Tema aparece na agenda regulatória do país em 2026; item já é comercializado na Argentina, no Peru e na Colômbia
Na foto, a funcionária de uma loja de conveniências peruana exibe sorridente uma lata de bolsas de nicotina sabor menta, um tipo de sachê colocado sobre a gengiva que libera na boca a mesma substância que torna fumar viciante. Uma única embalagem pode conter 15 saquetas com até 6mg cada – o equivalente a mais de quatro maços de cigarros –, mas ainda assim o produto é vendido no balcão do caixa ao lado de balas e doces. No cenário, as latas coloridas dos sachês se misturam a chocolates com embalagens do filme infantil Minions.
A imagem foi publicada no LinkedIn em outubro de 2024, por um gerente brasileiro da gigante do tabaco BAT, ex-Souza Cruz, que liderou o marketing da chegada ao Peru da Velo, a bolsa de nicotina da empresa. “Com o lançamento da marca, que é líder de mercado na Europa, iniciamos a jornada de Modern Oral em Latam South e, pela primeira vez, teremos um mercado operando com três diferentes categorias (cigarros, vapes e sachês) da BAT”, ele escreveu no texto que acompanha a foto.
Na América do Sul, os peruanos foram os primeiros a receber os produtos de “nicotina oral” da multinacional. Em seguida, veio a Colômbia. No fim de 2025, a Argentina. Por lá, a BAT passou a vender o Velo sem autorização do Ministério da Saúde do país, se aproveitando de um vácuo regulatório para a categoria. No país vizinho, o aumento do uso entre os argentinos mais jovens preocupa especialistas e, como no Peru, sachês são vendidos em mercados e lojas de conveniência misturados a doces e balas.
Ao contrário do snus, do rapé ou do fumo mascável, esses produtos não contêm tabaco. Trata-se de uma saqueta de celulose turbinada com aditivos químicos, saborizantes e nicotina, que pode ser tanto sintética como extraída do fumo, assim como o líquido dos vapes. Esses sachês são altamente viciantes e podem conter substâncias que causam câncer.
Não há regras específicas sobre bolsas de nicotina no Brasil, mas elas são consideradas proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que as classifica como um tipo de “fumígeno”, o mesmo grupo a que pertencem charutos e cigarros. Esse avanço dos sachês – tidos pela indústria do tabaco como a categoria que mais cresce em consumo entre produtos de nicotina, até mais do que cigarros eletrônicos – entrou no radar da Anvisa, que incluiu a “regulamentação de produtos fumígenos emergentes, como bolsas de nicotina” em sua agenda regulatória para 2026-2027.

Nos próximos meses, o órgão planeja abrir uma consulta pública, produzir uma análise de impacto regulatório (AIR) e depois publicar uma nova norma que poderá liberar os sachês no país ou manter sua proibição. É o mesmo tipo de decisão que foi tomada em 2024 sobre cigarros eletrônicos. Na ocasião, a agência expandiu as restrições contra esses produtos, que já existiam desde 2009. Em dezembro de 2024, o Joio mostrou que bolsas de nicotina da BAT e da Philip Morris já estavam sendo contrabandeadas ao país e vendidas a jovens no Instagram como “alternativa” a vapes.
“A inclusão do tema na Agenda Regulatória foi proposta pela área técnica, submetida à Consulta Pública e aprovada pela Diretoria Colegiada, garantindo um processo transparente”, disse à reportagem a Anvisa em nota. “Neste momento, as áreas técnicas estão elaborando seus planejamentos, incluindo seus respectivos cronogramas de execução”.
O marketing da marca de sachês Velo na América do Sul tem sido planejado a partir do escritório da BAT no Rio de Janeiro, mostram posts de funcionários da empresa no LinkedIn revisados pelo Joio. Essa prática não é ilegal, desde que os produtos não estejam sendo importados ao Brasil. Em um post do LinkedIn sobre o lançamento no Peru, o gerente brasileiro da multinacional marcou e elogiou colegas que trabalham em divisões brasileiras dedicadas a “novos produtos”, como vapes e os sachês.
Parte do avanço do produto em muitos mercados se aproveita de brechas nas regulações, já que esses sachês são vendidos pelas grandes indústrias de cigarros como sendo “livres de tabaco” e de uso oral, sem inalação de fumaça ou aerossol (o nome técnico do “vapor” do vape), o que ajuda a driblar regras criadas para cigarros comuns e eletrônicos. Hoje, países como Alemanha, Rússia e Países Baixos proíbem sachês de nicotina.
