Vender tabaco para fábricas de cigarros como Tabesa e Uriom, donas das marcas paraguaias mais contrabandeadas ao Brasil, não é ilegal; a prática, no entanto, vai contra discurso de que o setor é prejudicado pelo comércio ilícito
O magnata do tabaco Horacio Cartes, presidente do Paraguai de 2013 a 2018, tem má fama. Dono da Tabacalera del Este (Tabesa), a principal fábrica de cigarros do país, Cartes também detém uma fatia de 17% do mercado tabagista brasileiro mesmo sem ter produtos legalizados por aqui, segundo dados do setor. Listada pela CPI da Pirataria de 2003 como um dos elos no contrabando de fumo, sua empresa chegou a ser processada em 2011 pela antiga Souza Cruz, hoje BAT, que a acusou de “concorrência desleal”. Em uma decisão inicial, o juiz da ação disse ser “fato notório” que a Tabesa inunda o Brasil com seus cigarros.
Ainda assim, pelo menos 10 exportadoras brasileiras venderam quase 140 mil toneladas de tabaco para a Tabesa entre 2008 e 2023, mostram dados obtidos pelo Joio via ImportGenius, plataforma que coleta informações sobre o comércio global. O volume é o suficiente para fabricar até 10 bilhões de maços de cigarros. No total, o Brasil forneceu mais da metade da folha comprada pela empresa no período. De acordo com dados de 2022 do próprio setor fumageiro, uma marca da Tabesa, a Eight, seria a segunda mais fumada do país – outra, San Marino, a oitava, ambas sem registro junto à Anvisa. Isso significa que o fumo nacional pode estar abastecendo produtos ilegais.
“Em 2008, já se sabia que vender para a Tabesa era vender para contrabandistas porque ela sempre incluiu dados de fabricação nos maços, assim como as advertências paraguaias, e depois esses pacotes eram encontrados no continente inteiro”, afirma o economista Roberto Iglesias, ex-consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Obviamente esses fornecedores sabem que Cartes iria fabricar cigarros que entrariam ilegalmente no Brasil.”
As principais exportadoras de tabaco para a Tabesa foram a Tabacos Marasca, uma fumageira de Venâncio Aires (RS), e a Premium Tabacos, de Santa Cruz do Sul (RS). Juntas, elas somam uma a cada quatro toneladas vendidas pelo Brasil à empresa de Cartes, segundo os dados analisados pela reportagem. Alliance One, China Brasil Tabacos, Universal Leaf, ATC, Brasfumo, UTC, HT Agro e Prime Leaf, todas com sede em cidades gaúchas, completam a listagem de fornecedoras brasileiras. Por anos, a Tabesa foi responsável por cerca da metade das importações da folha no Paraguai, segundo a aduana do país.
Todas essas exportadoras – à exceção de Prime Leaf e HT Agro – são associadas a grupos de lobby pró-tabagismo, como a Associação Brasileira das Indústrias de Fumo (Abifumo) ou o Sindicato da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), que costumam acusar políticas de saúde antifumo de impulsionarem o mercado ilícito. Segundo as entidades, aumentar impostos sobre cigarros, por exemplo, deixa os produtos legais mais caros, e barateia os ilegais, deixando-os mais atraentes. Variações desse argumento também são usadas contra outras medidas, como restrições a aditivos e sabores que deixam cigarros mais viciantes ou advertências de saúde nos maços, ainda que faltem evidências científicas que comprovem essas teses.
Só que, na prática, é o próprio setor fumageiro – e não as políticas de saúde – que favorece o mercado ilegal ao manter uma lucrativa relação comercial com a empresa de Cartes. Ao todo, as fumageiras identificadas pela reportagem – oito ligadas à Abifumo ou ao SindiTabaco – forneceram à Tabesa mais de U$ 240 milhões da folha entre 2014 e 2023, cerca de R$ 1,2 bilhão na cotação atual. Esse tipo de venda não é tributada, já que o Brasil não cobra impostos sobre exportações. As empresas só deixaram de entregar tabaco diretamente à fábrica paraguaia a partir de fevereiro de 2023, semanas após Cartes ser sancionado pelo governo dos Estados Unidos, acusado de corrupção.
