Fotos: Julia Dolce e João Ambrósio

Vendendo o paraíso: empreendimentos de luxo cometem crimes ambientais e expulsam a população nativa de Porto Seguro

, de Porto Seguro (BA)

No destino conhecido por ser retiro de bilionários, imobiliárias constroem condomínios, hotéis e casas de veraneio de alto padrão em territórios que deveriam ser preservados

Desde pequeno, João Benedito Casimiro, hoje com 57 anos, fugia de casa, no centro de Arraial d’Ajuda, distrito do município baiano de Porto Seguro, e descia a ladeira em direção à Praia dos Pescadores. 

Mas ninguém se preocupava, o território era seguro. Seus pais se conheceram naquela mesma praia. “Acho que fui feito dentro de uma canoa”, brinca. 

Seu pai era um dos pescadores que davam nome à praia, então paradisíaca. Mesmo enjoando em alto-mar, por incontáveis vezes João o acompanhou na pescaria, acreditando que um dia também seria pescador. 

“As pessoas falavam: esse menino vai acabar morando na praia. Nunca vi menino pra gostar de praia igual esse aí”. A profecia se realizou. João construiu um quiosque na praia em que cresceu, onde vive e vende seus pescados.

Hoje ele é conhecido por ser o último pescador do Arraial que ainda vive próximo ao mar. 

A população nativa da sede e dos distritos de Porto Seguro, marco zero da colonização brasileira, tem perdido espaço para a especulação imobiliária voltada ao veraneio de luxo.

A partir dos anos 1980, a cidade foi se tornando um dos principais destinos do turismo de massa no Brasil. O município ocupa o terceiro lugar no ranking de quantidade de leitos hoteleiros do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro.

O avanço do turismo não veio sem consequências para a população local. Dos nativos do Arraial, poucos conseguem pagar os atuais custos dos imóveis à beira-mar. “Os moradores estão sufocados, com a corda no pescoço, tudo caro”, afirma  João Pescador, como é chamado pelos moradores.

A casa em que ele mora é conhecida como Kiosk do João Pescador. É uma cabana de madeira decorada com o lixo que João retira do mar. O espaço tem um deck, algumas mesas e uma faixa de areia cercada por uma corda de náilon, que ele mesmo colocou. “É para as tartarugas desovarem”, explica.

Mas ele teme que seus dias na Praia dos Pescadores estejam contados. João relata estar sofrendo pressão e ameaças para deixar o local.

Em entrevista ao Joio, ele atribuiu parte dessa pressão ao ex-prefeito de Porto Seguro, Gilberto Abade (2009 a 2012, pelo PSB). Abade teria oferecido R$ 30.000 para que o pescador deixasse o quiosque.

A informação está no inquérito policial para investigar um episódio de furto ao quiosque, objeto de um boletim de ocorrência aberto pelo pescador em 2023. No curso da investigação, João disse à polícia que acreditava que Abade poderia estar por trás do episódio.

No inquérito, que foi arquivado por falta de provas, consta que o ex-prefeito negou qualquer relação com o caso do furto. A reportagem teve acesso ao documento, no qual Abade informou que teria oferecido a quantia a João para “indenizá-lo”, uma vez que sua casa estaria sobre a praia, área pública, e que, portanto, “seria demolida”.

A orla de Porto Seguro, no entanto, é repleta de empreendimentos de luxo irregulares que avançam sobre as praias, como o Joio contou nesta outra reportagem.

A reportagem consultou a defesa do ex-prefeito sobre o uso do termo “indenização” e  questionou qual seria a relação entre ele e uma possível demolição do quiosque.

O advogado de Abade afirmou que o termo poderia significar uma “proposta de aquisição do direito de João” ou uma “suposta tentativa de negociação entre dois particulares”. 

O suposto interesse imobiliário de Abade em relação a João tem contexto. O ex-prefeito não é exatamente uma figura neutra em relação à presença do pescador na praia. 

Seus filhos são empresários do setor imobiliário e do ramo hoteleiro. Atualmente, são proprietários de um terreno vizinho ao quiosque de João, o Coqueiral, que no último 21 de novembro foi alugado para a realização de uma grande festa, com direito a shows e piscina. 

Até o ano passado, a família de Abade também era proprietária do Sítio Pasárgada, terreno vizinho ao Coqueiral, imediatamente atrás do quiosque de João. 

Em nota enviada à reportagem, a defesa de Abade negou o interesse da família na área ocupada por João, bem como a participação em qualquer tipo de pressão ou envolvimento em ameaças contra o pescador. 

Mas João relata que não dorme mais sossegado: “é um olho fechado e outro aberto. Todo mundo quer morar no paraíso, querem saber só do dinheiro”.

Hoje, porém, ele tem peixes maiores para se preocupar. 