Ao Joio, a BAT disse que “todas as suas interações com a Anvisa são conduzidas de forma legítima, transparente e em conformidade com os parâmetros legais vigentes”, sem responder às perguntas específicas sobre o pedido de registro na Anvisa.

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Um convite da BAT à Anvisa
Apesar do início do processo regulatório previsto somente para este ano, o lobby no Brasil pela liberação dos sachês começou por volta de 2024. Em novembro daquele ano, dias depois de o Velo ser lançado no Peru, a BAT mandou uma carta à Anvisa para convidar um dos diretores da agência, Daniel Pereira, a visitar as instalações da multinacional na Inglaterra, onde bolsas de nicotina e cigarros eletrônicos da empresa vêm sendo projetados. O documento foi obtido via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo Joio.
“De nossa parte, há um importante investimento no desenvolvimento e na ciência por trás desses produtos sem fumaça, como vaporizadores, produtos de tabaco aquecido e sachês de nicotina oral”, disse a carta. “Pelos motivos acima, o convidamos para conhecer as instalações científicas da BAT em Southampton e Londres, no Reino Unido, no fim de janeiro de 2025, de modo que possa se inteirar da seriedade com que o desenvolvimento de novos produtos com menor risco é conduzido”.

Na época, a agência aceitou o convite e escalou, além do diretor Daniel Pereira, as servidoras Danitza Buvinich, na época diretora-substituta do setor que comanda a fiscalização de tabaco, e Gabrielle Cysne Troncoso, assessora de Pereira, para irem à “visita técnica” na multinacional de tabaco.
O plano da BAT era promover reuniões no laboratório de pesquisa da multinacional em Southampton e na sede global da empresa em Londres, mostram trocas de e-mail entre os servidores da Anvisa e funcionários da empresa obtidos pelo Joio via LAI. Além disso, a fábrica de cigarros prometeu “providenciar todo o transporte” dos servidores e sugeriu que iria agendar uma van especialmente para o trio durante a viagem.
O tour, no entanto, acabou cancelado após o site Jota revelar que uma visita à sede da multinacional estava agendada, situação que gerou mal-estar dentro e fora da agência. À BAT, os diretores justificaram que o cancelamento se deu por “intercorrência de agendas”, mostram os e-mails.
“A viagem não guardava qualquer relação com a revisão de temas já decididos pela Anvisa ou temas da Agenda Regulatória”, disse a agência em nota à reportagem, apesar do convite da BAT ser claro quanto ao objetivo da empresa em apresentar “evidências” a respeito de cigarros eletrônicos e sachês. “Ainda assim, e como divulgado, a viagem foi cancelada a fim de garantir que a população não tenha qualquer compreensão equivocada dos objetivos da instituição na regulação de produtos fumígenos”.

Um pouco mais de uma semana após as datas em que a visita técnica cancelada ocorreria, em 8 de fevereiro, a BAT enviou um e-mail à agência pedindo o agendamento de uma audiência para “explicar” detalhes da solicitação de registro de um novo produto.
Da equipe de seis servidores da Anvisa que participariam da reunião, em 24 de fevereiro, dois deles – Daniel Pereira e Danitza Buvinich – estavam escalados para a viagem à empresa do mês anterior. Sob alegação de segredo industrial, nem a Anvisa nem a BAT quiseram confirmar à reportagem se o pedido de registro do início de 2025 se tratava do Velo.
Enquanto isso, em publis nos perfis da Velo no Instagram, a estratégia de marketing da BAT tenta vender os sachês como um produto que pode ser usado para sanar a vontade de fumar em aviões, durante festas e festivais de música, ou para acalmar o estresse do trabalho e trânsito. A tática faz parte de um esforço mais amplo de “nicotina-washing” do setor, que tenta enquadrar a substância como relativamente inofensiva. A ideia é retomar o consumo da droga por outros meios que não o dos cigarros comuns, que são alvos de políticas antitabagismo e leis cada vez mais restritivas ao redor do mundo.
A nicotina, no entanto, além de altamente viciante, pode ser tóxica. A literatura científica aponta uma série de efeitos negativos na saúde causados pela substância: aumento da pressão arterial, alterações na frequência cardíaca, obstrução do fluxo sanguíneo (que pode levar a trombose e amputações), diabetes, entre outros.
Em uma apresentação feita para investidores em 2020 feita pelo chefe de marketing da BAT, a multinacional britânica mostrou a imagem de um ciclo das “ocasiões para consumo de tabaco”. O gráfico destaca que antigamente o fumante podia usar cigarros várias vezes ao longo do dia: no trabalho, em bares, em casa e ter seu cigarro como sua primeira atividade pela manhã, um importante indicativo para um vício em nicotina mais intenso. Em seguida, o ciclo é tomado por pontos vermelhos, as “ocasiões perdidas”, causadas por restrições antifumo, como proibições a fumar em locais fechados.