Além da Tabesa, os dados revisados pelo Joio também identificaram que, entre 2020 e 2025, Marasca e Premium forneceram 5,45 mil toneladas de fumo à Uriom, indústria paraguaia que divide parte do mercado ilícito brasileiro com Cartes e fabrica os cigarros Gift, a quarta marca mais fumada por aqui. É o segundo lugar entre os ilegais, atrás apenas do Eight, segundo estimativas do Fórum Nacional do Combate à Pirataria e à Ilegalidade (FNCP), uma entidade ligada à indústria do tabaco que mantém um funcionário da BAT entre seus diretores.
Um estudo publicado em 2022 apontou Tabesa e Uriom como as protagonistas no mercado ilícito do país ao pesquisar o consumo de cigarros ilegais em cinco capitais brasileiras. “O que nossa pesquisa descobriu é que existe uma distribuição geográfica do comércio ilícito entre essas empresas [paraguaias]”, explica o economista Roberto Iglesias, um dos autores, que compara a divisão à forma com que máfias negociam a demarcação de mercados e territórios. “A Uriom, com o Gift, é importante no Rio de Janeiro, já a Tabesa, com o Eight, em São Paulo, e assim por diante.”
Nenhuma das exportadoras brasileiras que fornecem a folha à Tabesa e à Uriom deu retorno aos contatos por e-mail realizados pelo Joio. Abifumo e Sinditabaco tampouco responderam. As restrições estadunidenses contra o ex-presidente paraguaio foram revertidas em outubro de 2025.
Paraguai abastece mercado ilícito de cigarros, dizem estudos
Ainda assim, apesar do notório elo de indústrias paraguaias com o contrabando, o país vizinho costuma estar entre os dez principais destinos do tabaco nacional, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Só a quantidade de fumo brasileiro importada pela Tabesa em 2014, por exemplo, seria o suficiente para que tabagistas paraguaios fumassem pelo menos quatro maços ao dia naquele ano, calculou o Joio. Na prática, o país e suas empresas compram muita folha, mas oficialmente consomem e exportam poucos cigarros, o que indica que a maioria dessa produção acaba no mercado ilegal.
Um relatório de 2021 do Centro de Análisis y Difusión de la Economía Paraguaya (Cadep) estimou que, entre 2008 e 2019, a oferta de cigarros no país foi sete vezes maior do que a sua demanda doméstica. Um segundo estudo da entidade mostrou que, enquanto as importações de tabaco quintuplicaram a partir do início dos anos 2000, a exportação oficial de cigarros se manteve em níveis baixos e estáveis. “Esta grande lacuna sugere significativas exportações ilícitas de cigarros ao Brasil e outros países vizinhos”, ressalta o Cadep. A marca Eight, por exemplo, também é uma das principais dos mercados ilícitos do Chile e da Argentina, mostrou o jornal paraguaio ABC Color.
Até o fim dos anos 1990, grandes fábricas sediadas no Brasil, como BAT (ex-Souza Cruz) e Philip Morris, aproveitavam a falta de regras para se fabricar cigarros por aqui e os baixos impostos paraguaios para inundar o país vizinho, sabendo que seus produtos seriam contrabandeados de volta – a preços menores – para Brasil e Argentina. Com isso, a Receita Federal criou um imposto sobre a exportação dos maços que tornou inviável o esquema, conhecido como “exportabando”. Dados do MDIC mostram que, por isso, a exportação de cigarros brasileiros ao Paraguai caiu de 23 mil toneladas em 1998, um ano antes da taxa ser criada, para zero em 2000. Só que esse vácuo permitiu que indústrias locais, como a Tabesa, florescessem se apropriando da mesma tática.
Uma pesquisa publicada em 2018 que analisa a ascensão da empresa de Cartes mostra que, a partir daí, a fábrica passou a competir agressivamente pelo mercado tabagista brasileiro com grandes empresas de cigarros, como BAT e Philip Morris, mesmo que isso significasse apelar ao mercado ilícito. “As evidências sugerem que a Tabesa havia se tornado uma importante fonte de cigarros ilícitos em toda a América Latina e além, no final dos anos 2000”, diz o estudo. “Embora o Brasil continue a representar a maior parte das receitas da Tabesa, os achados sugerem que a empresa aspira a competir com as multinacionais em mercados de todo o mundo por meio de vendas legais e ilegais.”
Apesar disso, a empresa paraguaia nega ter responsabilidade no suprimento do comércio ilícito da região. Ao Joio, o CEO da Tabesa, José Ortiz, disse por e-mail que os cigarros da empresa trazem advertências em espanhol e guarani, além de terem legendas que indicam “venda exclusiva no Paraguai”. “Com isso, consideramos que, de maneira alguma, nossos produtos são orientados ao mercado brasileiro”, afirmou. “Ou seja, quem consome sabe perfeitamente que esse produto ou entrou ilegalmente no Brasil, ou foi falsificado no Brasil.”