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A financeirização de Porto Seguro 

Ao longo do tempo, o tipo de turismo de Porto Seguro foi se transformando.  Desde os anos 2000 seus hotéis e pousadas têm, aos poucos, dado lugar à condomínios de casas de veraneio de luxo. A corrida imobiliária pela vista ao mar no município tem entre seus participantes alguns dos maiores empresários e das mais famosas celebridades do país.

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O Joio visitou o município para investigar os impactos da pressão imobiliária sobre o meio ambiente e os povos nativos.

No caminho de empreendimentos milionários, a população local tem sido sufocada, “empurrada para as periferias”, avalia o advogado e ambientalista Vinicius Parracho, ex-vereador de Porto Seguro.

Ele explica que o mercado imobiliário na cidade está cada vez mais financeirizado, e que hoje é difícil ver pequenas pousadas abrindo.  

“Ficou muito mais barato abrir um condomínio, vender casas para outras empresas e fundos de investimento e botar tudo no Airbnb. Aqui tem bairros inteiros onde praticamente não mora ninguém”, revela.

Segundo Parracho, esse cenário tem intensificado a gentrificação da região. “Essa é uma tendência: toda a faixa litorânea muito valorizada e, nos fundos, as periferias”.

Gabriel Ribeiro Pataxó conhece bem essa geografia. Também descendente de pescadores do Arraial d’Ajuda, ele conta que a sua família costumava viver no centro histórico do distrito, mas acabou pressionada a vender seus terrenos. 

Hoje, ele mora no Alto do Vilas, um bairro periférico sem saneamento básico. 

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Gabriel Ribeiro Pataxó no bairro Alto do Vilas, na periferia de Arraial d’Ajuda. Foto: Julia Dolce

“É triste saber que se minha família ainda estivesse no local onde se criou a gente não estaria tão fragilizado”, relata.

Gabriel avalia que a maior parte dos terrenos dos nativos do Arraial foi vendida a empresários a “preço de banana”. 

“As pessoas que têm esse pensamento capitalista, que já sabem como empreender, como colonizar, acabam iludindo a gente. Chegam dizendo que têm uma proposta massa, que dá pra comprar um terreno mais distante, mas hoje uma casa aqui no centro vale milhões”, afirma.

Essas vendas, com frequência, não ocorrem em comum acordo. 

Para Gabriel, os casos de assédio imobiliário se somam a outros de violência, ambos como consequência da especulação desmedida, principalmente quando envolvem os povos indígenas. 

Essa ganância imobiliária, porém, depende de outro ator importante: o poder público municipal. 

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Corrupção e grilagem de terras

Porto Seguro coleciona conflitos fundiários negligenciados pelo poder público. Um dos maiores e mais recentes escândalos imobiliários do município foi a descoberta chamada “Liga da Justiça”, um esquema de grilagem de terras, corrupção, fraude processual e agiotagem envolvendo servidores públicos.

Em 2024, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Corregedoria-Geral da Justiça do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) passaram a investigar o esquema, que envolvia empresários e um advogado, além de Wallace Carvalho, então promotor ambiental do Ministério Público da Bahia (MP-BA), e juízes como Fernando Machado Paropat, então titular da 1ª Vara Cível da comarca de Porto Seguro.

A investigação mostrou que o grupo realizava sobreposições de matrículas de imóveis em regiões valorizadas de Porto Seguro e que registrou 101 delas em seus próprios nomes. 

O epicentro do caso envolve o condomínio de luxo Arraial Costa Verde, que teve investimento dos envolvidos e cujos lotes foram divididos entre eles. Embora os magistrados e o promotor sigam afastados, a obra e as vendas de lotes do condomínio não pararam, conforme comprovado pelo Joio em visita ao local. 

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Para o ex-vereador Vinicius Parracho, o fato mostra a impunidade dos empresários envolvidos. “Estão todos na rua, [o caso] não foi pra lugar nenhum”, opina.

Parracho acredita que o caso exemplifica um conflito de interesses na atuação de magistrados que se tornam empresários do mercado imobiliário, algo vedado pelo código de ética da profissão.

“Em algum momento isso vai virar conflito de interesse, porque esse é o principal problema da cidade, e eles fazem parte do problema”, avalia.

O juiz afastado Fernando Paropat, por exemplo, tem uma série de decisões que ilustram esse conflito de interesses. A reportagem não encontrou o contato da defesa do Paropat. Em posicionamento enviado à Rede Globo, a defesa alegou que as notícias sobre o caso têm informações prematuras e inverídicas, que os fatos denunciados nunca foram praticados por Paropat e que repudia ilações indevidas e levianas a partir das apurações em curso. O espaço segue aberto para a manifestação do juiz.

Conforme levantamento da Teia dos Povos, entre 2019 e 2021 o magistrado determinou a remoção de cerca de 800 famílias de pelo menos três ocupações urbanas e um pré-assentamento em Porto Seguro.

