Conab retomou compras de mantimentos focada no milho e no arroz, mas seus armazéns contêm hoje cerca de um décimo da quantidade dos grãos que tinham há 30 anos

Sob o comando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governo federal retomou, em 2023, as compras de alimentos para composição de estoques públicos. Na época, já havia seis anos que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) não adquiria mantimentos. A retomada das compras foi, então, anunciada com celebração em evento público. Representava, afinal, o cumprimento de uma promessa eleitoral do próprio Lula e a ratificação de um compromisso público de seu governo com o barateamento da comida em busca da erradicação da fome no país.
De lá para cá, entretanto, a situação dos estoques pouco mudou. Hoje, eles armazenam uma fração do que costumavam guardar décadas atrás. Por questões orçamentárias, operacionais e até políticas, o governo teve e ainda tem dificuldade de refazer o “colchão de segurança” que construiu ao longo de diferentes gestões para garantir suprimentos e amenizar flutuações de preços da comida. Sem ele, deixa a população – principalmente, os pobres – à mercê dos choques inflacionários de itens básicos, e os agricultores – especialmente os pequenos – à mercê do sobe-e-desce do mercado agrícola.
“Houve um investimento. Mas, apesar dos esforços, não houve o resultado do tamanho que a gente esperava e cobrava”, resumiu Vânia Marques Pinto, presidenta da Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag).
Em entrevista ao Joio, Vânia lembrou que as compras públicas de alimentos para estoques foram retomadas com o milho. Ainda em junho de 2023, na cerimônia sobre a retomada da política pública de estocagem, a Conab anunciou o investimento de R$ 350 milhões para compra de até 8,3 milhões de sacas do cereal.
Naquele mês, a companhia tinha em seus armazéns 47,1 mil toneladas do grão. Encerrou 2023 com 350 mil toneladas armazenadas – um aumento de quase 650%.
Com mais estoque disponível e graças a uma queda no preço do milho no mercado internacional, o preço do grão subiu só 1,54% em 2023. No ano, segundo dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação geral no país ficou em 4,62% – o triplo do aumento do cereal.
A alta bem mais moderada do milho inverteu uma tendência observada desde 2020. Daquele ano até 2022, o milho subiu sempre mais de 10% por período, chegando a aumentar 35,2% em 2022, último ano do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Naquele intervalo de tempo, enquanto a alta se acelerava, a Conab se desfazia de seus estoques. Em 2020, a companhia tinha 129 mil toneladas do grão em seus armazéns. Já em 2022, a quantidade havia caído para 51 mil toneladas – uma queda de 60% em três anos.
Esse cenário mudou com a Conab voltando ao mercado para fazer compras. Depois de 2023, porém, o saldo dos armazéns de milho voltou a cair. Foram reduzidos num ritmo ainda mais intenso do que no governo Bolsonaro. Ao final de 2024, era de 229,5 mil toneladas do grão. Ao final do ano passado, eram só 119,3 mil toneladas – 66% a menos do que há dois anos e menos de um décimo da quantidade estocada em 1996, mesmo com a retomada da política de estoques públicos.
Parte da queda pode ser explicada porque, em 2024, a Conab focou suas compras em arroz. Em abril e maio daquele ano, uma enchente histórica atingiu o Rio Grande do Sul, estado que produz cerca de 70% dos grãos colhidos no país. Preocupada com o efeito disso nos preços do produto, a Conab anunciou a importação e, depois, a compra de grão para formação de estoques.
Lula assumiu o governo com os estoques de arroz da Conab zerados. No final de 2024, 416 toneladas do grão estavam armazenadas pela companhia. No final do ano passado, já eram 223 mil toneladas – ou seja, cerca de 500 vezes mais.
Em 2024, ano em que o governo voltou a comprar arroz para recompor estoques, o preço do produto vendido ao consumidor subiu 24,5%, de acordo com o IPCA do IBGE. Já em 2025, quando os estoques superaram as 200 mil toneladas pela primeira vez desde 2014, o preço do arroz caiu 26,5%.
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Governo admite dificuldades
“Queríamos ter comprado mais arroz. Poderíamos ter encerrado o ano com 600 mil toneladas em estoque”, ressaltou Sílvio Isoppo Porto, diretor-executivo de Política Agrícola e Informações da Conab, em entrevista ao Joio.
Porto é um dos principais porta-vozes da Conab quando o assunto são estoques de alimentos. Ele reforçou que o governo do presidente Lula está comprometido em reconstruir a capacidade do Estado de armazenar alimentos e atuar no mercado em momentos de necessidade, seja numa crise de abastecimento, seja num pico inflacionário. Ele, contudo, admite que o Executivo tem enfrentado dificuldades variadas. No caso específico do arroz, Porto disse que elas passaram, inclusive, por questões político-ideológicas.
O diretor disse que, em 2025, o governo resolveu intervir no mercado do grão para tentar garantir um preço mínimo aos produtores e estimular a produção do alimento, que faz parte da dieta básica da população nacional. A Conab disponibilizou R$ 1 bilhão para compras do grão. Chegou a anunciar que compraria até 500 mil toneladas de arroz, pagando R$ 87 pela saca de 50 kg do produto. Contudo, poucos produtores se interessaram pela oferta.
Segundo Porto, parte deles porque a achava baixa. Outra simplesmente não quis fazer negócio com o governo. “A questão política também pesou”, afirmou, lembrando que a saca do arroz chegou a baixar a R$ 35 após a oferta do governo, causando perdas àqueles produtores que se recusaram a vender à Conab.
Pode parecer um contrassenso que produtores ajam contra seu próprio interesse econômico, mas essa hipótese não é uma conjectura. Em entrevista publicada pelo site Congresso em Foco no dia 2 de março, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), declarou abertamente que o “projeto do agro é tirar o PT do poder”.
