Fotos: Gabriela Moncau; Arte: O Joio e O Trigo

Guarani e Kaiowá lutam para preservar cultivos ancestrais contra a soja, a fome e os ultraprocessados

Milho branco, batata e mandioca: a persistência é a de “plantar uma roça sagrada em um campo de batalha”, define ancião indígena de 107 anos

Na Terra Indígena (TI) Guyraroká, na cidade de Caarapó (MS), plantar banana é ato arriscado. Ilhados por monocultura de soja e vendo, a algumas centenas de metros, aviões de pulverização de agrotóxico, os Guarani e Kaiowá relatam ter sido intimidados por pistoleiros ao plantar bananeiras em um local sobreposto pela Fazenda Ipuitã. Desde o fim de setembro, quando retomaram a área para impedir o veneno e pressionar pela demarcação do território, os indígenas insistem em plantar. Neste início de 2026, já brotam alimentos na nova roça.

A iniciativa tem irritado fazendeiros. Depois de ações de repressão policial contra os indígenas, o governo federal mediou uma “trégua” de 180 dias para avançar em negociações para resolver o conflito. O prazo vence em 21 de abril e o acordo prevê que até lá, de um lado, os Guarani e Kaiowá parem de avançar na retomada; de outro, que fazendeiros joguem agrotóxico a uma distância de 250 metros da comunidade. 

Com vídeos, os indígenas afirmam que a “faixa de amortecimento” dos venenos não está sendo respeitada por fazendeiros. Já Luana Ruiz, advogada da proprietária da Fazenda Ipuitã – a professora da PUC-SP Ana Mei de Oliveira -, nega que haja pulverização de agrotóxico e diz que a comunidade indígena “adentrou a área produtiva”. 

“Nós somos indígenas. Estamos respeitando o acordo, desde o início descumprido por eles, que passam veneno de avião, mas não vamos ficar no meio da sujeira. Vamos plantar sim, sempre. Faz parte da nossa cultura, do nosso modo de ser. Essas cestas básicas que o governo manda não dão para sustentar a gente. Não vamos morar que nem rato dentro do nosso território. A gente precisa plantar, precisa comer”, rebate Erileide Domingues, uma das lideranças de Guyraroká.

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Perdas alimentares

Milho branco, batata-doce, mandioca, feijão kumanda, abóbora, arroz, mbakuku (uma espécie de tubérculo), cana, guavira, banana e manga são alguns dos principais alimentos da cultura tradicional do povo Guarani e Kaiowá. 

Segundo os indígenas, a resistência para que estes alimentos não se percam, bem como as práticas comunitárias e espirituais que envolvem o seu cultivo e consumo, são inseparáveis da luta pela recuperação das terras usurpadas pela colonização no Mato Grosso do Sul (MS). 

Assim, explica Erileide, o processo que culmina hoje no plantio de bananeiras na retomada de Guyraroká, mesmo que sob ameaças, envolve mais que a reação contra a fome. Faz parte, também, da defesa do ñande reko: o modo de ser guarani. 

Mas o que tem avançado, na visão do pesquisador e agricultor Kaiowá Anastácio Peralta, é o karaí reko (modo de ser não indígena), por meio do confinamento em reservas, a expansão da monocultura de soja e milho transgênicos, a contaminação por agrotóxicos, a ação de pistoleiros e a brutalidade policial contra indígenas. Uma das consequências, alerta, é a substituição do “lazer da roça” pela dependência de cestas básicas e a “escravidão do trabalho”. 

Entre as perdas alimentares daí decorrentes, está a do milho branco. Considerado na cosmologia Guarani e Kaiowá como o pai de todas as outras sementes, o cultivo é feito ainda por rezadores, mas em uma minoria de territórios no estado. Entre eles, nas terras indígenas Panambi Lagoa-Rica, Laranjeira Ñanderu e Panambizinho, e em alguns lugares na reserva de Dourados. Em Guyraroká, por exemplo, não se faz o plantio e batismo do milho branco por conta da contaminação do agrotóxico. “O milho precisa estar puro”, explica Erileide.

A mandioca, também elementar na alimentação indígena, está mais escassa. De acordo com a enfermeira Kaiowá Indianara Machado, na populosa reserva de Dourados já não se encontra o tubérculo em alguns períodos do ano. “Antigamente era o ano todo”, compara. 

A catação da guavira, fruta nativa do Cerrado brasileiro e também sagrada para os Kaiowá, era feita de forma coletiva por extensos núcleos familiares. “Hoje, com a fragmentação familiar decorrente do processo de confinamento em aldeias, rituais como esse se fragilizaram. E não encontramos mais guavira na região de Dourados, já desapareceu. Se quiser, precisa comprar”, conta Indianara.