Já em 2022, Paropat emitiu um mandado de reintegração de posse contra 300 famílias do Movimento Único da Agricultura Familiar que ocupavam a Fazenda Tabatinga, pertencente a Moacyr Costa Pereira Andrade, também em Porto Seguro. 

Andrade é empresário do ramo imobiliário e pecuarista, além de ex-cônsul honorário de Portugal – função simbólica que não está relacionada à carreira diplomática oficial. Seu nome se repetiu em diversas entrevistas feitas pela reportagem. Ele é figura carimbada em denúncias de grilagem de terras em Porto Seguro. 

O guia turístico e graduando em história André de Souza Morais foi um dos entrevistados que destacou o nome do pecuarista. A casa onde ele nasceu, no centro histórico da sede de Porto Seguro, é hoje parte do conglomerado imobiliário de Moacyr. Hoje, André vive no bairro do Cambolo, afastado do centro e da orla. 

“Na década de 1970 algumas poucas famílias, incluindo a de Moacyr, eram donas da maior parte das terras de Porto Seguro. Só aqui no centrinho histórico ele tem hoje umas sete casas”, expõe André. 

O Joio encontrou 23 inscrições imobiliárias apenas no CNPJ Itaquena S/A, uma das nove empresas em nome de Moacyr. 

Além de investigado como um dos beneficiados pelo esquema da Liga da Justiça, Moacyr tem conflitos com o povo pataxó do território Lagoa Doce, que ele alega fazer parte da Fazenda Itaquena, onde cria búfalos. 

Em 2023, a fazenda foi indicada para leilão pela Justiça Federal, em um processo de execução de multas ambientais contra o empresário. Ele foi autuado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em  R$ 15.280.000. Nos autos que autorizam o leilão, a presença da população pataxó é ignorada: consta que o território está “totalmente desocupado”.

O Joio não conseguiu contato com Fernando Paropat, e não obteve resposta de Moacyr Andrade. O espaço para posicionamentos segue aberto. 

Um prefeito corretor

Para o arquiteto Moah Torres, conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia e nativo de Porto Seguro, a questão fundiária do município é um assunto espinhoso.

“As terras foram repartidas, parte invadida, e existe uma grande sobreposição de matrículas. Com o tempo, os políticos, alguns deles grandes latifundiários, foram identificando o potencial do fluxo turístico para a região”, explica. 

Com isso, esses políticos passaram a vender ou doar terra pública para empresários.

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Notícia revela grilagem de terras antiga em Porto Seguro – O Globo, 07 de novembro de 1986. Crédito: Reprodução / O Globo

Um fenômeno fundiário relevante em Porto Seguro é a permuta de terrenos entre esses empresários e a prefeitura. O ex-vereador Vinicius Parracho destaca essa como uma das práticas mais suspeitas que vivenciou no Legislativo. 

“De repente passa na Câmara uma aprovação de permuta em que se troca uma área que vale muito, e que era do município, por uma área que não vale praticamente nada. A Prefeitura justifica que é pra fazer uma escola lá em um povoado, mas trocam por um terreno numa área nobre que vale milhões”, narra.

Segundo Parracho, essas demandas eram comuns nas sessões ordinárias da Câmara, e costumavam ser aprovadas. Durante seu mandato, o advogado representava uma oposição minoritária ao governo municipal. 

Atualmente, Porto Seguro é o único município baiano governado pelo PL, partido do ex-presidente preso Jair Bolsonaro. O atual prefeito, Jânio Natal, é um expoente da extrema direita. 

Em 2022, Bolsonaro recebeu de Natal a medalha 22 de Abril, que homenageia personalidades que prestaram serviços relevantes a Porto Seguro. O nome da medalha faz referência à data na qual os portugueses aportaram em Porto Seguro, 22 de abril de 1500.

Jânio Natal já foi vereador de Salvador, prefeito de Belmonte, município do sul baiano, além de deputado estadual por três mandatos e deputado federal pela Bahia. Atualmente, cumpre seu terceiro mandato como prefeito de Porto Seguro.

Em sua biografia na Câmara dos Deputados, ele se apresentou como administrador e corretor. Apesar de hoje não se declarar sócio de imobiliárias, sua declaração de bens de 2015, quando foi eleito deputado estadual, revelava a participação no capital social da empresa AEGL Empreendimentos Imobiliários, com sede no bairro do Mundaí, em Porto Seguro. 

O prefeito já foi alvo de um inquérito do Ministério Público Federal (MPF), que investigou a construção da mansão onde vive em uma Área de Preservação Permanente (APP) também no bairro do Mundaí, além de ter sido investigado por desvio de verbas públicas em seu primeiro mandato como prefeito de Porto Seguro.