Ortiz também disse que adoraria vender seus produtos “formalmente” no país, mas que “restrições publicitárias”, “impostos exorbitantes” e “fábricas ilegais” tornam a entrada da Tabesa “muito difícil”. O executivo também argumentou que os dados da FNCP que indicam que 17% do mercado brasileiro é de marcas como Eight e San Marino “não condiz” com o nível de produção de suas fábricas, e que, se os dados forem verdadeiros, esses cigarros não seriam os fabricados pela empresa, e sim falsificados por fábricas clandestinas dentro do Brasil que estariam imitando seus maços.
Ainda que autoridades indiquem um avanço de indústrias paralelas em território brasileiro nos últimos anos, não há evidência de que esse tipo de produção já supere o contrabando paraguaio. Ao Joio, a Receita Federal indicou ter participado da interdição de pelo menos sete fábricas clandestinas entre 2017 e 2025. “Apenas lembramos que outras forças de segurança também podem realizar o fechamento de fábricas ilegais”, afirmou o órgão, que não tem dados consolidados sobre esse combate. Um auditor fiscal disse à reportagem que, nos últimos anos, as fábricas encontradas estão cada vez maiores e mais bem equipadas, o que indica um avanço desse tipo de ilícito. Segundo o Metrópoles, foram 24 indústrias clandestinas do tipo fechadas entre 2021 e 2024.
Contudo, apesar da resposta de Ortiz, o próprio Cartes já admitiu saber que cigarros da Tabesa são contrabandeados para o Brasil e a Argentina em uma entrevista ao ABC Color, em 2012. Na oportunidade, o ex-presidente argumentou apenas vender cigarros legalmente em Ciudad del Este, cidade paraguaia localizada na Tríplice Fronteira, e que a empresa não pode controlar para onde vão seus maços a partir de lá. “Se o produto vai para o Brasil ou para a Argentina, é o mesmo caso da Sadia: ela vende o peru e, se o produto veio para o Paraguai, não foi a Sadia que enviou, foi o povo”, disse ao jornal. Na visão de Cartes, “o produto [da Tabesa] tem prestígio, por isso o levam”.
Os dados obtidos pela reportagem junto à ImportGenius também indicam que a empresa reduziu suas importações de fumo a partir da pandemia da covid-19 e praticamente as zerou após as sanções dos EUA a Cartes em 2023. Em seguida, compras volumosas de tabaco começaram a ser feitas por outra fábrica de cigarros paraguaia, a Veneto, que passou a operar como exportadora de marcas e herdeira das operações da indústria do ex-presidente. “A produção foi terceirizada diante da impossibilidade de a Tabesa produzir, a fim de que as marcas continuem vigentes”, explicou Ortiz, que garantiu cumprir as leis paraguaias. A irmã de Cartes, Sarah, é ex-diretora da Veneto.
De início, a Veneto comprou 1,1 mil toneladas da folha em 2023. Em 2025, o número saltou para 13,3 mil, sendo 12,2 mil só do Brasil, índice semelhante às importações anuais da Tabesa na década anterior, o que tornou a terceirizada a principal compradora de fumo nacional no Paraguai, segundo uma análise do Joio. No total, cerca de 76% das exportações brasileiras da folha ao país vizinho podem ter sido importadas pela Veneto. Segundo o ABC, a fábrica passou recentemente a vender maços de Eight ao Suriname, que se tornou uma nova rota do contrabando de cigarros ao Brasil, segundo reportagem do Metrópoles.
Os dados da ImportGenius, no entanto, não identificam as principais fornecedoras da Veneto nos últimos três anos, só a origem brasileira da maioria do fumo comprado. Veneto e Uriom não responderam às tentativas de contato por e-mail do Joio.
Tratado antifumo traz soluções, mas lobby atrapalha
Hoje, o Brasil impõe várias regras a importadores de produtos de tabaco e a fábricas de cigarros, que precisam garantir uma licença especial junto à Receita Federal e declarar o quanto produzem por meio de um sistema que permite contabilizar a produção nacional de cigarros. Esse tipo de regulação, no entanto, não se aplica a empresas que processam e vendem a folha de tabaco, como as fumageiras que têm Tabesa, Uriom e Veneto como clientes. Na prática, não há qualquer irregularidade em vender fumo para quem quer que seja, até mesmo contrabandistas.
