consumidor”, disse.

Em fevereiro, o Joio mostrou que a BAT passou a vender sachês de nicotina da marca Velo próximos a doces e chocolates direcionados a crianças em pontos de venda da Argentina e do Peru. Os próprios funcionários da empresa publicaram fotos no Linkedin comemorando o início das vendas do produto, que em mercados e lojas de conveniência é posicionado em meio a balas e guloseimas, o que, na prática, faz parecer que as bolsas são produtos infantis.

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