Já seu filho, Jânio Natal Andrade Borges Júnior, atual secretário de meio ambiente de Porto Seguro e pré-candidato a deputado estadual da Bahia, divide a sociedade da empresa Itacimirim Patrimonial Ltda com a irmã Jamile Chiachio Ferraz Borges, empresária do ramo imobiliário.

Além de proprietária do Villas D’Or Gestão de Propriedades Ltda, ela integra o quadro societário da G4 Empreendimentos com outros empresários do setor. 

Para coroar o envolvimento com o ramo, o vice de Jânio, Paulo Cesar Onishi, conhecido como Paulinho Toa Toa, também é empresário do setor imobiliário de turismo. Ele é proprietário de uma das maiores barracas de praia do município, a Toa Toa.

A relação íntima entre o poder público de Porto Seguro e o setor imobiliário dificulta a atuação de ambientalistas como Parracho. Ele revela que a maior parte de suas denúncias ou pedidos de informação como vereador não eram respondidos.

“Para atuar como vereador ambientalista numa cidade dominada pelo capital especulativo imobiliário, você precisa fazer frente a inúmeros interesses. O que mais me incomodou é a inoperância de todos os órgãos, todos eles muito coniventes com essa dinâmica social que acontece aqui”, denuncia.

Uma das principais interlocuções de Vinicius para denúncias, por exemplo, era justamente o promotor Wallace Carvalho, afastado pela investigação da Liga da Justiça no último ano do mandato de Vinicius.

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O Beach Club irregular dos Vorcaro

Mais recentemente, um dos maiores escândalos financeiros no país também desaguou nas praias cristalinas de Porto Seguro: as investigações da fraude bilionária no Banco Master. 

Novos indícios apontam para a participação da Prefeitura de Porto Seguro em uma série de irregularidades nas propriedades do banco no município. 

O caso envolve um terreno de 40 mil metros quadrados, com casa principal, cinco bangalôs, além de academia, piscinas e obras de arte: é a casa de veraneio do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em Trancoso, distrito de Porto Seguro. 

Em dezembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Master após a operação Compliance Zero, da Polícia Federal, investigar suas graves fraudes financeiras. 

O terreno, avaliado em R$ 300 milhões, se chama Villa 21. A mansão passou a integrar a lista de possíveis imóveis que estão sendo confiscados para pagamento da dívida bilionária do Banco Master.

O imóvel, porém, não é o único nas mãos de Vorcaro em Porto Seguro. 

A empresa Milo Investimentos S.A, de propriedade do pai e da irmã de Daniel, Henrique Moura Vorcaro e Natalia Bueno Vorcaro Zettel, que são sócios do banqueiro na holding Pacific Realty S.A, construiu um empreendimento irregular em Arraial d’Ajuda, O Erê Beach Club.

O esquema, denunciado em vídeos nas redes sociais pelo bacharel em direito e ambientalista Tadeu Prosdocimi, que vive há 20 anos no distrito, teve envolvimento direto da Prefeitura de Porto Seguro em uma série de ilegalidades. 

O caso também foi denunciado por reportagem publicada pela Agência Pública

A Prefeitura emitiu uma licença de reforma para o terreno, mas a área tinha anos de dívida de IPTU. Além disso, a obra em questão não era uma reforma, e sim uma construção. E o engenheiro responsável pela obra nem sequer havia se formado à época. 

Para completar, a gestão de Jânio Natal também realizou, com as máquinas da Prefeitura, uma remoção ilegal da restinga no terreno, sem as licenças ambientais necessárias. 

Um outro crime que o ambientalista atribui ao Poder Executivo de Porto Seguro é o de omissão. Isso porque, em novembro de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já havia solicitado o embargo da obra à Prefeitura.

A denúncia do Iphan, assim como a do ambientalista, foi ignorada. 

Em 21 de janeiro de 2026, o Iphan acabou lavrando um auto de infração contra a propriedade, e embargou a obra.

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Placa de embargo do Iphan no terreno da Milo Investimentos S.A. Crédito: Tadeu Prosdocimi

Tadeu Prosdocimi denunciou os crimes ambientais e de improbidade administrativa a diversos órgãos públicos municipais, estaduais e federais, mas ainda aguarda responsabilização dos envolvidos. 

Enquanto isso, a obra seguiu a todo o vapor, e O Erê Beach Club  foi inaugurado no dia 8 de fevereiro, pré-carnaval, com uma festança. 

Procurado pela reportagem, Genaro Campos, que alega ser locatário do terreno dos Vorcaro e é sócio-administrador do empreendimento, afirmou que o embargo para a obra seria “uma coisa”, mas que ele teria o alvará de funcionamento emitido pela Prefeitura. Os Vorcaro não responderam à reportagem.