Essa opinião aparece mesmo com o apoio financeiro massivo do governo Lula ao setor agropecuário. O Plano Safra do último ano do governo de Bolsonaro – o maior entre 2019 e 2022 – concedeu R$ 251 bilhões em crédito aos produtores rurais do país. Já o valor anunciado por Lula em 2026 foi de R$ 516 bilhões, o que representa um aumento de quase 60% em relação a 2022, já com a correção da inflação com base no IPCA.
O diretor da Conab acrescentou que esse não foi o único problema enfrentado pela Conab para recompor estoques. Ele lembrou que o governo de Bolsonaro fechou 27 armazéns da companhia e não realizou a manutenção necessária em outros 64, o que reduziu a capacidade do governo de estocar comida.
Porto lembrou também que a Conab usava armazéns privados para guardar seus estoques. Muitos proprietários desses locais desistiram de fazer negócios com o governo, já que havia uma sinalização clara de que a política de estocagem estava encerrada. Quando ela foi reativada pelo governo Lula, houve dificuldades no recredenciamento dos armazéns. “Os galpões simplesmente deixaram de renovar sua credencial para receber os estoques públicos”, explicou. “Foi necessário todo um esforço de vistoria para checar as condições deles e, novamente, recredenciar esses espaços.”
Por fim, Porto ainda falou das dificuldades orçamentárias. Segundo ele, faltam recursos à Conab para ampliar mais os estoques de alimentos. O orçamento da companhia caiu de R$ 3,4 bilhões em 2021, com valores já atualizados pelo IPCA, para R$ 1,9 bilhão em 2026.
Em outubro do ano passado, a Conab anunciou uma reforma de R$ 55 milhões em seus armazéns no Paraná e Mato Grosso do Sul. Os recursos para isso, entretanto, não vieram da Conab. Quem vai pagar pela reforma é Itaipu.
Diego Moreira, da coordenação nacional do setor de produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ratificou que a falta de recursos comprometeu o trabalho da Conab no que diz respeito aos estoques. Ele disse que a desestruturação da companhia durante gestões passadas atrapalhou. “Nós achamos que o governo deveria disponibilizar mais recursos para a Conab, tanto para a estruturação da empresa quanto para a compra para a formação do estoque”, declarou Moreira.
José Giacomo Baccarin, professor de economia e política agrícola da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), também diz que a Conab até tentou comprar mais alimentos para estocar. Porém, não conseguiu, em parte porque perdeu uma parcela de seu corpo técnico com expertise para esse tipo de operação. “Tentou-se fazer um leilão de compra de arroz do mercado internacional. Foi uma trapalhada”, afirmou. “Perdemos a capacidade de estocar. E isso não se recupera de uma hora para outra.”
Estoques ainda não são necessários?
Ao Joio, Baccarin pôs em dúvida a efetividade dos estoques públicos de alimentos para a realidade brasileira atual. Ele entende que a política visa conter variações de preço ao consumidor e garantir condições de produção ao agricultor. Pontuou que o efeito da política é limitado atualmente, considerando o tamanho da produção nacional e o histórico recente dos preços da comida no país e no mundo.
Baccarin disse ainda que o índice do preço mundial da comida elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU) aponta uma tendência global de alta desde a década de 1990. Nesse cenário, a compra de produtos para estoque tende a ter efeitos nocivos à economia. “Como o governo vai comprar soja e milho se o preço deles só sobe? Se o Estado entrar comprando, a tendência é que o preço suba ainda mais”, afirmou.
O professor também disse que é contraditório o Brasil estocar comida já que produz anualmente mais do que consome. “O Brasil é exportador líquido de alimentos. É diferente da China, que consome mais do que produz, que precisa ter estoques até para garantir seu abastecimento”, explicou.
Para Baccarin, mais efetiva que os estoques seria uma política de regulação das exportações. Com ela, uma eventual alta de preço de um determinado produto seria combatida com a limitação de venda dele para o exterior.
De acordo com o raciocínio de Baccarin, a alta do preço do café, por exemplo, não deveria ser combatida só com a formação de estoques do grão.
Desde 2016, a Conab não tem estoques relevantes de café. De lá para cá, o preço do café moído no Brasil registrou altas acentuadas e seguidas: em 2021, subiu mais 50%, segundo o IBGE; em 2022, foram mais de 13% de aumento; já em 2024 e 2025, pelo menos 35% de alta em cada ano. Nesses anos, porém, a produção brasileira cresceu. Acontece que anualmente cerca de 65% disso foi exportado anualmente, de acordo com dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé)
“Não é ideal criar uma restrição de longo prazo para produtos agrícolas já que isso poderia desestimular a produção”, explicou Baccarin. “Mas, em alguns casos, isso poderia ser aplicado para o controle de preços. O mercado internacional já faz isso.”
Walter Belik, professor aposentado de economia agrícola do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos fundadores do Instituto Fome Zero (IFZ), acrescentou que o incentivo à produção de itens essenciais da dieta nacional, como arroz e o feijão, precisa ser ampliado para controle de preços. Essas culturas vêm perdendo espaço para a soja na última década.
Para ele, porém, a política de estoques ainda é relevante, principalmente em um momento geopolítico tenso no mundo, com aumento dos conflitos bélicos entre nações hegemônicas e da guerra comercial criada pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos. “É uma questão de soberania nacional garantir o abastecimento de alimentos neste momento em que blocos de países estão cada vez menos alinhados, mas os estoques parecem não ser prioridade deste governo”, afirmou. “Há o discurso, mas a execução é complicada.”