Perto da fronteira com o Paraguai, na cidade de Iguatemi, ainda é possível encontrar pés de guavira entre a pastagem de gado e as fileiras de eucalipto. É ali que, há décadas, os Guarani Kaiowá do tekoha (lugar onde se é) Pyelito Kue, confinados em uma pequena aldeia de 97 hectares, lutam para recuperar o seu território. 

Trata-se da TI Iguatemipeguá I, ainda não demarcada e sobreposta por 44 fazendas. “Como a gente cata guavira, os fazendeiros colocaram cercas em torno dos pés da fruta. Eles chegam nesse ponto, enjaulam plantas. Mesmo assim, e com risco de tomar tiro de jagunço, de vez em quando a gente vai buscar a guavira”, conta o indígena Xe Ryvy Rendy’i, de Pyelito Kue.  

Conforme conta o estudante indígena Germano Lima, do tekoha Guyra Kambi’y, em Douradina (MS), o seu povo também perdeu o costume do plantio de tabaco e de algodão. “Geralmente o Kaiowá plantava tudo misturado. Quando o milho crescia um pouco, aí já plantava a mandioca no meio, a abóbora. Antigamente tinha a moranga preta, que hoje é raro. Plantava também feijão de corda”, relata.

Ao redor da roça, explica Germano, “se plantava o fumo, para que nenhuma praga viesse. Era o veneno espiritual que a gente tinha. Hoje em dia a gente não tem o fumo. Porque não tem mais a semente. E o algodão também. Se plantava junto com o milho e era essencial, porque daí se fazia rede e roupa. Também estamos sem semente de algodão”.

Essas perdas acontecem no estado brasileiro em que, na definição de Anastácio Peralta, “um boi vale mais que uma criança e um pé de soja vale mais que um pé de cedro”. Com 116.469 pessoas, o Mato Grosso do Sul tem a terceira maior população indígena do Brasil, segundo o Censo IBGE de 2022. Os povos Guarani – incluindo os Ñandeva e os Kaiowá – são os mais numerosos. Só os Kaiowá são cerca de 45 mil pessoas. 

Apesar disso, só seis Terras Indígenas estão demarcadas no Mato Grosso do Sul. São elas Arroio-Korá, Panambizinho, Jarara, Ñande Ru Marangatu, Sete Cerros e Takuaraty/Yvykuarusu. Somadas, equivalem a uma área de 30.160 hectares. 

Já para o plantio da safra 2024/2025 de soja e milho transgênicos, de acordo com o Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio de MS, foram destinados 7,39 milhões de hectares – equivalente a 250 vezes a área de todas as TIs homologadas no estado. 

Jardim em campo minado

Tito Vilhalva, cacique e ancião de 107 anos, esteve à frente do início do retorno à TI Guyraroká, no final da década de 1990. Foi o que resultou na consolidação de uma aldeia de 50 hectares. A comunidade está situada no meio do territoŕio de 11.401 hectares, onde, apesar de já delimitado pela Funai como indígena, estão ainda 26 fazendas. Agora Tito acompanha sua neta Erileide e o resto da comunidade, composta majoritariamente por crianças, na luta para ampliar a ocupação indígena. 

Apesar da idade avançada, Tito – ou Papito, como é carinhosamente chamado – não deixa de plantar. Mas o cultivo não vinga. “Faz mais de 15 anos que reclamamos do agrotóxico, mas não muda”, relata. “É como tentar plantar uma roça sagrada em um campo de batalha”, resume o ancião.

E não são só os humanos que são repelidos pelos agrotóxicos constatados em Guyraroká. Em toda a parte ocupada por indígenas, há cupinzeiros a perder de vista. Os insetos fugiram do veneno e ali se instalaram. “Eles também não deixam os brotos crescer”, explica Erileide. A grande quantidade de cupins altera a estrutura do solo e, com frequência, os insetos destroem o colo das plantas nas roças. 

Cupinzeiros se espalham na área onde vive a comunidade Guarani e Kaiowá dentro da TI Guyraroká. Foto: Gabriela Moncau

O “genocídio continuado” e a reação

Nascido nesta mesma terra que luta para recuperar, Tito Vilhalva lembra quando sua comunidade foi expulsa dali “à bala”, entre 1938 e 1940. Ao longo dessas duas décadas, o governo Getúlio Vargas implementou a “Marcha para o Oeste”, projeto desenvolvimentista de integração econômica do Norte e Centro-oeste do país. 