A licença, enviada por Genaro à reportagem, foi emitida no dia 29 de dezembro de 2025, após as ordens de embargo do Iphan. 

Para Prosdocimi, o caso mostra como o poder público municipal favorece o setor imobiliário. “É um modus operandi”, denuncia. 

Ele questiona qual seria o interesse da prefeitura em beneficiar um empreendimento que deveria integrar a lista de bens sequestrados dos Vorcaro. “É isso que deveriam investigar”. 

Terra à vista: de tombamento a campo de golfe

A atuação do Iphan no caso do terreno da Milo Investimentos revela outra camada de irregularidades imobiliárias em Porto Seguro: o fato de praticamente toda a costa do município, seu chamado frontispício, ser tombado. 

O patrimônio leva em conta o primeiro avistamento do território pela esquadra de Cabral. A ideia é mantê-lo relativamente intacto em relação à descrição paisagística do primeiro documento da colonização, a carta do escrivão Pero Vaz de Caminha. 

Com isso, todas as obras realizadas dentro da área tombada precisam de autorização do Iphan. No entanto, a sede do órgão em Porto Seguro, que também atua nos municípios vizinhos, funciona, atualmente, com apenas seis técnicos.

Enquanto muitos empreendimentos passam ao largo das investigações do enxuto corpo técnico do órgão, uma construção chama a atenção por ter sido alvo de fiscalização a pedido de um inquérito civil aberto pelo MPF: o Kiosk do João Pescador.  

Em 2024, João foi denunciado ao MPF por uma consultora ambiental do Rio de Janeiro por “cercamento irregular da praia”.

Após visitas in loco no quiosque de João, o MPF chegou a autuá-lo, exigindo a retirada da corda que, segundo ele informou à reportagem, foi colocada para proteger a desova da vida marinha.

O inquérito foi arquivado após servidores do Iphan visitarem o local e constatarem “ausência de dano ambiental e paisagístico”.

Para Tadeu, a desproporcionalidade dos casos impressiona. “É absurdo [o poder público] ir em cima de uma pessoa como ele e ignorar uma ocupação como a de Vorcaro”, opina. 

A preservação da visão da caravela de Cabral não é a única função do Iphan em Porto Seguro. O órgão federal também atua na proteção de artefatos indígenas milenares encontrados em diversos sítios arqueológicos no município.

Um dos principais deles, porém, foi transformado no badalado campo de golfe do complexo Terravista, um dos primeiros empreendimentos imobiliários construídos em Trancoso.

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Campo de golfe do complexo Terravista na beira da falésia em Trancoso. Crédito: Reprodução

existem hoje dois condomínios, o Terravista Villas e o Terravista Golf, além do hotel Club Med, do Teatro L’Occitane e de um aeroporto privado que anualmente enfrenta congestionamento de jatinhos na época do réveillon. 

O logo do empreendimento é uma caravela. 

O Terravista Golf Course é considerado um dos melhores campos do Brasil, e um dos mais bonitos do mundo. Ele ocupa uma área equivalente a 70 hectares, parte dela construída na beira das falésias próximas ao rio da Barra, em Trancoso.

Os buracos 10 e 18 do campo ficam tão rentes à beira da falésia que é comum ver caddies, os auxiliares de campos de golfe, descendo para a praia em busca de bolinhas perdidas.

Naquele ponto, a paisagem avistada foi definitivamente mudada. 

Durante as construções do campo, a partir dos anos 2000, foram retiradas do solo 116.963 peças das civilizações Aratu e Tupiguarani, em uma pesquisa arqueológica que durou dois anos. Segundo o Iphan, todas as etapas da pesquisa arqueológica foram concluídas antes do início das obras.

As peças foram inicialmente expostas dentro do próprio Terravista. Somente em julho de 2025 algumas poucas peças foram disponibilizadas ao público, quando foi inaugurado, no centro histórico da sede do município, o Museu de Arqueologia do Porto Seguro, com apoio do complexo Terravista. 

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Mas os patrimônios retirados para a construção do complexo Terravista não se resumem aos artefatos arqueológicos. Ainda que supostamente protegida, a vegetação nativa da falésia em questão, a mussununga, foi substituída pela grama cuidadosamente manejada do campo de golfe.

As vegetações nativas são importantes para manter a estrutura geológica das falésias, impedindo erosões. Por esse motivo, essas formações naturais de relevo costumam ser APPs. 

O Código Florestal vigente quando o Terravista foi construído (Lei nº 4.771/1965), por exemplo, considerava APPs os 100 metros anteriores às bordas de tabuleiros ou chapadas, bem como as restingas. 

Entretanto, essa legislação não era a única que protegia o território. 