Só que, por fim, a empresa mostra um ciclo “atualizado” em que fumantes passam a ter acesso a sachês de nicotina e cigarros eletrônicos, como vapes e tabaco aquecido. Com isso, as ocasiões para consumo “perdidas” são recuperadas, segundo o gráfico da BAT. Com vapes e bolsas, seria possível voltar a usar nicotina no trabalho, em casa em companhia de outras pessoas ou retornando para casa após o expediente, como nas publis do Velo para a América do Sul no Instagram. Nas redes sociais de língua espanhola, a marca usa o slogan “Donde sea, cuando sea: nicotina en qualquer lugar”. Em tradução livre: “Onde for, quando for: nicotina em qualquer lugar”.

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Lobby à sueca
Além do lobby da BAT, outra gigante do fumo, a Philip Morris, fabricante de cigarros das marcas Marlboro e L&M, também está de olho no mercado brasileiro. Em entrevista ao jornal O Globo, o diretor-geral da multinacional no país, Branko Servalic, indicou querer trazer ao país os sachês da empresa, assim como cigarros de tabaco aquecido, um dispositivo eletrônico que “vaporiza” uma espécie de tabaco ultraprocessado. O plano é “discutir isso com o Congresso, o Poder Executivo ou com a própria Anvisa”, disse ao jornal.
A partir de dezembro e se aproveitando do vácuo regulatório do país, a Philip Morris repetiu os passos da BAT e passou a vender sua marca, o Zyn, na Argentina.
Durante a conversa, Servalic chegou a exibir sachês de nicotina e cigarros eletrônicos vendidos pela empresa aos jornalistas, produtos cuja importação e armazenamento são irregulares no país. Ao Joio, a Anvisa disse que “a situação relatada será apurada”, já que a importação de dispositivos eletrônicos só é permitida para a realização de estudos científicos. Já a Philip Morris não respondeu ao contato da reportagem.
Ao longo dos últimos anos, após a febre dos cigarros eletrônicos, as bolsas de nicotina da Philip Morris se tornaram um problema de saúde pública nos EUA. O vício causado pelo produto tem reunido adolescentes norte-americanos em comunidades online dedicadas a ajudá-los a abandonarem o uso, mostrou o NY Times. Os sachês viraram uma febre no país, particularmente os homens conservadores, inspirados por usuários famosos, como o podcaster Joe Rogan, o apresentador Tucker Carlson e o secretário de saúde do governo Trump, Robert F. Kennedy.
À reportagem de O Globo, o diretor-geral da multinacional também mencionou que a Suécia teria reduzido o tabagismo ao promover bolsas de nicotina, um argumento que também é repetido pela BAT. Em janeiro de 2025, um texto patrocinado pela empresa de tabaco publicado no site Poder360 afirmou que o país nórdico teria atingido um índice de uso de cigarros inferior a 5% devido à promoção de produtos como vapes e sachês, que na narrativa da indústria seriam “produtos de menor risco” comparados ao fumo comum.
Só que os números sobre tabagismo na Suécia apresentados por empresas como BAT e Philip Morris, no entanto, são considerados enganosos por experts do país, que dizem que as baixas taxas de tabagismo no país não têm nada a ver com vapes ou snus.
“A Suécia começou bem cedo a adotar medidas para reduzir o fumo ainda nos anos 90, quando tínhamos programas gratuitos de cessação do tabagismo”, diz a especialista em prevenção ao uso do tabaco Lisa Ermann, da Sociedade Sueca do Câncer (Cancerfonden). “Nós também aumentamos impostos ao longo do tempo, tivemos um banimento de marketing rigoroso em 2005 e temos trabalhado bastante com ambientes livres de fumo, como quando fomos os primeiros da União Europeia a banir o fumo em locais de trabalho”, afirma.
A taxa real de uso de tabaco e nicotina na Suécia está em volta de 28%, mais que o dobro do uso brasileiro. Isso porque os menos de 5% apresentados pela indústria do fumo são um corte específico das estatísticas do país – uso diário de cigarros entre pessoas “nascidas na Suécia”. O fato de os dados não incluírem quem nasceu no exterior também é relevante, já que cerca de 27% da população do país nórdico é estrangeira. Além disso, na Escandinávia também há uma forte tradição no uso do snus, o sachê de tabaco que inspirou a versão de nicotina pura criada recentemente pela indústria, que está fora da estatística do uso de cigarros comuns.