“Tivemos que correr. E se não corresse, a gente morria também. Isso aqui era mato, tudo. Peroba, era mato aqui. Tinha onça, macaco e anta. Agora você vê que está limpo, a gente vê looonge”, comenta o cacique, ao observar o descampado da monocultura. Enquanto expulsava os indígenas, o Estado brasileiro emitiu títulos para que colonos agrícolas ali se instalassem. A não demarcação destas terras arrasta o conflito até hoje. 

O capítulo do governo Vargas, no entanto, foi só um dos muitos da desterritorialização dos Guarani e Kaiowá no MS. Depois da Guerra do Paraguai (1864-1870), o Estado brasileiro concedeu quase todo o sul do Mato Grosso do Sul para a Companhia Matte Larangeira explorar erva mate, com massiva mão de obra indígena. 

No começo do século 20, então, surgiu a ideia de delimitar pequenas áreas para confinar a população originária do Mato Grosso do Sul e liberar suas terras para a colonização agrícola. O trabalho foi executado pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), antiga Funai. 

Entre 1915 e 1928, o Estado criou oito reservas indígenas: Dourados, Caarapó, Pirajuí, Sassoró, Porto Lindo, Taquapiri, Limão Verde e Amambai. Ali, o SPI aglomerou comunidades e impôs a escolarização, a assistência missionária e uma administração militarizada. Não demorou para que as reservas ficassem superlotadas. 

Nos anos 1970, enquanto a pecuária e as lavouras de cana, soja e milho se expandiam no estado, os indígenas sofisticaram a reação. Contrapondo-se de forma pública à política indigenista do governo militar, os povos indígenas começaram a dar ares de movimento social nacional à sua organização. 

Entre seus protagonistas estava Marçal de Souza Tupã’i, do povo Guarani Ñandeva. Executado com cinco tiros na porta da sua casa em 1983, Marçal é lembrado até hoje como referência da luta por território no MS. 

Também na década de 1970 começam as ações organizadas de retomadas de terras, movimento conhecido em guarani como jaike jevy (“entrar de novo”). Emerge, então, a Aty Guasu, a grande assembleia Guarani e Kaiowá, que é, até os dias atuais, o coração da organização política e espiritual deste povo. 

A resposta do agronegócio e do Estado às retomadas – cuja morosidade nas demarcações é justamente o que as impulsiona – tem sido marcada, na definição da indígena Kuñai, de Pyelito Kue, por um “genocídio continuado”. 

Sua fala não é metafórica. Kuñaí é uma das lideranças da recente retomada feita pela comunidade de Pyelito Kue em uma área sobreposta pela Fazenda Cachoeira, na cidade de Iguatemi (MS). Em 16 de novembro de 2025, no quarto ataque de pistoleiros que sofreram, ela viu seu amigo, o indígena Vicente Fernandes Vilhalva, ser assassinado com um tiro na testa.  

A esse se somam inúmeros casos emblemáticos de violência contra os Guarani e Kaiowá. Entre eles, o chamado “Massacre de Guapo’y”, quando em 2022 a Polícia Militar abriu fogo contra uma retomada em Amambai (MS), matando Vitor Fernandes e ferindo diversas outras pessoas, inclusive crianças. Anos antes, em 2016, pistoleiros atacaram uma retomada na Fazenda Yvu, no que ficou conhecido como o “Massacre de Caarapó”. O agente de saúde indígena Clodiodi de Souza foi morto e outras seis pessoas foram baleadas. Em 2011, um grupo de pistoleiros e seguranças privados alvejou Nísio Gomes, liderança do tekoha Guaiviry. Seu corpo nunca foi encontrado.  

Só em 2024, de acordo com levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 33 indígenas foram assassinados no MS. “A luta dos nossos povos nunca foi fácil. A gente clama pelos nossos direitos, mas sempre tem derramamento de sangue. Isso não tira nossa coragem, até porque não temos escolha. Se for preciso, vamos morrer. Para poder viver”, declara o indígena Xe Ryvy Rendy’i, de Pyelito Kue. 

“Há 500 anos a gente tomava tiro. E hoje, em 2026, estamos tomando tiro ainda”, evidencia Anastácio Peralta. “Os filhos dos colonizadores estão aqui, com a mesma mentalidade do passado. O Congresso Nacional é contra o direito indígena. Tem o agrado do Judiciário, que fala que tem direito, mas também não faz nada, né? Só falar que tem direito é a mesma coisa que falar que precisa carpir, mas não carpir”, salienta. 