Em 1974, o Plano de Desenvolvimento Urbano de Porto Seguro/Cabrália determinou que uma área de mais de 4 mil hectares entre Arraial D’Ajuda e o rio da Barra, incluindo as falésias onde hoje fica o Terravista, seriam parte de uma unidade de conservação, o Parque Balneário e Reserva Ecológica Barreiras Vermelhas. 

No ano seguinte, o decreto que instituiu o Programa Estadual de Proteção a Natureza (Pronatur) na Bahia destinou a área ao parque, considerando de utilidade pública para fins de desapropriação os terrenos particulares dentro da área, e reservadas as áreas públicas.

Hoje, o Barreiras Vermelhas ficou para a história. Quase não se encontram registros sobre ele, e os moradores de Porto Seguro relatam apenas burburinhos sobre o complexo Terravista ter sido construído em terras públicas destinadas à proteção. 

O Joio procurou a Prefeitura de Porto Seguro e o Terravista para procurar mais informações sobre o histórico da unidade de conservação, mas não obteve resposta. 

O retiro dos bilionários

A história da construção do Terravista se mistura com as origens da gentrificação em Trancoso, que já há algumas décadas é conhecido como retiro dos ricaços.

O fundador do complexo, Carlos Eduardo Régis Bittencourt, é praticamente uma figura mítica no distrito. Endeusado em reportagens de veículos corporativos que o apelidam como “dono de Trancoso”, Calé foi considerado um visionário. 

Herdeiro da família que dá nome ao trecho da rodovia BR 116, que liga São Paulo a Curitiba, ele conheceu a região em 1975, em uma suposta viagem hippie em um Fusca, com amigos endinheirados. À época, Calé atuava como executivo da Editora Abril. 

O causo é narrado no livro Nativos e Biribandos: Memória de Trancoso, que romantiza essa etapa da neocolonização de Trancoso. O termo “biribando”, que descreve Calé e os amigos, é uma gíria local para forasteiros em quem não se podia confiar. 

O livro defende que os biribandos teriam abdicado temporariamente do conforto material para viverem uma aventura com os nativos. 

O “temporário” aqui é chave. 

Hoje, o empresário nega que fazia parte do movimento paz e amor, e afirma que chegou a Trancoso com o radar imobiliário ligado para a compra de terrenos. 

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ele descreveu sua reação ao ver a vista do largo da Igreja de São João Batista. “Fiquei extasiado”. E pensou: “Cheguei. É aqui”. 

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Ricardo Salém e Calé em Trancoso, Crédito: Reprodução do livro “Nativos e Biribandos: Memórias de Trancoso”

E foi ali. Nas décadas seguintes, Calé construiu um império imobiliário, comprando terras inclusive do ex-cônsul honorário de Portugal, Moacyr Andrade. 

Ele acabou se elegendo vereador por Porto Seguro (1993-1996), durante o terceiro mandato do governo de Antônio Carlos Magalhães, com quem afirmou, na mesma entrevista, ter estabelecido “ótimas relações”. 

Na época, já tinha comprado de nativos boa parte dos terrenos de Trancoso, e era conhecido no local como “barão”. 

“Começou a sentir um comichão: não dava mais pra levar a vida daquele jeito… E um outro lado do Calé empreendedor foi vindo à tona. (…) Foi ganhando dinheiro, enricando e comprando outros terrenos, os melhores da costa”, narra o livro de memórias.

Compra talvez seja uma palavra forte para descrever a ocupação em Trancoso a partir dos anos 1980. No livro e nas falas dos nativos do distrito, corre à boca miúda relatos de terrenos que foram trocados por objetos, como lembra o ex-vereador Vinicius Parracho.

“Os primeiros grupos que chegaram já entenderam a questão da valorização imobiliária e trocaram ou compraram por valores irrisórios as terras dos locais. Iam nos pescadores e trocavam terreno por chapa de fogão, geladeira, moto”, afirma.

Hoje, o patrimônio de Calé se perde de vista, ainda que muitos de seus terrenos já tenham sido vendidos para outros empresários. 

São pelo menos 26 empresas diretamente em seu nome, a maior parte delas do setor imobiliário. Seus principais sócios, desde o início, foram os amigos biribandos Mario Cirri e Ricardo Salém.

E o negócio segue na família. Seu filho, Gabriel Régis Bittencourt, conhecido como “Gabu”, é sócio do pai em algumas imobiliárias, e já foi locatário do restaurante Tartarugas, parte do complexo Terravista, que fica na praia abaixo da falésia. 

Para os clientes acessarem o restaurante, há um elevador por dentro da falésia. O site do restaurante indica que sua localização é em uma praia “exclusiva”, de “difícil acesso ao público em geral”. 

Já a área cuja vista deu a Calé a certeza de que ele precisava para aportar em Trancoso se tornou um dos maiores cases de gentrificação do país. 