Uma das soluções possíveis para evitar que o Brasil continue a impulsionar esse mercado ao fornecer a folha usada em cigarros ilegais é adotar normas previstas em um tratado da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Protocolo para Eliminar o Comércio Ilícito de Produtos de Tabaco. O acordo foi ratificado em 2018 pelo Brasil – que até o momento pouco avançou na adoção de novas regras – e pelo Paraguai em 2022. Na época, o presidente do país vizinho, Mario Abdo, um desafeto de Cartes, tomou a medida para provocá-lo. O ex-presidente e dono da Tabesa foi um firme opositor da ratificação.
O protocolo prevê, por exemplo, a criação de regras de licenciamento e sistemas de controle não só para a fabricação de produtos como cigarros, mas também para a venda da folha no atacado, o que abriria caminho para uma maior supervisão de fumageiras como Tabacos Marasca, Premium e Alliance One, que não são fiscalizadas com tanto rigor como as fábricas de cigarros. “O objetivo é garantir a rastreabilidade, prevenir desvios para o mercado ilícito e fortalecer a fiscalização ao longo da cadeia de suprimento”, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Só que, assim como a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), um acordo coordenado pela OMS que recomenda uma série de medidas de combate ao tabagismo, o tratado também é alvo do lobby da indústria do fumo, que tenta atrapalhar sua implementação. “A indústria vai dizer que essa é uma área em que ela pode colaborar, mas normalmente vai focar no que não tem a ver com ela”, explica o gerente de programa do secretariado da CQCT, Rodrigo Feijó, que atua na implementação global do protocolo. “Então ela vai dizer que o problema é a falsificação, ou a produção ilegal, sem reconhecer que ela também tem um papel, por exemplo, ao não se certificar que seus clientes vão destinar produtos de tabaco para fins legais.”
O protocolo também pede que governos obriguem empresas da cadeia do tabaco a adotarem medidas de “devida diligência”. Isso inclui, por exemplo, demandar que fumageiras monitorem seus clientes para ter certeza de que eles não abastecem o mercado paralelo e notifiquem as autoridades se suspeitarem de algo irregular. “Na linguagem corporativa, é comum o know-your-client (KYC): se eu vender meu produto para este cliente, ele consegue comprovar que não haverá desvios para fins ilícitos? Ninguém vai poder dizer ‘vendi e não sei o que aconteceu com o meu produto’”, explica Feijó. “Assim daria até para responsabilizar legalmente quem não fizer essa diligência da forma correta.”
Só que representantes do FNCP e do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), grupos ligados à indústria do tabaco que defendem que o mercado ilegal seja combatido por meio de reduções de impostos, são críticos a medidas que fiscalizem melhor o destino da produção de tabaco brasileira. “Os fabricantes [paraguaios] buscariam outros fornecedores e iríamos penalizar ainda mais o produtor brasileiro”, afirmou o advogado Edson Vismona, presidente de ambas as entidades, ao Joio em 2023. Nem Vismona, nem o FNCP retornaram aos e-mails enviados para esta reportagem.
Hoje, o Brasil é o maior exportador de tabaco do mundo e o segundo maior produtor da folha. Na última safra 2024/25, o país colheu mais de 719 mil toneladas de fumo, segundo dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). No total, são cerca de 138 mil plantadores, a maioria pequenos agricultores da região Sul. Por isso, medidas antifumo costumam ser rebatidas pelo setor como retaliatórias à agricultura familiar, que abastece em peso esse mercado. No entanto, as próprias empresas de fumo brasileiras sabem que uma boa parcela da produção nacional também tem abastecido o comércio ilegal.
Em setembro de 2025, durante uma reunião da Câmara Setorial do Tabaco, organizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o presidente do SindiTabaco, Valmor Thesing, indicou que o setor “tenta entender” o cenário da demanda mundial de tabaco nos próximos anos, o que inclui estimar quanto da folha acaba em produtos ilegais. “Mercado ilícito: quanto eles estão absorvendo? Hoje, nós estimamos, com certeza, 10% das 700 mil toneladas [produzidas pelo Brasil]”, disse. “E vai para tudo que é lugar.” O vídeo do encontro foi obtido pelo Joio junto ao Mapa via Lei de Acesso à Informação (LAI).
A reportagem apurou que não há planos para a adoção de novas regras que controlem a cadeia de venda da folha pelo governo federal, apesar de elas estarem previstas no protocolo de combate ao mercado ilícito da OMS.