Salgadinho e refri: os ultraprocessados nas reservas

A aldeia Jaguapiru, onde vive Indianara Machado, é uma das que compõem a reserva de Dourados. Ali, 13.473 indígenas se aglomeram em 3.467 hectares, pela contagem do Censo IBGE de 2022. “O Guarani Kaiowá é um povo coletivo. E entre os tantos impactos da colonização, estão aqueles nas nossas práticas alimentares. Dentro de aldeias como essa que eu moro, as famílias vivem de forma individualizada e fragmentada. É visível”, descreve.  

“Várias práticas sociais coletivas que são tradicionais do meu povo, como o kokue, que é como chamamos a roça Kaiowá, ficam fragilizadas. Em geral não se vê aqui”, pontua Indianara. 

Anastácio Peralta diz que o kokue é uma das “tecnologias espirituais” do seu povo. Na sua definição, esses conhecimentos são “negociações feitas entre os seres humanos e não humanos em rituais para plantio, colheita e consumo de determinados alimentos”.  

“Para nós, Kaiowá, o preparo do solo começa com uma reza. Pedir licença para a terra, para ficar fértil, alegre, feliz. E a semente também é batizada. Porque a semente tem alma e merece cuidado. Merece cuidado como uma criança. Assim falam os mais velhos”, expõe Peralta.

“Teve um ancião que falou para mim que o sangue que corre na nossa veia é o rio que corre por cima da terra. Assim como nós não vivemos sem sangue, o mundo não vive sem água”, conclui Anastácio. Por contaminação ou falta de acesso, a água é também ponto-chave das perdas alimentares do seu povo.    

“Nas reservas dependemos de uma estrutura de saneamento da Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena], que são poços artesianos”, descreve Indianara. “Então tem regiões na aldeia que não chega água ou que chega de forma muito esporádica, uma, duas, três vezes na semana. Isso torna muito difícil a segurança alimentar de uma comunidade”, pontua. 

“São muitas camadas que culminam no momento em que a gente está hoje, de entrada massiva de ultraprocessados nas reservas”, aponta Machado. Enlatados, mortadela, salgadinho, refrigerante, bolacha, sorvetes com corantes são alguns dos produtos que, segundo Indianara, estão sempre nos mercadinhos das reservas e na boca de seus moradores.

A aldeia Jaguapiru é uma das 86 que, por estarem regularizadas, recebem cestas básicas do governo estadual. Por mês, são distribuídas 19.899, com açúcar cristal, macarrão, leite em pó, óleo de soja, arroz, feijão, sal, canjica, erva de tereré e charque bovino. É uma por família, independentemente do número de pessoas na residência. 

Já para indígenas em áreas de retomada, as cestas ficam a cargo do governo federal. Com a mesma composição alimentar, são entregues seis mil cestas por mês. Número que, de forma unânime por todos os indígenas ouvidos pelo Joio, é considerado insuficiente.  

Em retomadas, 77% das famílias com insegurança alimentar

Uma pesquisa sobre insegurança alimentar e nutricional em retomadas Guarani e Kaiowá feita pela Fian Brasil constatou que, dos 480 domicílios de cinco retomadas analisadas, 77% sofrem algum nível de insegurança alimentar. Destes, 11,4% vivem em situação de fome. 

Indianara foi uma das pesquisadoras do levantamento que, coordenado pela professora da UFGD Verônica Gronau Luz, se debruçou sobre as retomadas Guaiviry, em Aral Moreira (MS); Kurusu Ambá, em Coronel Sapucaia (MS); Ypo’i, em Paranhos (MS); Apyka’i, em Dourados (MS) e Ñande Ru Marangatu, em Antônio João (MS). 

“Nas retomadas, por conta da monocultura, existe a proliferação de braquiárias”, nota Indianara, se referindo a uma planta comum em pastagens para a atividade pecuária. “É um mato que veio de fora, não é típico daqui, suga muita água do solo e é difícil de tirar de forma manual, com ferramentas como a enxada. Antigamente aqui os matos eram tranquilamente retirados. Agora, tem que ter as máquinas agrícolas para dar esse suporte. Isso é um dos fatores que fragiliza a produção de alimentos nos territórios ocupados.”

Jakaira: o milho branco, pai das sementes

Anastácio vive na TI Panambizinho, em Dourados (MS), demarcada em 2004. Ali, o avanço da fronteira agrícola acontece pelo arrendamento. Nos últimos cinco anos, Anastácio viu quase todo o território ser tomado pela soja transgênica. De acordo com o MapBiomas, a área de monocultura dentro da TI ocupava 670 hectares em 2018 e, em 2024, já havia saltado para 812. O tekoha de um hectare onde Anastácio vive – e preserva um rio, horta e árvores frutíferas – é como uma ilha. 