Hoje, o chamado “Quadrado”, perímetro retangular que contorna um campinho de futebol e desemboca na igreja São João Batista, formado pelas casinhas de pau-a-pique dos nativos – também tombadas pelo Iphan – reúne Airbnbs, sedes de imobiliárias, além de lojas e restaurantes de luxo. 

Aliás, o Quadrado tem um dos metros quadrados mais caros do país. Lá, a pressão imobiliária ficou difícil de contornar, e há poucos nativos remanescentes. Muitos venderam ou arrendaram seus terrenos.

Nos terrenos pé na areia de Trancoso também é difícil encontrar nativos. Uma exceção é uma área de um hectare onde os pescadores de Trancoso guardam, há mais de um século, seus barcos e realizam celebrações. 

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Mas a permanência na área não foi fácil. É resultado de uma conquista da Associação dos Pescadores de Trancoso Garimpeiro do Mar na Justiça contra um grupo de empresários que alegava a propriedade do terreno. 

O presidente da associação, Robson Alves, conta que os empresários já tentaram fechar a área algumas vezes.

“Essa área aqui é testemunha de um conflito de muitos anos. Nós estamos resistindo com muita batalha contra os milionários”, resume.

Mais do que construir, pertencer

Na atual etapa de financeirização imobiliária de Porto Seguro, fica difícil até saber contra quem se está lutando. “Muita gente está investindo no mercado imobiliário daqui, sem nem pisar aqui”, afirma Vinicius Parracho. 

O modelo operado nos corredores da Faria Lima, porém, tem uma contrapartida: os empreendimentos têm representantes responsáveis pela boa vizinhança com a população local, patrocinando eventos e festas locais.

“Mas no final das contas, o controle do capital está fora e vem passando o trator por cima”, resume o ex-vereador.

Um caso emblemático e mais recente desse modus operandi em Trancoso é o da imobiliária Nampur. Ela anuncia, em seu site, que “mais do que construir”, quer “pertencer”. 

A imobiliária declara apoio a associações de moradores, e publica homenagens audiovisuais à população nativa. 

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Site da Nampur homenageia nativos de Trancoso. Crédito: Reprodução

Seus empreendimentos em Trancoso e Arraial d’Ajuda, condomínios e casas de luxo, são listados na B3, bolsa de valores brasileira. Em um material publicitário, eles anunciam já terem obtido R$1 bilhão em Valor Geral de Vendas, estimativa imobiliária de potencial de receita. 

No material, ao descreverem o “mercado de luxo” de Trancoso, listam: um histórico de valorização acima da média; ofertas limitadas por questões ambientais e regulatórias; fácil acesso ao aeroporto privado do Terravista – onde eles também têm terrenos.

Por fim, pontuam que o público-alvo é formado por compradores de oportunidade, “não de necessidade”. 

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Apesar de se projetar como sustentável, a Nampur também foi multada pelo Iphan. Seu condomínio Villa Brisas, em Trancoso, foi autuado e embargado em agosto de 2025 por intervenções irregulares em uma área tombada pelo órgão.

A fiscalização do Iphan denunciou que a obra não possuía licenciamento ambiental, mas, ainda assim, realizou um desmatamento “massivo de vegetação nativa”. 

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Em 23 de janeiro de 2026, o proprietário da imobiliária, Victor Meireles Bertaço de Souza, firmou um termo de compromisso de reparação dos danos causados.

Para completar, os terrenos da Nampur, alguns com índice de ocupação consideravelmente acima do permitido pelo Plano Diretor do município, como denuncia o ambientalista Tadeu Prosdocimi, também estão sobre sítios arqueológicos.

Pelo menos um deles, com concentração de cerâmica indígena, está  no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Iphan. Ele fica no empreendimento A Mata e já foi parcialmente destruído pela construção de imóveis.

Procurada, a Nampur não respondeu à reportagem. 

Airbnbs em Terra Indígena

O avanço imobiliário em Porto Seguro não impacta apenas vestígios de povos indígenas do passado, mas também a vida indígena no presente. 

Um caso se destaca: a aldeia Xandó, parte da Terra Indígena (TI) Barra Velha, homologada em 1991. Como todas as TIs demarcadas, dentro dela é completamente vetada a exploração econômica por não indígenas. 

A realidade é outra. 

Pelo menos desde 2014, não indígenas têm se mudado para a aldeia. O fenômeno veio no rastro da popularização da vila de Caraíva, distrito mais distante de Porto Seguro, e último a cair nas graças dos turistas.

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A partir da pandemia de covid-19, em 2020, esse cenário se agravou com a construção de empreendimentos turísticos na aldeia. Com a popularização do home office, muitos “nômades digitais” se mudaram temporariamente para o local. 

Um levantamento realizado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) contabilizou que, entre 2018 e 2022, os moradores não indígenas na Xandó saltaram de 100 para 404. Já o número de imóveis cresceu de 135 para 669. 