“Eu estava trabalhando nos programas de cessação do tabagismo em 2010 e lembro que os fumantes me diziam se sentir marginalizados porque não podiam mais fumar em ocasiões sociais”, conta Ermann, que ressalta que em 2005 o fumo em bares e restaurantes foi banido no país. “Os fumantes tinham que ir para a rua durante o inverno sueco para fumar, o que não é muito legal”. Em 2019, essa regra antifumo foi estendida para alguns espaços públicos abertos, como parques infantis e paradas de ônibus.
Em abril de 2024, uma iniciativa chamada Quit Like Sweden, ou “Pare [de fumar] como a Suécia” chegou a ser lançada em Brasília com a participação de entidades aliadas da indústria do tabaco e que defendem o uso de vapes. Na oportunidade, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), uma das lideranças políticas que propõem liberar cigarros eletrônicos no país e já teve viagens pagas para visitar uma fábrica da Philip Morris na Itália, palestrou do evento.
Já a brasileira que coordena o Quit Like Sweden, Suely Castro, já trabalhou em consultorias e ONGs que recebem dinheiro da indústria do tabaco, segundo a página Tobacco Tactics, que mapeia o lobby global de empresas de cigarros. Castro é funcionária da Knowledge-Action-Change, uma organização financiada pela antiga Foundation for a Smoke-Free World, entidade criada pela Philip Morris para fazer lobby em favor de novos produtos de nicotina, como vapes, sachês e dispositivos de tabaco aquecido.
Enquanto isso, a indústria do tabaco usa políticos aliados para fazer um forte lobby contra medidas semelhantes às tomadas pelos suecos para de fato reduzir os índices de tabagismo no país, como mostrou o Joio.
Além disso, a popularização de vapes, snus e sachês se tornou um problema entre os jovens no país nórdico, que está revertendo tendências de queda no uso de nicotina no país. “Em poucos anos, vimos um rápido aumento nos usos de cigarros eletrônicos e sachês entre os jovens”, diz Ermann. “Com isso, o número de usuários de nicotina na Suécia cresceu de 25% para 28% e entre os mais jovens esse crescimento está mais veloz”.
Leia a íntegra das respostas de Anvisa e BAT
Anvisa
1) Sei que a “regulamentação” das bolsas de nicotina está na agenda regulatória da agência para 2026-2027. Quais os próximos passos após a inclusão do tema na agenda regulatória? Qual a previsão para as primeiras consultas a respeito do assunto?
O assunto foi incluído na Agenda Regulatória (AR) 2026-2027, trata-se do tema 16.5. Neste momento, as áreas técnicas estão elaborando seus planejamentos, incluindo seus respectivos cronogramas de execução. O acompanhamento da programação e do andamento da execução dos temas da nova AR 2026-2027 poderá ser feito em: Agenda regulatória — Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa.
2) A inclusão das bolsas de nicotina na agenda regulatória partiu de iniciativa da área técnica da agência? Com qual justificativa? A indústria do tabaco tem buscado a Anvisa para falar sobre uma eventual liberação?
A inclusão do tema na Agenda Regulatória foi proposta pela área técnica, submetida à Consulta Pública e aprovada pela Diretoria Colegiada, garantindo um processo transparente. A inclusão desse tema na Agenda Regulatória 2026–2027 reflete o compromisso da Anvisa em manter o marco regulatório atualizado frente ao surgimento de novos produtos.
3) Hoje, qual o status legal dos sachês de nicotina no país? Eles estão em um “vácuo legal” ou são proibidos?
Para que um produto fumígeno seja comercializado, deve ter seu registro deferido e publicado em Diário Oficial da União. Atualmente, não há nenhum produto registrado/autorizado.
4) Por fim, eu também gostaria de saber se a Anvisa autorizou a Philip Morris a importar ao país sachês de nicotina e dispositivos eletrônicos de tabaco aquecido. Isso porque, em uma entrevista de dezembro Ao Globo, o diretor-geral da empresa no país tirou fotos exibindo os produtos à imprensa. No caso, é permitido que o CEO da Philip Morris importe e armazene sachês de nicotina ou cigarros eletrônicos, e mais ainda: exiba-os à imprensa? Isto pode ser considerado propaganda, no que se refere à Resolução 855/24?
A RDC nº 855/2024 somente permite a importação de DEF com a finalidade de realizar estudos científicos. A situação relatada será apurada.
BAT
A BAT Brasil informa que todas as suas interações com a Anvisa são conduzidas de forma legítima, transparente e em conformidade com os parâmetros legais vigentes. A BAT não comercializa sachês de nicotina no Brasil. Há comercialização formal no Peru e na Argentina, assim como em mais de 40 países em todo o mundo.