“Existe a fala de que é indígena que arrenda para indígena”, contextualiza Indianara, “mas a gente sabe que não é, que estes são só intermediários para fazendeiros maiores”. A Constituição determina que os indígenas são os únicos que podem usufruir de seus territórios. O arrendamento, destaca Peralta, “é outra forma arquitetada de colonização”. 

“Famílias indígenas e camponesas, não só no Mato Grosso do Sul, são iludidas com o discurso de ganhar dinheiro, ter caminhonete. Mas isso é enganação. Você não consegue nada a não ser uma casinha para morar dentro. E o Estado investe nisso. Porque o governo não investe dinheiro para a produção de alimentos de qualidade. Então esse mau caminho parece muito mais fácil. Na soja, todo mundo investe. É uma traição”, lamenta Peralta.

Como Anastácio, a ñandesy (rezadora) Fineida Neusa Aquino Concianza vive em Panambizinho e resiste à soja. O seu território é um dos que preserva o cultivo do milho branco, ou saboró, a mais importante semente na cultura alimentar e espiritual do povo Kaiowá. Na casa de reza no seu terreno, Fineida sedia, todo início de ano, a festa do batismo do milho: o jeroky pusu.

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Fineida Aquino, neta de Pai Chiquito, um dos maiores líderes espirituais do povo Kaiowá, mostra o plantio do milho branco. Foto: Gabriela Moncau

Na cosmologia Kaiowá, jakaira é a divindade que criou, de uma parte da vestimenta usada na sua cintura, a semente do milho branco. Através da reza, ele germinou. Assim, até hoje, o cultivo precisa seguir as mesmas etapas, como explica o historiador Kaiowá Izaque João, em um artigo na revista Pise a Grama

“Deve-se cantar para plantar, para ser protegido das pragas e, por último, na colheita, quando ainda está verde (avati kyry), para que possa ser consumido sem riscos para a saúde. Depois da colheita, o milho ainda precisa passar pelo jehovasa, quer dizer, uma ‘bênção’ realizada pelo xamã, para depois ser distribuído”, descreve Izaque João.

Para o povo Guarani e Kaiowá, todos os produtos agrícolas têm o plantio baseado nas fases da lua, no canto dos pássaros e no uso específico da reza –, e respondem a uma hierarquia. É preciso que o milho branco e seu espírito jakaira se desenvolvam para que os outros alimentos brotem. Ele é responsável, narra Izaque, “pela reprodução de todos os seres que tenham vida, tanto é que, na parte introdutória da reza, invoca-se ytymby jasuka, substância de onde germinam todas as espécies de plantas”.

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Na cosmologia Kaiowá, o milho branco é o pai de todas as sementes. Foto: Gabriela Moncau

“Para você ser feliz e alegre, a comida também tem que ser alegre”, explica Anastácio Peralta. “Então, na colheita, jakaira é celebrado com grande festa, agradecendo porque o corpo do milho fica aqui com nós, mas a alma volta para o céu”, descreve.

Para Indianara, a preservação do milho branco representa o cerne da resistência alimentar do seu povo. “Mas quem segura isso são os mais velhos. E eles estão partindo. Com eles, corremos o risco de perder isso. Porque alguns jovens se interessam, mas muitos não”, se preocupa.

Dos seus 26 anos de vida, o indígena Germano Lima já dedica dez fazendo o ritual do batismo do milho. Aprendeu desde criança com sua avó, a ñandesy Adelina Romana. Ele mesmo plantou milho branco em diversas partes da retomada Yvy Ajherê, em Douradina (MS).  

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Germano Lima é yvyraijá, ou seja, está em processo formativo do xamanismo. Foto: Gabriela Moncau

Germano abre a mão e mostra uma dezena de sementes. “Isso aqui passou pelo meu tataravô, bisavô, passou pela minha avó, até chegar em mim. Temos essa semente, o avati jakaira, o milho branco, desde a criação do mundo. Para nós, se ele terminar, o mundo também acaba”, narra o jovem indígena.

Desde que tinha cinco anos de idade, Germano era levado para a roça para semear o milho branco em mutirão. Até hoje, se não fizer este ritual, ele recebe uma visão. “Todo ano eu tenho que plantar. Se eu não plantar, as duas crianças aparecem para mim no sonho. Os rezadores dizem que é jakaira”, conta. 

“O milho branco é igual uma criança, que precisa ser cuidada para crescer. E quando cresce precisa da reza para voltar para o céu. É como se fosse ida e volta. Está aqui na terra, sobe e depois volta de novo, como num ciclo. Para o mundo se fortalecer”, explica Germano. “Enquanto eles plantam morte”, sintetiza Anastácio Peralta, “nós plantamos vida”.

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