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A maior parte desses imóveis é arrendada de indígenas pataxó favoráveis à atividade. A prática, entretanto, também é proibida. 

Desde 2022, o MPF investiga o caso por meio de uma Ação Civil Pública que pede que a Funai tome as medidas necessárias para remover os ocupantes irregulares. Até hoje, porém, a desintrusão não foi realizada. 

No processo, a Funai já alegou ter responsabilidade compartilhada pelo caso, além de uma série de limitações orçamentárias e de pessoal. O Joio procurou o órgão, mas não obteve resposta.

Em 11 de novembro de 2025, uma reportagem da Folha de S. Paulo contabilizou mais de 60 acomodações dentro da Xandó disponíveis para locação por temporada nas plataformas Airbnb e Booking. 

Três meses depois da publicação, o Joio confirmou que cerca de 60 acomodações seguem registradas dentro da TI Barra Velha no Airbnb. O mapa disponibilizado pela plataforma chega a apresentar o polígono demarcado do território.

“Tem pessoas que nem sabem que estão dentro de um território indígena”, afirma Janice Cardoso, pataxó nativa de Caraíva e moradora da Xandó. 

Consultado, o Airbnb informou que não é proprietário das acomodações anunciadas, que cumpre toda a legislação relativa aos serviços que oferece e que, até o momento, a empresa não foi oficialmente comunicada sobre a existência de irregularidades. 

Já o Booking respondeu que os provedores de acomodação que anunciam na plataforma devem confirmar que têm permissão legal para alugar suas acomodações e que estão em total conformidade com todas as leis aplicáveis.

Além de território Indígena, a TI Barra Velha compõe o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, unidade de conservação criada em 1961. A vila de Caraíva também faz parte do parque. 

Já a praia, que margeia tanto a vila quanto a TI, é sobreposta ainda a uma Reserva Extrativista Marinha, uma conquista dos pescadores de Caraíva que alcança 20 quilômetros mar adentro.

Mas nenhuma das três garantias do caráter público do território são respeitadas.

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“A grilagem está correndo solta, muita gente branca com construções terríveis”, afirma Zé Marreco, pescador e pai de Janice.

Ele é um dos últimos nativos de Caraíva que ainda vivem na vila. “Existem essas regalias para quem tem dinheiro. A prefeitura é muito omissa aqui dentro”, completa. 

Atualmente, há um movimento de empresários locais para retirar Caraíva do Parque Nacional. “Uma das pessoas que mais trouxe a especulação para cá foi pedir que se tirasse a vila de dentro do parque, porque precisa do título de terra para pegar um empréstimo”, conta Zé. 

Ele narra que também é alvo dessa pressão imobiliária. O pescador recusa ofertas de compra de sua pequena casa, localizada atrás da igrejinha de São Sebastião, no centro da vila, datada de 1530, uma das mais antigas do país.

Enquanto diferentes esferas de poder se omitem, os nativos de Caraíva também sofrem outras consequências por viverem em um paraíso turístico. Uma das mais graves está relacionada às festas que tomam conta da vila. 

Com patrocínios de grandes empresas, que levam músicos e DJs consagrados para as areias brancas de Caraíva, os eventos têm ingressos que se equiparam ao valor do salário mínimo. “Não são feitas para a gente acessar, só se for trabalhando para eles”, afirma Janice. 

Há décadas, Porto Seguro é a principal capital do país para o turismo de festas – por lá passam desde os formandos de “terceirões” de todo o país, até os endinheirados que viram o ano nas raves de luxo da praia do Taípe, entre Arraial d’Ajuda e Trancoso. 

Em Caraíva, porém, as drogas que abastecem essas festas financiam um crime organizado que também tem dominado a aldeia Xandó. Atualmente, o Comando Vermelho chefia o tráfico na aldeia, e a violência atinge níveis alarmantes, como também contado pelo Joio

Para Janice, entre os diferentes impactos do turismo e veraneio de luxo nos distritos de Porto Seguro, há uma perda importante que retrata a gentrificação.

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Janice Cardoso Pataxó e o pai, Zé Marreco, em frente a casa onde ele vive, na vila de Caraíva. Foto: Julia Dolce

“Não tem mais comunidade. Os nativos mais velhos dizem que não têm mais amigos para visitar, conversar. Manter a casa aberta fazia parte da nossa forma tradicional de viver, do bem viver”, conta. A casa de seu pai ainda é uma rara exceção. 

Enquanto ela lamenta as mudanças intangíveis, o som de um turista digitando a senha na fechadura eletrônica de um Airbnb vizinho toma o ambiente.  

A Prefeitura de Porto Seguro e o prefeito Jânio Natal foram consultados sobre todas as denúncias apresentadas na reportagem, mas não responderam até a publicação.

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